Karen Cunha: “Quem consegue viver de música?”

Karen Cunha
10:00 03.09.2024
Autor

Karen Cunha

Curadora e especialista em eventos de grande porte
Música

Karen Cunha: “Quem consegue viver de música?”

Desafios e transformações de uma indústria mutante

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- 03.09.2024 - 10:00
Karen Cunha: “Quem consegue viver de música?”
Foto: Divulgação.

Antes as gravadoras dominavam a indústria da música. Para entrar neste mercado, os artistas precisavam da “benção” delas. Ser descoberto por um olheiro e ter a oportunidade de assinar um contrato dando plenos poderes de tudo a terceiros.

Não tendo quase nenhuma gerência sobre a sua carreira, não tendo nenhuma noção dos gastos e recebimentos, mas ao mesmo tempo recebendo todo o suporte necessário. Desde a produção de shows, discos e videoclipes, até a gestão de questões de cunho pessoal.

Poucos conseguiam atrair a atenção e efetivamente assinar um contrato com uma gravadora.

Roberto Carlos, por exemplo, teve muita dificuldade para emplacar o seu rock em uma delas. Foi uma série de rejeições e incursões por outros gêneros, como a Bossa Nova, até conseguir finalmente assinar com a Columbia em 1960.

Com o passar dos anos, o crescimento da internet fortaleceu o indie e junto com ele novas tecnologias sociais e formas de distribuição. Além de fazer música, o artista precisava ter minimamente algum conhecimento sobre administração de sua própria carreira, saber quem eram os seus fãs, quanto recebia, de onde vinha o seu dinheiro, quais eram os locais que abriam espaço para seu tipo de som, como montar uma turnê, além de outras questões. 

Tinhamos também plataformas como o myspace e bandcamp, onde a banda poderia criar um perfil e disponibilizar músicas. A crítica musical e os programas de tv contribuíram para que o público conhecesse novas bandas e ritmos, mas não eram os únicos canais de divulgação de novas bandas. 

O indie não foi só um gênero musical, inclusive no Brasil, um dos exemplos mais curiosos é o da Banda Calypso. Calypso foi fundada em 1999 pelo guitarrista Chimbinha e pela cantora Joelma.

Com a pirataria tomando 70% do mercado fonográfico e com a dificuldade de serem aceitos por uma gravadora, o grupo começou fazendo shows acessíveis, vendendo discos diretamente para o público por 10 reais e chegou ao mainstream por uma via completamente nova até então. Longe de parecer “underground” e frequentando os principais programas de TV, a Calypso explorou a forma independente de gravação e distribuição para sair do anonimato e se tornar um grande fenômeno nacional.

Ser investidor, empresário e publicitário de si mesmo, parece algo interessante, mas na prática quase não existia formalização de nada. Fora que com pouco dinheiro circulando, quase ninguém conseguia viver exclusivamente da sua arte.

Hoje o mercado mudou, os independentes se profissionalizaram, mas viver da música está cada vez mais difícil, visto que além de produzir, o artista precisa também entregar conteúdos diários como se fosse uma plataforma de notícias e entretenimento.  

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Os algoritmos decidem o que será ou não divulgado, de modo que além de produzir conteúdo e música, é preciso também manter um certo “lifestyle” que cause interesse aos fãs e também ao algoritmo. Agradar este último é difícil, um dia vale mais postar uma foto, no outro fotos não alcançam mais ninguém e assim as regras vão mudando diariamente. 

Antes obtinha-se lucro pela venda de discos, hoje mal se ganha por play numa plataforma de streaming. Ao mesmo tempo, os shows e clipes precisam ser cada vez mais grandiosos.

Quais artistas conseguem dar conta de tudo isso? Como sobrevivem as pequenas empresas, os artistas de pequeno e médio porte e também aqueles avesso às grandes publicidades?

Essa discussão ocorre não só no mundo da música. Recentemente a atriz Alice Braga em uma entrevista se mostrou apreensiva com a exigência de se ter um número alto de seguidores até para se conseguir um teste para um papel.

Neste contexto, como garantir diversidade não só de ritmos e de artistas, mas de pessoas por trás dessas carreiras.

Inclusão neste caso não pode ser apenas incluir mulheres, negros, pessoas LGBTQAP+ e indígenas nos festivais e playlists e sim promover boas condições para que pessoas de todos os gêneros, tipos e classe social consigam entrar e sobreviver nesse mercado. 

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