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Emicida e sua influência no rap nacional
Emicida e sua influência no rap nacional
A história da música no Brasil é bastante rica e vasta, e tem muito a oferecer para aqueles que se interessam em conhecê-la. O Emicida, assim como diversos outros músicos e artistas, precisou atuar como vanguarda de um movimento que por muito tempo foi suprimido pelas grandes corporações e por uma ideia de sociedade excludente. … Continued

A história da música no Brasil é bastante rica e vasta, e tem muito a oferecer para aqueles que se interessam em conhecê-la. O Emicida, assim como diversos outros músicos e artistas, precisou atuar como vanguarda de um movimento que por muito tempo foi suprimido pelas grandes corporações e por uma ideia de sociedade excludente. Fato é que é impossível falar de Rap Nacional, e do cenário atual da música brasileira, sem falar de Emicida.
Por isso, confira abaixo um pouco mais sobre a história do artista, e como ele atuou diretamente para popularizar o rap e democratizar o acesso da manifestação artística para uma parcela da população cada vez maior.

Como diversos grandes nomes da música, Emicida tem um nome e uma trajetória muito interessante por trás do multi-artista que hoje é referência no cenário musical brasileiro como um todo. Cada parte do seu caminho até se tornar um grande sucesso é, na verdade, um pequeno pedaço da história da música brasileira e, por isso, a história de milhões de jovens periféricos no Brasil.
Quem é Emicida?
Emicida também era conhecido como “assassino de MCs”. Recebeu esse apelido que junta as palavras MC e homicida porque fazia referência direta às inúmeras batalhas de rap, nas quais ele “acabava” com os adversários. Muito mais que apenas uma história de superação, a história de Leandro Roque de Oliveira nada mais é do que um retrato da nossa sociedade e da história de muitos jovens que veem na música uma oportunidade de tentar obter condições de vida melhores.
Como vários jovens hoje em dia gostam de brincar de rimas e encenar batalhas de rap, Leandro, fazia isso com maestria, mas naquela época as rimas vinham no improviso e davam um breve spoiler do artista que ali dentro habitava. Um ponto a ser destacado é que, das batalhas de rap na periferia, surgiu uma das vozes mais potentes da história do rap brasileiro. Por potência, entenda autoridade, importância e principalmente respeito, o qual foi conquistado durante a sua caminhada.
História
Apesar da origem do seu nome artístico ter sido diretamente relacionada com o seu sucesso nas batalhas de rap, ele consegue ressignificá-lo tirando um pouco da violência implícita na ideia original e transformando em uma sigla, em que as iniciais das palavras na frase “Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte” formam o nome E.M.I.C.I.D.A. Essa ressignificação diz muito sobre a capacidade do artista, mas, também, sobre a mensagem que ele pretende passar nas suas obras e em seus discursos.
Nascido em 17 de agosto de 1985, o compositor, rapper, poeta e MC nem sempre teve o reconhecimento de um grande público. Em 2005, muito antes de fazer sucesso, ele já gravava canções autorais, num período que coincidiu com o início das participações em eventos de batalha de rap.
Sua primeira música lançada em ambiente virtual (na internet) foi a música intitulada Contraditório Vagabundo. Nessa obra, o eu-lírico traz diversos aspectos presentes na sociedade, com o intuito de ressaltar as contradições presentes na sociedade brasileira. Algo que também é possível reparar, não só nessa obra, mas o compositor tem grande habilidade para além de escrever, trazer também referências ao seu texto lírico, através de obras bastante conhecidas, relacionando-as de forma bastante inteligente à temática abordada na canção.
Quatro anos depois do seu primeiro single gravado e lançado em 2009, o artista lançou sua primeira mixtape intitulada Pra Quem Já Mordeu Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe….Em 2021, Emicida ganhou o prêmio O Homem do Ano na Música, da Revista GQ, e fez alusão ao nome do álbum na capa – título que, inclusive, foi um fato em sua própria história.

Sua importância e influência para o rap nacional
A importância de Emicida vai muito além da música por si só. Nos últimos anos diversos protestos envolvendo questões raciais tomaram os noticiários ao redor do mundo. Aqui no Brasil, isso não foi diferente. Os diversos casos de violência policial deixavam claro que o país, que sempre teve a sua fama relacionada à diversidade, precisava entender realmente o que a diversidade significa.
Com isso, houve um movimento das grandes corporações que acabou dando espaço na TV para pessoas que representavam minorias políticas, dentre elas mulheres e homens negros, e também pessoas da comunidade LGBTQIA+. Isso trouxe a discussão das pautas raciais muito mais presente dentro dessas grandes corporações, mesmo que esse não fosse o intuito inicial das grandes emissoras.
É importante perceber que, nesse período, Emicida, que sempre se mostrou fiel ao seu discurso de combate ao racismo, fez questão de levar em suas participações discursos que iam diretamente contra o sistema de racismo estrutural pré-estabelecido e que favorecia a exploração dos indivíduos mais pobres, que são de maioria negra.
Todo esse trajeto percorrido ao longo da vida de Emicida, fez com que o rap se tornasse cada vez mais consumido no cenário nacional e rompesse bolhas.
A importância de Emicida vai além daquilo que ele compôs e fez dentro do cenário da música, também percorre ao que ele, sua história e missão representam como um todo. É inegável que sem Emicida, uma parte da cena do rap nacional talvez não tivesse o espaço (de direito) que tem hoje.
Discografia
A discografia do rapper é bastante ampla e já esteve em diversos meios e projetos que talvez você nem imagine.
A sua discografia está distribuída em 8 álbuns, que são:
- Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe… (2009)
- Sua Mina Ouve Meu Rep Tamém (2010)
- Emicídio (2010)
- Doozicabraba e Revolução Silenciosa (2011)
- O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013)
- Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015)
- Língua Franca (2017)
- AmarElo (2019)
Dentre as diversas canções, é possível perceber que, durante toda a sua carreira, Emicida fez e faz questão de trazer cantores e artistas dos gêneros mais diversos para fazer parte das suas composições. Além disso, até mesmo dentro do cenário do rap há diversos artistas que são quase que “apadrinhados” pelo artista.
Em 2013, no álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, há um single chamado Levanta e Anda que fez parte da trilha sonora do game FIFA 15 e tinha como recorrente a presença de músicas de artistas brasileiros, e o Emicida, juntamente com o Rael, fizeram parte da trilha sonora da edição.
Além dessa composição, é impossível não comentar sobre a composição Passarinhos gravada com parceria de Vanessa da Mata. Presente no álbum Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, a mensagem de protesto é passada de forma bastante marcante apesar da “forma sutil” através da sonoridade.
Mas existe uma parte da música que faz uma grande reflexão acerca das mazelas presentes na sociedade atual:
“No pé que as coisas vão, Jão
Doidera, daqui a pouco, resta madeira nem pros caixão
Era neblina, hoje é poluição
Asfalto quente, queima os pés no chão
Carros em profusão, confusão
Veja também:
Água em escassez, bem na nossa vez
Assim não resta nem as barata
Injustos fazem leis e o que resta pro cêis?
Escolher qual veneno te mata”
Além disso, a versatilidade do Emicida fica também evidente quando ele grava Baiana com Caetano Veloso.
Projeto AmarElo
São diversos os projetos de sucesso de Emicida, mas é fundamental que quando se fale de Emicida e rap nacional, citar esse projeto: o AmarElo. Tendo como principal single a canção que leva o mesmo nome do álbum, AmarElo, a canção traz consigo diversas mensagens e pautas que iriam fazer grande sentido e servir como um alento diante do cenário pandêmico.
A composição trata sobre diversas questões existenciais e questões relacionadas à necessidade de nunca perder as esperanças, já que sonhar vale a pena e é preciso batalhar por isso. Nessa composição, a mensagem se relaciona muito a uma frase atribuída ao Racionais MCs, que é “Sempre fui um sonhador e é isso que me mantém vivo”, ressaltando, assim como a composição de Emicida faz, a importância de perseverar nos nossos sonhos, com o intuito de se manter sempre em busca de algo.
Para a composição dessa obra, Emicida convidou Pabllo Vittar e Majur. As artistas trouxeram para a música as suas participações através de versos que retratavam a importância de sempre se manter focado no futuro, e tentar se desapegar do passado, já que isso não vai mudar mais, como é possível ver no trecho abaixo.
“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes
Que nem devia tá aqui
…
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência
É roubar o pouco de bom que vivi
Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes
É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir”
Emicida consegue se fazer relevante, misturando cantores do pop, do funk, do rap, da bossa nova, com músicas de expressão, levando uma mensagem extremamente relevante e dando espaço para que o rap e outros artistas no geral consigam se inserir dentro do cenário musical.
Isso tudo é retratado no documentário AmarElo – É tudo pra ontem lançado em 2020, na Netflix, onde as questões raciais são tratadas com a urgência que merecem e com um discurso muito forte de combate, como o próprio título do documentário retrata.
Emicida em todas as suas obras tenta resgatar elementos do passado para tratar de questões presentes e futuras, conversando muito bem com diversas obras da música popular brasileira e com as próprias diferentes gerações.
Emicida, Rael, Fióti e Drik Barbosa foram a principal atração do Festival Novabrasil 2022, trazendo o rap pela primeira vez ao palco do evento – um momento histórico, registrado aqui.


