8 músicas inesquecíveis de Adoniran Barbosa

Novabrasil
09:30 23.11.2022
Música

8 músicas inesquecíveis de Adoniran Barbosa

Hoje, dia 23 de novembro de 2022, completamos exatos 40 anos sem Adoniran Barbosa, um dos mais importantes nomes da nossa MPB e um dos maiores representantes da música paulistana, responsável pelos grandes sambas que marcam a história da cidade de São Paulo. Confira, nesta matéria, 8 músicas inesquecíveis de sua autoria. Adoniran Barbosa tornou-se … Continued

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- 23.11.2022 - 09:30
8 músicas inesquecíveis de Adoniran Barbosa
Arquivo / Agência O Globo. Negativo (Foto: Agência O Globo)

Hoje, dia 23 de novembro de 2022, completamos exatos 40 anos sem Adoniran Barbosa, um dos mais importantes nomes da nossa MPB e um dos maiores representantes da música paulistana, responsável pelos grandes sambas que marcam a história da cidade de São Paulo. Confira, nesta matéria, 8 músicas inesquecíveis de sua autoria.

Dia 23 de novembro de 2022 completamos 40 anos sem o mestre Adoniran Barbosa | Foto: Arquivo / Agência O Globo.

Adoniran Barbosa tornou-se um grande cronista musical da vida da capital paulistana

Cantor, compositor, ator e humorista, Adoniran tornou-se um grande cronista musical da vida da capital paulistana, principalmente das camadas populares e dos bairros com famílias de imigrantes italianos.

Exímio observador, contava histórias típicas do cotidiano de São Paulo como ninguém, apropriando-se da linguagem popular dos cidadãos paulistanos e retratando seus tipos, costumes, dramas e alegrias, sempre com muito humor e pitadas de crítica social, sobre uma cidade que – apesar de próspera – esconde as mazelas da exclusão social.

Adoniran nasceu João Rubinato e – quando começou sua carreira na rádio, onde representava diversos personagens – deu o nome de um deles, o mais famoso de todos, de Adoniran Barbosa. O personagem ganhou tanta popularidade que fez o seu intérprete mudar o nome artístico.

Adoniran Barbosa foi garçom, serralheiro, tecelão e outros. Mas, seu grande sonho era ser conhecido como artista de rádio

Filho de imigrantes italianos que vieram tentar uma vida melhor no Brasil, começou a trabalhar ainda criança para ajudar no sustento da família. Antes de começar na carreira artística, Adoniran exerceu várias atividades como garçom, serralheiro, tecelão, pintor, metalúrgico e vendedor de tecidos. 

Sempre boêmio, também frequentava os bares e as rádios das redondezas e fazia amizades com locutores e artistas. Seu verdadeiro sonho era tornar-se um conhecido artista do rádio.

Antes do rádio, tentou os palcos, sendo a atuação a sua primeira vocação. Mas foi muito rejeitado, por sua suposta falta de instrução (o pouco que não aprendeu na escola, aprendeu muito com a vida de batalha desde cedo) e também por não ter padrinhos ou grandes contatos na área. Então, partiu para a tentativa de mostrar o seu talento estando em evidência na rádio, em plena ascensão na época.

Adoniran tornou-se um grande cronista musical da vida da capital paulistana | Foto: Arquivo pessoal/Veja SP

“Filosofia” foi o samba que abriu o sucesso de Adoniran Barbosa para as rádios

Começa como compositor, mas logo entende que – para ser visto – precisa atuar como intérprete. Passou, então, a se arriscar como intérprete de sambas em programas de calouros. Depois de algumas tentativas frustradas, o samba que lhe abre as portas para o sucesso nas rádios é Filosofia, de Noel Rosa e André Filho, em 1933.

Sua primeira composição gravada foi a marcha Dona Boa (parceria com J. Aimberê), na voz de Raul Torres, em 1935.  Em 1941, passou a trabalhar com radioteatro na Rádio Record, no programa do pioneiro Osvaldo Moles, onde interpretava diversos personagens que tinham uma linguagem bem popular e tipicamente paulistana. Foi aí que começou a criar – com a ajuda de Osvaldo – os tipos e histórias que viriam ilustrar a maioria de suas composições musicais.

Adoniran Barbora e os Demônios da Garoa

Entre as personagens que criava a partir da observação do cotidiano da grande cidade paulistana e que inseriu em suas mais importantes composições, estão tipos como: os despejados de cortiços e favelas, os engraxates, o malandro, o professor, o boêmio, a mulher submissa que se revolta e abandona a casa, o homem solitário, entre tantos outros personagens marginalizados pelo acelerado crescimento urbano-industrial de São Paulo.

Foi por esta época, em 1943, que Adoniran conheceu os músicos do conjunto Demônios da Garoa e juntou-se a eles para formar uma banda que animou a torcida dos jogos de futebol promovidos por artistas de rádio no interior de São Paulo. 

Em pouco tempo, na década de 50, o grupo Demônios da Garota se tornaria o maior intérprete das canções de Adoniran e projetou seu nome no Brasil inteiro, tornando-o um dos maiores compositores da nossa história.

O grupo veio ao Radar, no dia 10 de novembro, e falou sobre a história do grupo e a importância de Adoniran. Clique aqui para assistir a entrevista completa.

Adoniran e Os Demônios da Garoa | Foto: Acervo Adoniran Barbosa

8 músicas inesquecíveis de Adoniran Barbosa

Vamos relembrar 08 dos maiores clássicos compostos por Adoniran Barbosa?

1 – Saudade da Maloca

Em 1951, depois de muitos anos trabalhando como cantor, ator e animador em programas na rádio, Adoniran Barbosa gravou o seu primeiro disco 78 rpm (rotações por minuto), que conta um dos maiores sucessos de sua carreira, Saudade da Maloca, que em gravações futuras mudou de nome para Saudosa Maloca.

A canção – que fala sobre os desabrigados, pessoas que vivem à margem da sociedade, periféricas, excluídas, expulsos de suas casas humildes devido à expansão imobiliária e abandonados à própria sorte pelo poder público – foi gravada pelos Demônios da Garoa em 1955.

Joga as cascas pra lá, joga as cascas pra cá

O grupo paulistano entendeu a proposta de Adoniran, que trazia um linguajar matuto e cheio de “erros” de concordância nas letras, e aprimorou o “caipirês”, além de criar o inconfundível “cas cas cas cas culá” do início e do final – uma brincadeira fonética que o povo transformou em “joga as cascas pra lá, joga as cascas pra cá”. Foi a partir desta regravação que o cantor-radioator-humorista-criador de tipos se consagrou definitivamente como compositor.

A cantora Marlene gravou também Saudosa Maloca, tornando a canção ainda mais popular. Depois, Saudosa Maloca foi gravada por diversos nomes como Elis Regina, João Bosco e Beth Carvalho.

2 – Malvina

Também em 1951, o seu samba Malvina (nome de sua esposa, companheira de Adoniran Barbosa até o fim da vida) ganha um concurso carnavalesco em São Paulo, é gravado pelos Demônios da Garoa e lançado para o carnaval do ano seguinte.

Malvina

Você não vai me abandonar

Não pode

Sem você como é que eu vou ficar?

Tá fazendo mais de dez anos

Que nós temos juntos

E daqui você não sai

3 – Samba do Arnesto 

Em 1953, Adoniran Barbosa gravou outro de seus grandes sucessos, o clássico Samba do Arnesto, em parceria com Alocim, regravada dois anos depois pelos Demônios da Garoa, também com muito sucesso.

Arnesto, o amigo que deu o cano nos colegas de samba, realmente existiu, mas nunca morou no Brás e nem sequer convidou Adoniran para uma fracassada roda de samba. 

Ernesto Paulelli contou em uma entrevista certa vez, que conheceu Adoniran em 1938, quando foi se apresentar com a cantora Nhá Zefa, na Rádio Record, em São Paulo:

“Eu não conhecia o Adoniran e ele também não me conhecia. Nos cumprimentamos e ele pediu meu cartão. Entreguei e ele disse: ‘Arnesto Paulelli’. Eu o corrigi – disse que o nome certo era Ernesto – Mas ele insistiu: ‘É Arnesto, o seu nome dá samba. Vou fazer um samba para você. Duvida?’. Um dia fui conversar com o Adoniran e perguntar que história era aquela de dar um bolo nele. Com aquela voz rouca ele me respondeu: ‘Arnesto, se não tem bolo não tem samba […]’. 

Deste encontro, além da inesquecível canção nasceu uma amizade que durou até a morte de Adoniran, em 1982, aos 70 anos.

Rita Lee, Simone e Quarteto em Cy foram nomes que regravaram o Samba do Arnesto.

4 – As Mariposas

Ainda em 1955, Adoniran compôs outro grande sucesso de sua carreira: As Mariposas.

A divertida canção faz uma relação entre um fato curioso observado pelo artista – o de que as mariposas, quando chegava o frio, ficavam dando voltas em volta de uma lâmpada (que no linguajar de Adoniran é “lâmpida”) pra se esquentar – com as mulheres que ficavam em volta dele de noite, só pra lhe beijar!

Veja também:

As mariposa quando chega o frio

Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá

Elas roda, roda, roda e dispois se senta

Em cima do prato da lâmpida pra descansá

5 – Iracema

Diferente das letras alegres e bem-humoradas de Adoniran Barbosa, Iracema talvez seja umas das músicas brasileiras mais trágicas da história. Seus versos finais são de uma tristeza profunda: 

E hoje, ela vive lá no céu

E ela vive bem juntinho de nosso Senhor

De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos

Iracema, eu perdi o seu retrato

Iracema narra o lamento de um homem pela morte de sua amada. Faltando 20 dias para o casamento, a noiva atravessou a Rua São João sem olhar para os lados e foi atropelada, morrendo tragicamente. O enredo da história não é cantado e sim falado no meio da canção. 

Existe a versão que diz que o artista teve como inspiração para a composição uma notícia de jornal sobre o atropelamento de uma mulher na Rua da Consolação.Já outra versão, diz que o compositor teria feito a letra da música para um amor não correspondido. Com a canção, teria matado figurativamente aquela mulher da sua vida.

Iracema foi lançada pelos Demônios da Garoa em 1956, com muito sucesso. Em 1978, Clara Nunes regravou a canção, dando um tom mais passional a ela, que mais uma vez fez muito sucesso. Na versão de Clara Nunes, o próprio Adoniran explica para os ouvintes o episódio.

6 – Trem das Onze

Em 1964, Adoniran atingiu o auge do seu sucesso e consagrou-se como um dos maiores compositores da música popular brasileira, quando sua canção Trem das Onze, foi lançada pelos Demônios da Garoa em um compacto simples. 

Trem das Onze passa a ser um hino da cidade paulistana e é até hoje considerada um dos maiores clássicos da MPB.

Bem-humorada e com letra e melodia bastante simples, o forte da composição é o modo espirituoso como Adoniran conta a história de um sujeito que se despede de uma mulher.  Ele justifica as razões pelas quais precisa ir embora: O horário do trem é um dos motivos, mas sobretudo o que o aflige é o cuidado com a mãe e a casa.

Adoniran nunca morou no Jaçanã

Adoniran nunca morou no Jaçanã, e contava que a referência feita era para aproveitar a rima com “só amanhã de manhã”. Porém, existia mesmo uma linha de trens que passava pelo Jaçanã, da extinta Tramway da Cantareira, ou Estrada de Ferro da Cantareira. Na ramificação que saia do Mercado Municipal, no centro, e ia até Guarulhos

Em 1974, Adoniran finalmente grava seu primeiro LP e inclui Trem das Onze no repertório, consagrando, em definitivo, a canção com sua própria voz e seu sotaque “ítalo-paulista”.

Outras gravações significativas de Trem das Onze foram feitas por Gal Costa (1973), por Caetano Veloso e Maria Gadú (2010).

7 – Tiro Ao Álvaro

Em 1960, em parceria com Osvaldo Moles, Adoniran compôs outro de seus maiores e icônicos sucessos: o samba Tiro Ao Álvaro. A canção é o relato de alguém que está recebendo muitos olhares penetrantes e amorosos de outra pessoa, a ponto de se sentir, de modo figurado, com o peito furado.

Composta em 1960, a música foi censurada em 1973, por ter na letra palavras escritas fora da norma padrão, como ”Tauba” ao invés de “Tábua”. Esse uso fora da norma culta é muito comum nas músicas de Adoniran, porque, segundo o artista, ele fazia samba para o povo e esse é o modo como o povo fala. 

Para que pudesse ser aprovada, Tiro ao Álvaro, teria que ser modificada, virando Tiro ao Alvo e tendo suas palavras escritas e cantadas obedecendo a norma padrão. Ao invés de modificar sua obra, Adoniran preferiu deixar para gravar a música mais tarde, quando não houvesse mais censura, pós ditadura. Isso aconteceu alguns anos antes: em 1980, Elis Regina gravou Tiro Ao Álvaro junto com Adoniran, em seu disco Adoniran Barbosa – 70 anos.

8 – Viaduto Santa Efigênia

Em 1978, Adoniran grava outro grande clássico de sua carreira, uma homenagem a um dos cartões postais da cidade de São Paulo: Viaduto Santa Efigênia, que havia acabado de ser reformado neste mesmo ano. A canção é uma parceria com Alocin.

Durante a República Velha (1889-1930) São Paulo se industrializou, chegando a seu primeiro milhão de habitantes em 1928. A expansão da cidade para o oeste, facilitada pela criação do Viaduto do Chá em 1892, aumentou o trânsito entre as duas margens do Vale do Anhangabaú e impôs a necessidade de mais uma ponte, que poupasse os cidadãos e os veículos de carga das agruras da ladeira de São João. 

Esta necessidade pontual simbolizou as transformações daquele tempo. Para saná-la foi erguida uma estrutura de metal de 225 metros de comprimento, em estilo Art Nouveau, projetada pelos arquitetos italianos Giulio Michetti e Giuseppe Chiapori. O Viaduto Santa Efigênia nascia, desta forma, em 26 de setembro de 1913, com um desenho que remetia à Belle Époque do fim do século 19.

A conversa sobre a frustrada demolição do Viaduto logo virou samba

Mais de 50 anos depois, na década de 1970, aquele símbolo que tanto orgulhava os paulistanos quase virou sucata. Com a construção do metrô que atravessava o subterrâneo do centro de São Paulo, o viaduto parecia desnecessário. Mas, diante da reação negativa da população, as autoridades logo descartaram a execução deste assassinato arquitetônico no coração da cidade, e reformaram o Santa Efigênia, destinando-o exclusivamente a pedestres.

Nesta época, Adoniran Barbosa, que já andava pelo viaduto, encontrou, em certa tarde, o compositor Nicola Caporrino, no Centro de São Paulo. A conversa sobre a frustrada demolição do Viaduto logo virou samba. 

Nele, o cantor fala à uma suposta Eugênia, chamando-a para ver: como ficou bonito o Viaduto Santa Efigênia, e sugerindo que ali ela viveu os momentos mais importantes de sua vida.

Como em suas outras músicas, o cantor revestiu a passarela de memórias e de histórias pessoais. Com elegância ele traduziu sentimentos particulares de pessoas humildes, de vidas marcadas pelo compasso do trabalho, sentimentos de quem contempla, com o crescimento da cidade.


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