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Belchior, nosso eterno poeta, faria 76 anos hoje!
Belchior, nosso eterno poeta, faria 76 anos hoje!
Hoje, 26 de outubro, é uma data muito importante para a música popular brasileira. Além de Milton Nascimento, também seria o aniversário de um de seus mais importantes representantes: o eterno Belchior. O cantor, compositor, produtor, instrumentista, artista plástico e professor cearense brincava – apropriando-se dos sobrenomes do seu pai e da sua mãe – … Continued
Hoje, 26 de outubro, é uma data muito importante para a música popular brasileira. Além de Milton Nascimento, também seria o aniversário de um de seus mais importantes representantes: o eterno Belchior.
O cantor, compositor, produtor, instrumentista, artista plástico e professor cearense brincava – apropriando-se dos sobrenomes do seu pai e da sua mãe – que seu nome completo era Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, “o maior nome da MPB”. Mas ele não precisava disso: apenas como Belchior, já é um dos maiores nomes da nossa música.

O poeta e estudioso da palavra que nos deixou em 2017, faria hoje 76 anos. E, aproveitando a data, resolvemos também celebrar os 46 anos de lançamento do seu mais importante disco: Alucinação.
Alucinação, de Belchior
Lançado em 1976, quando ele tinha 30 anos de idade, Alucinação é o segundo álbum da carreira de Belchior e foi responsável por lançar o artista ao estrelato e dar a ele reconhecimento nacional.
Produzido por Marco Mazzola, que dizia considerar Belchior o Bob Dylan brasileiro, o disco vendeu 30 mil cópias em apenas um mês e mais de 500 mil cópias no total, consagrando Bel como um ídolo de massa.
Mesmo após vários anos de seu lançamento, Alucinação ainda ecoa várias canções por rádios, shows e regravações em todas as partes do Brasil: ano passado, a cantora e compositora paulistana Ana Cañas lançou um álbum inteiro dedicado à obra de Belchior e – em 2019 – o sample que Emicida fez com Sujeito de Sorte em AmarElo, foi uma das canções mais impactantes dos últimos tempos.
Alucinação contém canções que exprimem a urgência e a inquietude do jovem brasileiro da época
Considerado um dos mais importantes e revolucionários discos da história da música brasileira, uma verdadeira obra prima, Alucinação contém canções que exprimem a urgência e a inquietude do jovem brasileiro da época, entre a violência do estado e o fim dos sonhos de liberdade, com a Ditadura Militar em pleno vapor.

As composições trazem temas filosóficos, geracionais e humanos, em uma obra de forte caráter crítico, político e poético, como tudo o que Belchior fazia.
A sólida base sonora do álbum transita entre o blues, o country, o baião, o folk e o rock’n roll, mostrando que as influências de Belchior transitam brilhantemente de Luiz Gonzaga aos Beatles.
Josely Teixeira Carlos, radialista, professora e pesquisadora da USP, diz que:
“esse disco resume o sentimento de toda uma geração brasileira, interiorana no meio da cidade grande.”.
Ela ressalta várias referências que o poeta imprimia em suas composições, como conflitos geracionais e ideológicos, filosofia, a relação entre o regional e o nacional no Brasil, as questões migratórias entre o campo e a cidade, a relação do homem com a religião e o papel do jovem e do povo brasileiro em um cenário mais amplo da América Latina.
Todas as 10 faixas são composições solo de Belchior
O disco traz 10 faixas, todas composições solo de Belchior, que costumava compor bastante sozinho e, por isso, imprimia tão fortemente sua personalidade e suas sensações nas letras cantadas em primeira pessoa.
Entre os imensos sucessos do disco, está a faixa-título, Alucinação, sobre a qual Belchior explicou certa vez em uma entrevista:
“Viver é mais importante que pensar sobre a vida. É uma forma de delírio absoluto, entende?“.
Nela, o artista traz um retrato cruel das grandes metrópoles brasileiras, com versos de quem passou por maus bocados no início de carreira numa cidade grande, quando veio junto com o Pessoal do Ceará (Fagner, Amelinha, Fausto Nilo...) tentar a vida artística no sudeste do país.
Em sua composição, Belchior já mostrava – naquela época – quem eram (e ainda são) os principais alvos da violência cruel e iminente no país: “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”.
A canção termina com uma das mais belas frases do cancioneiro popular brasileiro, em que ele diz que – apesar de vivermos tempos difíceis – o amor ainda é capaz de nos salvar:
“Amar e mudar as coisas me interessa mais”.
Apenas Um Rapaz Latino-Americano
Outra canção que fala sobre o seu início de carreira, vindo do interior, é um dos maiores sucessos da carreira de Belchior e responsável por abrir o disco: Apenas Um Rapaz Latino-americano, em que o artista conta sobre as dificuldades de se fazer arte em tempos duros de repressão e Ditadura Militar e diz que tudo já não é tão “divino e maravilhoso”, como dizia a canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil, lá de 1968, quando a Tropicália já criticava o regime militar e nos lembrava que era preciso estarmos atentos e fortes.
A segunda e a terceira faixas do disco, Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais, haviam sido gravadas por Elis Regina no mesmo ano, em seu disco Falso Brilhante, e estouraram em sua voz, como tudo o que Elis gravava. A gaúcha foi muito importante para que o Brasil conhecesse de vez o grande Belchior, mas as composições de Bel também foram responsáveis por projetar ainda mais a carreira já consagrada de uma das maiores cantoras do Brasil.
As duas canções falam – nunca deixando de lado o cenário de repressão e censura – sobre conflitos e também congruências de gerações. De jovens e antigos, de velhos e novos, de pais e filhos. Que tudo o que é jovem um dia vira antigo e que precisamos todos rejuvenescer e mudar o tempo todo, perante o que já não nos interessa mais.
Como Nossos Pais
Como Nossos Pais é um dos maiores clássicos da MPB de todos os tempos e ocupa a posição 43 entre As 100 Maiores Músicas Brasileiras pela Rolling Stone Brasil.
Logo em seguida, vem Sujeito de Sorte, nos trazendo uma dose de realidade e também de esperança, de que todo o sangue e sofrimento vão passar em um futuro breve.
Como o Diabo Gosta é mais um hino de libertação, que nos leva a desprender do que não nos pertence e fazer o que acreditamos, seguindo a nossa verdade e não o que nos é imposto. Um enfrentamento direto à ditadura, à censura e à repressão.
Em Não Leve Flores, Belchior apresenta suas ferramentas para a liberdade – as palavras e os sons: “
A voz resiste, a fala insiste, você me ouvirá / A voz resiste, a fala insiste, quem viver verá”.
Já em A Palo Seco – que teve seu nome inspirado em um poema de João Cabral de Melo Neto – Belchior faz seu canto torto, seco, direto, sem rodeios – feito faca – cortar a nossa carne e penetrar a nossa alma, bem no fundo, sem nunca nos deixar anestesiar.
Depois vem a super autoral Fotografia 3×4, que também mostra as angústias e sofrimentos que carrega uma pessoa que migra do norte para o sul do Brasil, mas que – mesmo vivendo assim, desnorteado, desapontado – não se esquece de amar, de se apaixonar. E que termina validando a identificação que muitos sentem com sua história:
“Eu sou como você”.
O disco encerra com Antes do Fim: desejando amor, evocando esperança e chamando a atenção para algo que permeia todo o disco: que a gente aprenda com coisas reais. E não com alucinações. Alucinação é suportar o dia a dia:
“Viver é que é o grande perigo”.
Os dois: Belchior e Alucinação. Completando 76 e 46 anos de história. E sendo trilha sonora da nossa história. Quer escutar a história de Belchior onde e quando quiser? Escute ao Acervo MPB especial Belchior.


