Hoje é dia de Emicida!

Lívia Nolla
12:00 17.08.2022
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Jornalismo

Hoje é dia de Emicida!

Hoje é aniversário de um dos mais importantes nomes da MPB da atualidade e de todos os tempos: o multiartista Emicida completa 37 anos. E para uma celebração a altura, este é só o começo. Com tamanhas vivências e marcos em sua carreira, faremos uma série de matérias aqui no site da Novabrasil sobre a trajetória … Continued

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- 17.08.2022 - 12:00
Hoje é dia de Emicida!
Hoje é dia de Emicida!

Hoje é aniversário de um dos mais importantes nomes da MPB da atualidade e de todos os tempos: o multiartista Emicida completa 37 anos. E para uma celebração a altura, este é só o começo. Com tamanhas vivências e marcos em sua carreira, faremos uma série de matérias aqui no site da Novabrasil sobre a trajetória de Emicida que, desde o princípio, por meio de sua expressão, contribui infinitamente para a cultura, sociedade e arte brasileiras.

 

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Emicida, o começo de tudo

Nascido Leandro Roque de Oliveira, no dia 17 de agosto de 1985, o rapper, cantor, letrista, compositor, apresentador e empresário paulistano é considerado uma das maiores revelações do hip hop do Brasil da década de 2000.

Nascido no Tucuruvi e criado em um bairro bastante humilde da zona norte de São Paulo, o Jardim Fontalis, passou uma infância de dificuldades, ao lado da mãe – Dona Jacira, grande inspiração – das duas irmãs mais velhas e do irmão mais novo, Evandro.

“Um Triunfo mermo pra nós é o sorriso da coroa”, TRIUNFO, 2008.

“Nossas mãos ainda encaixam certo / Peço um anjo que me acompanhe / Em tudo eu via a voz de minha mãe / Em tudo eu via nóis”, MÃE, 2015.

Evandro – que também é músico, produtor, e hoje é seu sócio e empresário – ganhou o apelido de Fióti em uma entrevista que Emicida deu no Programa do Jô, dizendo que ele era um “fióti” (jeito de falar de “filhote”) de Emicida, por ser mais novo. O apelido pegou e virou nome artístico.

Emicida perdeu o pai, Miguel, muito cedo, por conta de uma briga de bar. Miguel era DJ dos bailes black do bairro – muito comuns naquela época – os quais organizava junto com Dona Jacira e onde Emicida teve o seu primeiro contato com a música. 

O pai tentou fazer carreira musical, mas – com o tempo, a falta de dedicação necessária e sem saber direito que passos seguir – não conseguiu. Trabalhou como metalúrgico e, depois, recolhendo ferro velho nas ruas. Frustrado, caiu no alcoolismo e morreu quando Leandro tinha apenas seis anos de idade. Na briga de bar, foi empurrado por um parente ao tentar separar, caiu, bateu a cabeça na calçada e sofreu um traumatismo craniano.

Emicida e a mãe narram esse fato de forma emocionante na música Crisântemo, de 2013:

“Ele bebeu, bebeu tipo vencedor

E depois riu, riu como o Bira do Jô (…) 

Ele nos deu, nos deu, toda a fé de um pastor 

Depois sumiu, sumiu, deixando só a dor”. 

 

“Era dia de Cosme, Madrugada

Chovia lá fora 

De repente alguém chama 

Jacira, sou eu, Luiz

Pressenti, Miguel morreu”

CRISÂNTEMO, 2013 

Dona Jacira

Dona Jacira – hoje escritora, poeta, ativista, cantora, artista plástica e bordadeira – criou os quatro filhos sozinha, trabalhando na feira, estudando enfermagem e também como empregada doméstica. 

Vê o peso do mundo nas costas de uma mulher”). MÃE, 2015.

Nunca se conformou com a máxima de que “preto e pobre não tem direito” e foi à luta para mudar a sua vida e a de seus filhos.

A história do título dessa matéria – que é o título também da primeira mixtape lançada por Emicida – é real. Muitas vezes, Dona Jacira só conseguia comprar um pão para dividir entre seus quatro filhos. Certa vez, Emicida, distraído com a televisão, teve seu único pedaço de pão furtado pela cadelinha da família, a Afrodite. De tanta raiva – e fome – deu-lhe uma mordida. Com a boca cheia de pêlos pensou: “O que eu estou fazendo?”.

Era com fome também, que ele ficava nas saídas dos cultos das igrejas evangélicas ou dos centros de umbanda, para conseguir filar um lanchinho (Emicida tem uma relação bastante respeitosa com diversas religiões: o budismo, o candomblé, o cristianismo…). “Pra qualquer santo que desse comida eu tava rezando”. Rezando e cantando: foi escutando os cultos e cantos que Leandro fez suas primeiras rimas. 

Veja também:

Na escola e nas ruas, Dona Jacira já via os filhos sofrendo o mesmo racismo que sofreu desde a infância, quando na escola de freiras apanhava por conta de sua cor e era separada das meninas brancas por ter “cabelo ruim”: “Mas, espera aí, era meu cabelo, não sabia que ele era ruim!”, conta, dizendo que foi ali que descobriu que o racismo existia.

Por isso, só mandou seus filhos para a escola quando eles já sabiam se defender: “O que pode acabar com o racismo é a educação, a que se dá dentro de casa para os filhos. Os meus nunca baixaram a cabeça. Nunca. Eles não foram criados como inferiores. E isso não é a escola que vai dar.”.

Os quadrinhos e o poder das palavras

Por esses motivos, Emicida, que gostava bastante de estudar, odiava o ambiente escolar e não queria saber da escola. Foi quando uma professora descobriu que ele era apaixonado por histórias em quadrinhos – seu sonho era ser quadrinista – e podia aprender coisas a partir delas.

A paixão pelos quadrinhos ficava lado a lado com a paixão pelo rap. Foi ouvindo rap que Leandro aprendeu tudo sobre Malcolm X, Martin Luther King e Zumbi dos Palmares. Começou a ler quadrinhos com histórias da vida real e automaticamente começou a ser um cronista da vida real, a fazer poesias. Emicida sempre diz que se considera um contador de histórias.

 “Eu lia os gibis na banca e corria para casa desenhar – até que descobri os sebos e fiz a minha coleção. As HQs têm muito a ver com o meu rap, com o jeito de contar histórias, revelar detalhes importantes em poucos quadros”, afirma.

“Eu cresci onde os moleque vira homem mais cedo”), TRIUNFO, 2009

O garoto Leandro, desde cedo, trabalhava com diversas coisas para ajudar em casa e também para comprar seus discos – sempre os da promoção, por isso escutava muita música instrumental – e suas HQ’s nos sebos que frequentava. 

As rimas de Emicida

Foi pedreiro, trabalhou na feira e vendeu hotdog. Também formou-se em Design Gráfico e, fez estágio na área, trabalhando como desenhista e ilustrador. Chegou a trabalhar também em uma produtora musical pouco antes de tornar-se conhecido, e conta que lá aprendeu muito do que era produzir música.

Sempre foi tímido, nem pensava em subir em um palco. Quando tinha 15 anos, ganhou um torneio de desenho de quadrinhos de São Paulo chamado Geração Cultura. O prêmio era uma viagem de avião para Pernambuco. Leandro nunca tinha andado de avião, praticamente nunca tinha saído do seu bairro. E, lendo o jornal do dia no avião, viu que tinha um centro cultural em São Paulo que ia dar um curso de quadrinhos.

Quando voltou para a capital paulista, foi até a Avenida Paulista para se inscrever nessa aula. Mas, como não tinha mais vagas, acabou se inscrevendo em um Workshop de Rap, no mesmo local.

Nesta época, ele já fazia uma brincadeira de rimas com os amigos. Ele conta que a inspiração para escrever suas primeiras músicas veio de duas fitas cassetes compradas em conjunto em um camelô: Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s, e Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára, do Planet Hemp, ambos discos de 1997. Foi ali que resolveu parar pela primeira vez e botar suas rimas no papel.

“Escrever, pra mim, é ter a benção de passear pelo tempo. Estar aqui e agora, mas poder visitar, sentir e também poder compartilhar os sentimentos tanto do ontem como de amanhã.”, afirma.

“Escrevo como quem manda cartas de amor”), CANANÉIA, IGUAPE e ILHA COMPRIDA, 2019.

O Rap

Emicida conta que o Workshop era, na verdade, um encontro de dois dias, onde advogados e jornalistas faziam uma análise sociológica do rap. Eles estavam falando da história do rap, coisas que Emicida já tinha lido sobre, mas achou bastante interessante ter brancos (“boys”, como ele fala em uma entrevista) discutindo o assunto.

Resolveu sentar mais pro fundo da sala, perto de um cara também negro, com quem se identificava mais por ali, como contou também em entrevista. De repente, esse garoto falou pra ele: “Esses caras estão querendo roubar o rap de nós. Não podemos deixar. Vamos lá “. O cara puxou o Emicida pelo braço, pegou o microfone e começou a fazer rimas no palco.

As pessoas que estavam participando do evento começaram a curtir, achando que aquilo fazia parte da programação. Aí, o cara jogou o microfone na mão do Emicida – ainda Leandro – que ficou muito nervoso e travou, não conseguiu fazer rima nenhuma.

Leandro foi pra casa triste, pensando que o negócio dele não era subir no palco mesmo. Mas ele não queria que as pessoas ficassem com essa impressão, então – no dia seguinte – voltou já com uma rima decorada pra fingir que era improviso. 

Subiu com o mesmo garoto de novo no palco – dessa vez, o pessoal do evento já tinha até deixado um horário reservado para eles fazerem a “performance” – e Leandro não conseguiu fazer o que tinha decorado. Por isso, fez um improviso de verdade, no melhor estilo freestyle. E arrasou, claro. Foi neste momento que ele pensou: acho que tenho uma aptidão para isso.

Saiu do evento junto com o cara que o fez subir no palco, que no fim das contas, era – ninguém mais ninguém menos – que o também rapper paulistano Rashid.  Leandro e Rashid começaram a frequentar as batalhas de MCs que aconteciam em São Paulo, e Leandro, com sua inteligência, sensibilidade, perspicácia, agilidade e genialidade com as palavras e com o improviso, ganhava praticamente todas.

“Freestyle é tipo oração / Só se faz, não pensa / 40 segundos e uma missão extensa / Corpo, alma e coração em um / Sentimento em comum / Dando vazão pra tal celebração”), AINDA ONTEM, 2009.

Emicida, o “assassino de MC’s”

Venceu onze vezes consecutivas a Batalha de MC da Santa Cruz e por doze vezes a Rinha dos MC. Seus amigos começaram a chamá-lo de “assassino de MCs”, diziam que com ele não sobrava um, que ele era um verdadeiro “homicida” nas batalhas. Foi ele quem falou: “Homicida não, porque eu assassino apenas MC ‘s. Sou um Emicida. O nome pegou. 

Depois, Emicida também passou a atribuir o nome a uma sigla: “Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte”.

Vencendo cada vez mais batalhas em São Paulo, Emicida foi para o Rio de Janeiro, onde acontecia a importante Liga dos MCs. E venceu, sendo o primeiro cara de São Paulo a ganhar o torneio. Foi aí que começou a ficar mais conhecido.

Logo mais, você confere mais uma matéria especial em homenagem a Emicida, um dos maiores nomes da nossa música aqui, no site da Novabrasil.

por Lívia Nolla

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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