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A curiosa história da música “Festa do Interior”, no dia de São João
A curiosa história da música “Festa do Interior”, no dia de São João
Uma das mais famosas canções juninas, composta por Abel Silva e Moraes Moreira, não teve a inspiração no Dia de São João


Hoje é Dia de São João em todo o Brasil! Dia 24 de junho é a data é tradicionalmente atribuída ao nascimento de João Batista – o São João – conhecido como o Santo Festeiro. Neste dia, no país inteiro, são realizadas comemorações marcadas por música, danças, pratos típicos e brincadeiras.
A origem da festa de São João remonta à época da formação da igreja católica na Europa, na transição da Idade Antiga para a Idade Média. A fogueira, símbolo tão forte da celebração junina, remete à fogueira acesa pelos pais de São João no dia de seu nascimento, para celebrar a sua chegada.
Mesmo sendo uma tradição trazida para o Brasil pelos europeus, na nossa cultura popular brasileira as Festas Juninas somaram-se à cultura dos nossos povos originários e têm lugar especial e muito genuíno, pois valorizam as tradições locais e regionais do país e também revelam muitos elementos exclusivamente brasileiros.
Os elementos das Festas Juninas brasileiras – que também celebram Santo Antônio e São Pedro e não são mais festividades somente religiosas – remetem a características muito próprias das regiões que promovem as maiores e mais tradicionais festas de São João do país: principalmente a região Nordeste e a região Norte.
Considerado o maior São João do mundo, a festa de Campina Grande, na Paraíba, reúne milhões de visitantes e locais numa grande celebração que dura um mês inteiro.

A música é recheada de forró pé de serra, xote e baião; entre os pratos típicos não pode faltar a canjica, a pamonha, o cuscuz, o pinhão, a pipoca, o arroz-doce, o curau, o pé de moleque, o quentão e o vinho quente.
As vestes, a decoração – com bandeirinhas, balões e tecidos de chita – os jogos, brincadeiras e barraquinhas, as danças – como a quadrilha e as grandes rodas – tudo isso celebra as nossas regionalidades e faz da nossa Festa Junina uma das mais tradicionais festividades populares do Brasil.
Entre as músicas tradicionais desta época do ano se destacam sucessos como “Chegou a Hora da Fogueira” (Lamartine Babo); “Isso Aqui tá bom Demais”(Dominguinhos e Nando Cordel); “Olha Pro Céu” (Luiz Gonzaga e José Fernandes); “Pula a Fogueira” (Getúlio Marinho e João Bastos Filho) “Capelinha de Melão” (Alberto Ribeiro e João de Barro); e tantas outras.
Mas, hoje, resolvemos contar a história de uma delas, que – curiosamente – não foi feita inicialmente inspirada no São João, mas que virou um dos maiores clássicos das Festas Juninas por todo o Brasil:“Festa do Interior”, de Abel Silva e Moraes Moreira.
A origem real de “Festa do Interior”
O compositor Abel Silva nunca imaginou que iria compor uma música como “Festa do Interior”. Nascido em Cabo Frio, município da Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro, ele é filho de pastor metodista e não teve vivências de carnaval e de festa de São João até os seus 15 anos, quando percebeu que gostava muito da música que se tocava em festejos como esses.
Curiosamente, durante os tempos duros de repressão da Ditadura Militar, Abel – já um compositor conhecido em todo o Brasil – resolveu falar contra o terrorismo das bombas de uma maneira absolutamente diferente do que vinha se falando, principalmente depois de uma bomba estourar exatamente no colo de um militar, durante o fatídico atentado no Rio Centro, em 1981.
O evento marcado para aquela noite tinha como objetivo iniciar as comemorações do Dia do Trabalhador, e contaria com a presença de artistas como Chico Buarque, Alceu Valença, Gonzaguinha e Gal Costa, sendo que alguns se destacaram na oposição ao regime militar, tendo inclusive retornado ao país após a Lei de Anistia de 1979.

O atentado pretendia explodir três bombas no local e, com isso, incriminar os grupos de esquerda, fazendo com que o processo de abertura política cessasse. Mas os militares que organizaram o atentado não conseguiram realizar o planejado, já que uma das bombas explodiu em um carro no estacionamento do Riocentro, matando um sargento e ferindo gravemente outro oficial.
Havia no veículo outra bomba que não explodiu. Mas uma terceira bomba explodiu na central de energia do local do evento. O caso causou enorme desgaste ao governo do general João Batista Figueiredo.
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Falar sobre as bombas que traziam alegria – como as de Festa Junina e Carnaval – e não sobre a tristeza e a violência que se instaurava com o regime militar e suas bombas, era a ideia de Abel Silva.
Ele queria falar sobre festas com bombas em que ninguém matava e ninguém morria. Bombas de paz, de comemoração, de celebração, de alegria. Não de guerra e de morte. E usou sua música de São João justamente para criticar o sistema político vigente na época e os estragos que ele causava. Com uma música cheia de alegria e amor.
Combatendo a guerra e a repressão com festa, paz e celebração. Isso não é incrível?
“Bombas na guerra – magia
Ninguém matava, ninguém morria
Nas trincheiras da alegria
O que explodia era o amor”
Depois da letra feita, Abel ficou na dúvida entre mandá-la para Dominguinhos ou para Moraes Moreira musicarem. Acabou enviando para o ex-Novos Baianos, a quem o letrista havia conhecido jogando futebol. Logo, Moraes ligou de volta para Abel com a música pronta, inclusive com o inconfundível solo de violão que abre a canção.
Gal Costa gravou “Festa do Interior” com muito sucesso, em seu disco “Fantasia”, de 1981, e – depois – a canção foi regravada pelo mundo, em 13 idiomas diferentes. No Brasil, outros grandes nomes que regravaram o sucesso foram Sérgio Mendes e o próprio Moraes Moreira.
E você? Sabia dessa história?

