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O poema que Machado de Assis fez pra sua esposa e Carlos Lyra musicou
O poema que Machado de Assis fez pra sua esposa e Carlos Lyra musicou
Um dos grandes nomes da Bossa Nova, Carlos Lyra transformou uma declaração de amor de Machado de Assis em canção


Você sabia que – em 1999 – um dos mais importantes compositores da história da música brasileira – e grande nome da Bossa Nova – Carlos Lyra, musicou um poema escrito por Machado de Assis para a sua esposa Carolina?
Carolina Augusta Xavier de Novaes Machado de Assis e o escritor – que se chamava Joaquim Maria Machado de Assis – viveram uma grande história de amor: casaram-se em novembro de 1869 e tiveram uma longa e apaixonada vida conjugal por 35 anos, que durou até a morte de Carolina, em outubro 1904, aos 69 anos.
Quando a esposa morreu, Machado de Assis entrou em uma profunda depressão, encontrando consolo na cadelinha do casal, Graziela, sua única companhia familiar, já que os dois não tiveram filhos.
De acordo com alguns biógrafos, o túmulo de Carolina era visitado todos os domingos pelo escritor, que faleceu em setembro de 1908, também aos 69 anos (Carolina era quase 5 anos mais velha que Machado).
Machado de Assis foi enterrado no jazigo da família, ao lado de Carolina, como era de sua vontade.

Em abril de 1999, os restos mortais do casal foram transferidos para o mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no cemitério São João Batista, em Botafogo (zona sul do Rio de Janeiro .
Na época dessa transferência, a sobrinha-neta do casal, Ruth Leitão de Carvalho Lima, que tinha 85 anos, contou que 15 anos antes, a Academia Brasileira de Letras fez a primeira tentativa de remover os restos mortais do escritor – que é fundador da instituição – para o mausoléu. Mas ela negou a autorização, porque não concordava em separá-lo de Carolina.
Segundo Ruth, na época, abrigar a esposa do escritor não era permitido pelo regimento interno da ABL, e quase não haviam mulheres na instituição (a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras foi a escritora Rachel de Queiroz, eleita em agosto de 1977 e depois dela, até aquela data, só mais uma mulher havia sido eleita: Dinah Silveira Queirós).
A família só deu permissão de transferir os restos mortais do casal em 1999 porque a proposta desta vez foi levar os dois juntos.
Durante a cerimônia de transferência, apresentaram-se o coral Calíope do Rio e a cantora Kay Lyra, filha de Carlos Lyra, que cantou a música “Quando Ela Fala”, composta por seu pai, em cima de um poema que Machado de Assis escreveu para homenagear Carolina.
O poema foi publicado em 1870, no livro “Falenas”, segundo livro de poesias de Machado de Assis, ainda da sua fase romântica, e seu primeiro livro impresso fora do país, em Paris.
“Quando ela fala, parece
que a voz da brisa se cala;
talvez um anjo emudece
quando ela fala.
Meu coração dolorido
as suas mágoas exala.
E volta ao gozo perdido
quando ela fala.
Pudesse eu eternamente,
ao lado dela, escutai-a,
ouvir sua alma inocente
quando ela fala.
Minh’alma, já semimorta,
conseguira ao céu alçá-la,
porque o céu abre uma porta
quando ela fala.”
Depois disso, o conjunto carioca Boca Livre, apresentou a canção em um show no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, que virou disco, em 2007.
Carlos Lyra gravou a canção no ano seguinte, para compor os dois CDs que reúnem as músicas citadas em seu livro “Eu & a Bossa – Uma História da Bossa Nova”, em que ele conta a história da Bossa Nova sob o seu olhar e de sua trajetória.
Anos depois, o compositor incluiu a canção – com arranjos de Jaques Morelenbaum – no seu álbum “Além da Bossa”, lançado de forma independente em 2019.
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Uma curiosidade: Machado de Assis escreveu também um soneto em homenagem à esposa, assim que Carolina faleceu, amplamente considerado a melhor peça de sua obra poética. O escritor Manuel Bandeira afirmaria, anos mais tarde, que é uma das peças mais comoventes da literatura brasileira. Chama-se “A Carolina”:
“Querida! Ao pé do leito derradeiro,
em que descansas desta longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs um mundo inteiro…
Trago-te flores – restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados;
que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos.”


