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“Rosa no Céu”: Maria Luiza Jobim lança seu terceiro álbum solo
“Rosa no Céu”: Maria Luiza Jobim lança seu terceiro álbum solo
Disco acaba de chegar em todas as plataformas digitais
Frescor, leveza, suavidade são palavras que saem da boca de Maria Luiza Jobim com a naturalidade que seus significados insinuam. Assim como dessa forma – frescas, leves, suaves – saem da mesma boca grande parte das canções que compõe ou escolhe cantar.
Não são meros adjetivos. Uma canção pode nascer assim, em geral nasce, leve, a partir de um fragmento de vida; de um átimo, um momento, uma fugaz sensação – que, no entanto, precisa ser guardada (daí a necessidade da canção).
Como o tempo de um apaixonamento, caso de “Portugal”, ironicamente escrita em inglês, a partir do momento mesmo da paixão – “I found a love in Tokyo/I saw him by the sea/And felt the water say his name to me” – e que conta a história da construção de um amor e da intenção mesmo de uma canção: “I will bring the summer in this song”.
Ou a canção nasce naquele brevíssimo instante, pode ser quando alvorece ou anoitece em qualquer praia ou ribeira do mundo, em que o céu de repente fica rosa, um rosa só daquele momento, mas que se eterniza como a paixão em amor, o rosa do céu na memória, a sensação em canção.

Assim nasceu, literalmente, “Rosa no céu”, o terceiro álbum solo de Maria Luiza Jobim. Literalmente porque da percepção daquele rosa fugaz “especialmente no céu de Lisboa”, como ela rememora. E, depois, o reencontro do mesmo breve momento róseo no pôr do sol do Rio de Janeiro.
Entre o Rio, onde nasceu, e Lisboa onde vive – na verdade divide o tempo entre as duas cidades-irmãs na língua e no céu róseo – Maria Luiza foi encontrando o conceito do seu terceiro álbum. Sempre, e isso parece ser central no seu processo criativo, por uma sinestesia com cores: seu primeiro disco foi o memorialístico “Casa branca” (2019), o segundo chamou-se “Azul” (2023), e agora este “Rosa no céu”.
Às vezes juntas em Lisboa, às vezes do Rio exatamente neste breve momento do céu rosa trocando mensagens ao vivo com sua amiga e também compositora Mallu Magalhães sobre as sensações e imagens que vinham dali, nasceu a canção “Rosa no céu”, que dá título ao álbum.
Com arranjo de cordas de Jaques Morelembaum que faz a canção como que flutuar – olha a leveza… – “Rosa no céu” descreve as imagens que vêm do céu rosa para conceituar o disco em versos simples: “Rosa no céu, vem me contar/Mais uma história linda/Sol de verão deita no mar/Um sonho bom ainda”, versos frescos, suaves. Maria Luiza vê-se mais como compositora do que cantora.
Por essa história acima, percebe-se por quê: mesmo sendo “Rosa no céu” uma canção de Mallu Magalhães e Marcelo Camelo – casal brasileiro de compositores radicados em Lisboa – a sensação, a inspiração e o conceito nasceram dela, que assina, só ou em parceria, outras cinco das oito canções do álbum.
Mesmo a única regravação do disco, “La javanaise”, clássico de amor do francês Serge Gainsbourg de 1963, soa quase autoral no conceito do disco. “Não é só uma canção que eu queria ter feito, mas é cara da leveza das canções desse disco, e desse verão europeu que ela evoca”, diz Maria Luiza, que faz no disco a canção em dueto com Chico Chico, cantor e compositor carioca que ela admira há tempos e que ela vê se consolidar como multiartista. Também conduzida por um arranjo de cordas – dessa vez escrito por Marcelo Camelo, que também toca todos os instrumentos de base na gravação – a vozes dos dois jovens cantores também parecem flutuar, não tem jeito, a tal leveza é conceito e é a prática musical do álbum. “Rosa no céu” nasceu não apenas do céu como da vivência em Lisboa, de viver e amar em suas ruas.
A produção é do próprio Marcelo Camelo, também responsável pelos arranjos e por algumas das composições. _ Sou fã, sou bem da geração Los Hermanos – diz Maria Luiza da banda carioca de Camelo que marcou época nos anos 1990. – Depois, o disco solo dele “Sou” também me influenciou muito. De alguma forma o trabalho dele ajudou a me formar musicalmente. Aí a vida nos reaproximou. Eu já era amiga da Mallu, que me aproximou dele, mostrei esboços das canções que eu estava fazendo e começamos a trabalhar.
Na verdade, ele enxergou a alma do que eu estava fazendo. Marcelo Camelo também se identificou com a música da antiga fã, nova amiga e compositora: _ Trabalhar neste disco tem sido uma grande alegria, e oportunidade de conhecer de perto a beleza da expressão artística de Maria Luiza Jobim – diz Camelo. – Ela tem muito claro aquilo que quer e comunica com sabedoria dos grandes artistas aonde quer chegar.
Com ideias e palavras que não necessariamente falam de músicas, mas das sensações que elas querem criar. Tento estar à altura da missão que é construir a ponte entre esse imaginário e a música gravada. As canções que Maria Luiza Jobim partilhou com Marcelo Camelo são cheias da vida vivida.
A parceria dos dois “Sofá vermelho”, uma bossa nova clássica guiada por violão e cordas, conta com letra em português a história não menos clássica do fim de um amor. Já “Portugal” ironicamente com letra em inglês – criada entre o Rio e Nova York, onde a família mantém um apartamento, Maria Luiza é bilingue – narra a chegada de um novo amor. “Sofá vermelho”, sinestésica pela cor, “Portugal” pelo lugar, parecem contar uma história, ambas leves e com letras calcadas em imagens. Com letra em inglês e música só de Maria Luiza, “Gogogo”, uma canção de amor bem popular e comunicativa, parece começar uma história: “Lighten up my cigarette/We were dancing by the shore/Close to me your sweet sweet breathe/Darling, I want more”.
A sofisticada bossa “Boca a boca”, em parceria com Camelo e com letra impressionista (“Tartaruga, peixe ou passarinho/Fica mais um pouco no meu ninho”), parece continuá-la. Seja em inglês, cantando uma canção de Camelo e Mallu como “We are young”, ou em português numa parceria sua também com Camelo, “Sinal”, o fato é que Maria Luiza Jobim está neste “Rosa no céu” mergulhada no universo das canções. Isso nem sempre foi evidente para uma artista que começou sua carreira em projetos como a dupla Opala, de música eletrônica. _ Era como seu eu tivesse no início que sair de baixo da árvore frondosa que é o meu pai – diz Maria Luiza referindo-se evidentemente a Antônio Carlos Jobim, o maior dos compositores brasileiros, que lhe legou, além evidentemente do amor que domina suas canções, o nome, a musicalidade e essa vivência internacional. – Acho que foi um movimento natural, aos poucos fui ganhando confiança para mostrar minhas canções.
Hoje até canto umas coisas dele nos shows. De leves tintas impressionistas e evidente carga autobiográfica – fonte de encontros e da própria gravação em Lisboa – as oito canções de “Rosa no céu” formam um álbum ao mesmo tempo leve, pop, mas enormemente conceitual.
Talvez seja a síntese do trabalho de uma artista que começou criança, cantando um samba que levava o seu nome feito pelo maior compositor do mundo. E que por isso conheça a natureza das canções e para que elas servem, coisa expressa de forma cristalina num verso do álbum: “Rosa no céu vem contar mais uma história linda”.



