Novabrasil
Especial Capas de Disco: Thereza Eugênia
Especial Capas de Disco: Thereza Eugênia
Por trás de imagens marcantes da MPB, fotógrafos transformaram artistas, discos e momentos históricos em retratos que atravessaram gerações


A história da música brasileira não foi construída apenas por vozes, instrumentos e composições. Ela também ganhou forma através das lentes de fotógrafos que souberam captar a personalidade dos artistas, a atmosfera de uma época e a essência de movimentos culturais inteiros. Em muitos casos, essas imagens se tornaram tão emblemáticas quanto as canções que ajudaram a representar. É o caso das fotos de Thereza Eugênia, algumas das mais icônicas imagens da história da MPB.
Entre ensaios, cliques espontâneos e capas de discos, a fotografia desempenhou um papel fundamental na construção do imaginário da MPB. Afinal, a forma como enxergamos muitos de nossos ídolos foi moldada por profissionais que transformaram instantes em memória visual.
Hoje, na nossa série sobre artistas que contribuíram para a identidade visual dos álbuns brasileiros, o destaque é Thereza Eugênia. Com um olhar atento, sensível e profundamente conectado ao universo musical, a fotógrafa baiana ajudou a registrar capítulos importantes da cultura brasileira, criando imagens que seguem vivas muito tempo depois do clique.
Mais sobre Thereza Eugênia

Nascida na cidade baiana de Serrinha, Thereza Eugênia mora desde 1964 no Rio de Janeiro, onde passou a fotografar a cena musical, primeiro como fã, e depois profissionalmente.
Formada em Enfermagem pela Universidade Federal da Bahia, Thereza sabia desde cedo que a fotografia seria parte importante da sua vida. Só talvez não soubesse que faria parte também da vida de tantas outras pessoas que ganharam algumas de suas mais icônicas fotos. Seja os fotografados ou quem tem acesso às suas fotos incríveis.
O contato com a fotografia surgiu por conta de sua avó, que tinha um laboratório fotográfico em sua casa. Nessa época, ainda na infância, Thereza Eugênia já começou a desenvolver o seu olhar e a escutar vários tipos de música. Tanto o olhar para a fotografia quanto o gosto musical curioso se tornaram muito mais aguçados e se transformaram em um trabalho único a partir do momento em que Thereza foi morar no Rio de Janeiro, onde passou a acompanhar toda a cena musical do país naquele momento.
O primeiro show que ela viu foi de Maria Bethânia, “Comigo me Desavim”, em 1967, e – ali – já fez algumas fotos. Em entrevista ao Instituto Moreira Salles, a fotógrafa conta sobre este momento:
“Eu fui ver o show, gostei e fiz umas fotos dela. E então um amigo meu, que estudava teatro, chegou da Bahia e disse ‘Thereza, eu me dou com Bethânia, vamos lá na casa dela’, no Leblon. Ela gostou da foto e disse que gostaria de botar na capa de um disco. Acontece que na época o produtor dela, Carlos Imperial, falou ‘não, essa foto não é comercial’. E aí ela fez uma capa lindíssima com um pintor e desenhista baiano chamado Luiz Jasmin. Realmente, ela deu uma dentro, porque ele fez uma capa belíssima para ela.”
Em 1970, a assessora de imprensa Ivone Kassu pediu que Thereza fosse fazer umas fotos de Roberto Carlos em um show no Canecão, no Rio de Janeiro: “Eu disse ‘Ivone, eu não tenho máquina’, porque minha máquina não era reflex, não tinha zoom, nem uma telezinha. Ela disse ‘tome emprestado com o gerente do Canecão’. Eu tomei e o gerente fez esse seguinte comentário: ‘como é que você manda uma moça aqui, que não sabe nem segurar a máquina, fotografar Roberto Carlos?’.”, relembra a fotógrafa em outro trecho da entrevista ao IMS.
Roberto Carlos viu a foto, adorou e a escolheu para ser a capa do seu próximo disco. Thereza Eugênia acha a capa – que tem um contrastado bem forte – belíssima: “Ela funcionou porque saiu daquele padrão de Roberto Carlos posar, do rosto dele e tal. Foi elogiadíssima pela imprensa carioca, ‘Até que enfim Roberto Carlos fez uma capa legal.’”.

Em 1972, Thereza fez a primeira foto de Caetano Veloso, quando ele chegou do exílio em Londres e fez um show no Teatro João Caetano. Depois disso, ela conheceu e ficou muito amiga do empresário dele, Guilherme Araújo, que também era empresário de outros grandes artistas como Gal Costa, Ney Matogrosso e Gilberto Gil.
Veja também:
Com ele, Thereza Eugênia conseguiu acesso a esses grandes artistas, se especializando tanto nos shows quanto em fotos espontâneas deles sozinhos, em momentos íntimos, pois frequentava também as suas casas: “Quando fotografava eles no palco, eu estava levando-os para minha casa. Era a sensação que eu tinha.”, reflete.
E segue: “Em 1979, eu já estava fotografando há quase nove anos, mas achava que não tinha técnica, que precisava aprender mais sobre os tons de cinza da fotografia. Fui fazer um curso no Parque Lage, com uma professora americana, Constance Brenner. Quando mostrei as fotos, ela disse assim: “Você tem intuição e suas fotos têm senso de intimidade.; Eu acho que essa definição é perfeita.”.



Hoje, aos 85 anos, a fotógrafa acumula um volumoso arquivo de fotografias de artistas da MPB, seja atuando em cima dos palcos ou também em cliques espontâneos de seus momentos de intimidade e descontração.
Em 2021, Thereza Eugênia publicou um livro compilando em 200 páginas alguns dos retratos icônicos de artistas como Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia nos anos 70 e 80, “Thereza Eugênia: portraits, 1970-1980”, pela editora Barléu.
Mas, durante décadas, suas fotos circularam sem crédito. Foi por meio das redes sociais que Thereza reivindicou sua autoria e reacendeu um debate essencial: quem tem os direitos sobre a memória da música brasileira?
Hoje, vamos conhecer as capas de álbum clicadas por Thereza Eugênia.


