Nesta semana nós completamos 35 anos sem Clementina de Jesus – que partiu no dia 19 de julho de 1987, aos 86 anos, em função de um derrame – e também comemoramos o aniversário de Jovelina Pérola Negra – em 21 de julho – que completaria 78 anos caso não tivesse nos deixado em novembro de 1998, com apenas 54 anos, vítima de um infarto.

Mas além disso, o que essas duas lendas da nossa música têm em comum? Elas são duas das maiores sambistas que o Brasil e o mundo já conheceram e contribuíram muito para a história da cultura e da música afro-brasileira.

Clementina de Jesus nasceu em 1901, em um tradicional reduto de jongueiros no sul do Rio de Janeiro, e também era conhecida como Tina ou Quelé. Deixou um grande legado no resgate dos cantos negros tradicionais e na popularização do samba, além de ser vista como um importante elo entre a cultura do Brasil e da África.

Mudou-se com a família para a capital aos oito anos de idade, indo estudar em regime semi-interno no Orfanato Santo Antônio, onde desenvolveu crença católica. Criança, aprendeu com sua mãe – filha de escravizados – rezas em jejê nagô e cantos em dialeto provavelmente iorubá. Destas influências resultam um misticismo sincrético e uma musicalidade marcada pelo samba e cantos tradicionais de escravizados do meio rural.

Foto: Reprodução Uol

A partir da década de 1920 passou a frequentar os círculos carnavalescos: foi diretora da escola de samba Unidos do Riachuelo, participou de atividades da escola Mangueira (foi morar no bairro da Mangueira depois de casar) e acompanhou de perto o surgimento e desenvolvimento da escola Portela, participando ativamente das rodas de samba.

Trabalhou como doméstica e lavadeira por mais de 20 anos, até ser vista cantando na Taberna da Glória pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho – em 1963, já com 62 anos – que a levou para participar do projeto de grande sucesso O Menestrel, apresentando-se com o violonista Turíbio Santos.

Em 1964, Clementina se apresentou no show Rosa de Ouro, ao lado de Aracy Cortes, Elton Medeiros, Paulinho da Viola e Nelson Sargento, com a direção de Hermínio e Kleber Santos, show que consagrou o seu nome e virou dois LPs (1965 e 1967), incluindo, entre outros, o jongo Benguelê, de Pixinguinha e Gastão Viana.

Em 1966, representou o Brasil no Festival de Cannes, na França, e no Festival de Arte Negra, no Senegal, sendo ovacionada em um estádio de futebol. No mesmo ano, lançou o LP solo Clementina de Jesus, com repertório de jongo, corimá, sambas e partido-alto, recuperando a memória da conexão afro-brasileira.

Em 1968, com a produção de Hermínio de Carvalho, registrou o antológico LP Gente da Antiga, ao lado de Pixinguinha e João da Baiana. Em 1979, lançou o LP Clementina e Convidados, do qual participaram Candeia, João Bosco, Martinho da Vila, Ivone Lara, entre outros. Gravou no total cinco discos solo e fez diversas participações em discos de outros artistas.

Mas, apesar da imensidão de sua voz e de seu legado para a música negra brasileira, Clementina de Jesus era grande demais para um Brasil tomado pelo racismo estrutural e pela intolerância religiosa. Ela faleceu praticamente no esquecimento, não sem antes influenciar uma gama de artistas brasileiros – que hoje celebram a  importância gigantesca de sua presença na nossa cultura e para o nosso povo.

Entre esses artistas, Clementina influenciou alguém que tinha uma história muito parecida com a sua: Jovelina Pérola Negra.

Foto: Reprodução Geledés

Nascida também no subúrbio do Rio de Janeiro, só que em 1944, a cantora e compositora escutou muito Clementina de Jesus e herdou dela o estilo de cantar e de defender a sua música. 

Jovelina também trabalhou como doméstica e lavadeira antes de fazer sucesso no mundo artístico. Pastora do Império Serrano, no início da década de 1980 – ao lado de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz,, Fundo de Quintal, entre muitos outros – participou do Pagode da Tamarineira, do Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos.  Desta geração de sambistas surgiu o que se convencionou chamar “Pagode carioca”, com tradição musical mais ligada ao partido-alto.  

Fã de Bezerra da Silva, Jovelina começou a cantar seus pagodes no Vegas Sport Clube, levada pelo amigo Dejalmir, que também lançou o nome Jovelina Pérola Negra, em homenagem à sua cor reluzente.

Em 1985, ao lado de Zeca Pagodinho, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor e Elaine Machado, participou da coletânea Raça Brasileira, na qual interpretou duas composições que viriam a ser seus primeiros sucessos: Bagaço da Laranja (de Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho), cantada em dueto com Zeca Pagodinho, e Feirinha da Pavuna, composição de sua autoria.

O primeiro disco solo veio no mesmo ano. Com sua voz forte, gravou cinco álbuns individuais, conquistando um Disco de Platina. Outros grandes sucessos foram: Luz do Repente (de Arlindo Cruz, Franco e Marquinho PQD), No Mesmo Manto (de Beto Correia e Lúcio Curvello) e Garota Zona Sul (de Guará).

Mas, pelas mesmas circunstâncias que Clementina, o seu sucesso chegou tardiamente e Jovelina não realizou o sonho de “ganhar muito dinheiro e dar aos filhos tudo o que não teve”. Faleceu no dia 2 de novembro de 1998, aos 54 anos, vítima de infarto

Dos seus três filhos, a filha do meio, Cassiana, também seguiu carreira como cantora.

O estilo muito pessoal conquistou muitos fãs no meio artístico, levando até mesmo Maria Bethânia a uma apresentação no Terreirão do Samba, na Praça Onze de Junho, de onde a diva da música popular brasileira só saiu depois de ouvir “dona Jove versar”. 

Alcione já homenageou a Pérola Negra no seu disco Profissão Cantora, de 1995. 

E nós temos que homenagear essas duas gigantes da nossa música e da cultura afro-brasileira para todo o sempre!