No último dia 14 de junho foi lançado, em meio às comemorações dos 80 anos de Gilberto Gil, o museu virtual O Ritmo de Gil, no Google Arts & Culture, plataforma tecnológica que torna a arte mais acessível aos usuários, lançou um álbum que estava perdido durante 40 anos.

 

O projeto, coordenado pela jornalista e escritora Chris Fuscaldo, traduz os 80 anos de Gilberto Gil em histórias, fotos, vídeos, curiosidades e muitos conteúdos inéditos sobre a carreira, a obra e a vida pessoal de Gil, pela primeira vez reunidos em um só lugar. São 148 exposições (inclusive uma discobiografia) e mais de 41 mil imagens, vídeos e áudios.

 

Durante o processo de curadoria, digitalização e inventário do material iconográfico e musical do artista, em 2018, o também jornalista e pesquisador Ricardo Schott encontrou uma fita cassete perdida há mais de 40 anos nos arquivos da Gege Produções, produtora fundada por Gil e sua esposa e parceira, Flora, e responsável por administrar a carreira do cantor e compositor baiano e de outros artistas.

 

A fita contém um álbum gravado por Gilberto Gil em 1982, quando passou uma temporada de dois meses em Nova York, nos Estados Unidos da América. O baiano tinha acabado de encerrar a turnê do álbum lançado no ano anterior, Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)

Foto : Google & Arts

A ideia de expandir a carreira de Gil para o exterior partiu de André Midani, então presidente da Warner Music, que pensou em um novo disco para o mercado americano depois do projeto de Gil com Sérgio Mendes, Nightingale, lançado em 1979.

 

Gil começou então a trabalhar na Elektra Records, com o percussionista e produtor trinibagoniano-americano Ralph McDonald, especialista em música negra, e com o engenheiro de gravação Richard Alderson.

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Ralph trouxe para o Rosebud Recording Studio, na Broadway, os músicos: Richard Tee (teclados), Grover Washington (sax), Steve Gadd (bateria), Marcus Miller (baixo) e William Eaton, um parceiro de composição. Com auxílio dele, Ralph ajudou Gil a finalizar as nove composições e versões que entrariam no disco.

 

Com uma pegada pop, a ideia era que o álbum tivesse uma sonoridade muito fiel àquele momento, em que estava em alta a música pop tropical: Ralph McDonald faz uma associação entre o pop brasileiro e o pop americano, a influência caribenha, com também uma pegada jamaicana e meio portoriquenha.

 

A fita cassete com as canções já mixadas foi enviada nos anos 1980 para Gil – sem um título para o disco, apenas com os nomes das faixas – e acabou arquivada na Gege Produções, pois o baiano desistiu de lançar o álbum.

 

Gil conta o motivo do cancelamento: “Lembro de ter achado que faltavam coisas e sobravam coisas naquele disco. Talvez tenha me incomodado a maneira de produzir muito pragmática. Acho que faltou brasilidade. Senti falta de músicos brasileiros, apesar da excelência dos que participaram. Todos eles tinham experiência em estúdio, de gravações com artistas de variados gêneros musicais. Talvez até por isso eu senti falta de uma certa personalização maior na fabricação do disco.”.

 

Além da fita cassete, os pesquisadores também encontraram o álbum em uma fita DAT (Digital Audio Tape), que apresentou melhor qualidade após a digitalização e foi de onde foi extraído o áudio disponibilizado no museu virtual O Ritmo de Gil, dentro do Google Arts & Culture.

Foto: Página inicial Google & Arts

Entre as canções identificadas está, cantada em inglês, Lua e Estrela (Moon And Star Girl), composição de Vinícius Cantuária que fazia sucesso na voz de Caetano Veloso quando Ralph McDonald esteve no Brasil.

 

Outra das canções que foram gravadas para o álbum foi Deixar Você, que ganhou letra e nome em inglês, When The Wind Blows, e apareceria – em português – no repertório do álbum Um Banda Um, que Gil lançou quando voltou dos EUA.

 

Entre as faixas, apenas uma foi mantida em português, Estrela, que Gil só viria a gravar de novo e lançar no álbum Quanta, de 1997.

 

Outra canção que merece destaque é Jump For Joy, que Gil gravou em dueto com Roberta Flack, cantora que Ralph produzia na época – e a dona da voz inconfundível do mega-hit Killing Me Softly With His Song (composição de  Charles Fox e Norman Gimbel). Roberta também emprestou a voz para os backing vocals de outras faixas, inclusive Estrela, na qual ela e as outras cantoras se esforçam para cantar em português e no rótulo da fita cassete traz “(Star)” depois do nome original.

Em 2002, durante entrevista para o pesquisador Marcelo Fróes, Gil comentou que Jump For Joy poderia ter sido o título do álbum se ele tivesse sido lançado na época.

 

Fill Up The Night é uma balada pop tipicamente americana. Ou, como define Liminha,  produtor de diversos álbuns de Gil, uma “receita de bolo” da época, “provavelmente composta pelo William Eaton ou com influência dele”.

 

Come On Back Tomorrow mistura ijexá com pop, então é uma provável parceria de Gil com Ralph e William.

 

Depois ainda temos Somebody Like Me, outro ijexá e por isso parece que a melodia foi composta por Gil, e Take a Holiday, que tem o violão do baiano bem marcado e uma forte pegada caribenha.

 

Gil ficou maravilhado com a descoberta do disco que nem ele mesmo imaginaria que estava tão perto: “Eu já tive o ímpeto e a curiosidade de voltar a esse álbum e, eventualmente, me reconciliar com ele e lançá-lo, mas aí o disco sumiu. Agora apareceu!”, conta o baiano dentro dos depoimentos do museu virtual.

 

Vale a pena demais a visita, não apenas para escutar o álbum inédito, mas também para mergulhar ainda mais fundo na vasta, excelente e inigualável obra e vida de Gilberto Gil!

 

https://artsandculture.google.com/project/gilberto-gil