Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

A palavra no muro

Ficou coberta de tinta

 

Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

Só ficou no muro

Tristeza e tinta fresca

 

Nós que passamos apressados pelas ruas da cidade

Merecemos ler as letras e as palavras de gentileza

 

Por isso, eu pergunto a você no mundo

Se é mais inteligente, o livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola, a vida é o circo

Amor palavra que liberta, já dizia o profeta

 

 

 

Neste 29 de maio de 2022, completamos exatamente 26 anos sem Gentileza, o Profeta que inspirou a cantora e compositora Marisa Monte a escrever essa bela canção, e lançá-la em seu icônico disco Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, em 2000.

 

Mas você sabe quem foi o Profeta Gentileza e por que Marisa escreveu esses versos para homenageá-lo? Hoje, vamos te contar essa história! Segue a thread!

 

1 – José Datrino nasceu no interior do Estado de São Paulo, na cidade de Cafelândia, em 1917. Na infância, lidava diretamente com a terra e com os animais. Para ajudar a família, puxava uma carroça, vendendo lenha nas proximidades. Por volta dos 13 anos de idade, passou a ter premonições sobre sua missão na terra, na qual acreditava que um dia, depois de constituir família, filhos e bens, deixaria tudo em prol de sua missão. Este comportamento causou preocupação em seus pais, que chegaram a suspeitar que o filho sofria de algum tipo de loucura, chegando a buscar ajuda em curandeiros espirituais.

 

2 – Mudou-se para o Rio de Janeiro, constituiu família e tornou-se empresário, dono de uma transportadora de cargas no bairro de Guadalupe. No dia 17 de dezembro de 1961, ocorreu – na cidade de Niterói – a tragédia do Gran Circus Norte-Americano, considerada uma das maiores fatalidades em todo o mundo circense. Nesse incêndio, morreram mais de 500 pessoas, a maioria, crianças. Seis dias após o acontecimento, José Datrino acordou alegando ter ouvido “vozes astrais”, segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. O Profeta pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio, afirmando ver – no circo destruído – uma metáfora para o que estava acontecendo no mundo, com a brutalidade de nosso sistema de relações. E anunciava que a “gentileza é o remédio para todos os males”.

 

3 –  José Datrino plantou um jardim e uma horta sobre as cinzas do circo e aquela foi sua morada por quatro anos. Como um consolador voluntário, confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade, apresentando o real sentido das palavras “agradecido” e “gentileza”. Foi a partir daí que passou a se chamar José Agradecido ou Profeta Gentileza.

 

4 – Após deixar o local, que ficou conhecido como Paraíso Gentileza, o Profeta Gentileza começou a sua peregrinação e a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970, percorria as cidades do Rio de Janeiro e de Niterói com sua longa barba e uma túnica branca, levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho, além de oferecer-lhes flores. Entre suas principais mensagens, a famosa frase: “Gentileza Gera Gentileza”. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: “Sou maluco para te amar e louco para te salvar”. Fez isso por mais de 20 anos.

 

5 – A partir de 1980, Gentileza escolheu 56 pilastras do Viaduto do Gasômetro ou do Caju, que vai do Cemitério do Caju até o Terminal Rodoviário do Rio de Janeiro – em uma extensão de aproximadamente 1,5 km – e as encheu de inscrições em verde-amarelo, propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização. Os murais eram como um livro  a céu aberto sobre o concreto, e ficaram muito famosos no Rio de Janeiro, por estarem bem na entrada da cidade carioca, para quem chegava de ônibus ou de carro. 

 

6 – O Profeta Gentileza faleceu em 1996, aos 71 anos, e – com o decorrer dos anos – os murais foram sendo danificados por pichadores, sofreram vandalismo, e – mais tarde – foram cobertos com tinta de cor cinza pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. 

 

7 – Marisa Monte – como boa carioca – sempre amou ver as inscrições de Gentileza nas ruas da cidade, ficava fascinada com aquilo desde criança. Certa vez, em 1998, a cantora estava passando pela área do Cais do Porto com seu amigo e parceiro Carlinhos Brown e quis mostrar para o baiano algo especial da sua cidade, que ela sabia que ele ia gostar. Foi quando procurou pelos pilares do Viaduto do Caju, os escritos de Gentileza. Quando chegou ao local e descobriu que eles haviam sido apagados pela Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro, ficou desolada, pensando nos inúmeros significados desse ato para uma metrópole como o Rio. O legado do Profeta Gentileza havia desaparecido para sempre. Na mesma noite, Marisa compôs Gentileza

 

8 – A eliminação das inscrições foi criticada por diversas pessoas e organizações. A voz de Marisa Monte se uniu a muitas outras – como a do Professor Leonardo Gelman, da ONG Rio Com Gentileza, e a obra do Profeta foi recuperada por artistas e restauradores a partir do ano 2000, sendo tombada como patrimônio urbano pelos órgãos de proteção da prefeitura da cidade carioca e voltando a fazer parte do inventário afetivo do Rio de Janeiro, apesar de já ter sofrido outros atos de vandalismo depois disso. 

 

9 – O videoclipe da canção Gentileza mostra cenas do cotidiano do Rio de Janeiro, incluindo Marisa dentro de um ônibus que passeia pela cidade e também imagens do próprio Gentileza, andando pelas ruas do Centro, carregando sua mensagem para o povo. As pilastras com suas inscrições também aparecem no clipe.  

 

 

10 – O cantor e compositor Gonzaguinha já havia homenageado o Profeta Gentileza com uma canção com o mesmo nome, no seu disco Cavaleiro Solitário, de 1993. Na letra, Gonzaguinha reforça:

 

Feito louco

Pelas ruas

Com sua fé

Gentileza

O profeta

E as palavras

Calmamente

Semeando

O amor

À vida

Aos humanos

Bichos

Plantas

Terra

Terra nossa mãe.

 

Nem tudo apodrecido

De modo que se possa dizer

Nada presta

Nada presta

Nem todos derrotados

De modo que não de prá se fazer

Uma festa

Uma festa.

 

Encontrar

Perceber

Se olhar

Se entender

Se chegar

Se abraçar

E beijar

E amar

Sem medo

Insegurança

Medo do futuro

Sem medo

Solidão

Medo da mudança

Sem medo da vida

Sem medo medo

Das gentileza

Do coração.

 

Feito louco pelas ruas… 

 

E aí? Gostou de saber mais sobre a história da música e dessa figura tão emblemática brasileira?