Por muitos anos, as mulheres não tinham vez no samba. Não porque não estivessem lá, mas as rodas de samba, o palco, as composições e o sucesso eram espaços dominados por homens, ou seja, a importância delas era, infelizmente, minimizada. Por outro lado, mesmo com todas as adversidades, as mulheres no samba de ontem e hoje conseguiram deixar suas marcas na história. 

Não pediram passagem, mas se apresentavam com suas posturas questionadoras e atemporais nos versos sobre o universo feminino e sobre a vida. Nesse sentido, há um legado deixado por Tia Ciata e Clementina de Jesus defendido e honrado por outras artistas, como Dona Ivone Lara, Leci Brandão, Mariene de Castro, Teresa Cristina e tantas outras.

Diversas mulheres foram importantes para a construção do samba nacional, como Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara
Diversas mulheres foram importantes para a construção do samba nacional, como Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara. | Foto: Reprodução/Montagem.

Clementina de Jesus

Da mãe lavadeira, filha de escravizados, Clementina ganhou as melodias do jongo, do lundu, os pontos de umbanda, as canções que falavam sobre a África, sobre a tristeza da atividade forçada longe da terra-mãe. Do pai, pedreiro, violeiro e capoeirista, herdou o gingado, a malandragem benéfica ao sambista.

Nasceu no Rio de Janeiro, pouco depois da abolição da escravatura, trabalhou como empregada doméstica e, só aos 63 anos, iniciou a carreira. Assim, foi descoberta em 1964 pelo produtor Hermínio Bello de Carvalho enquanto cantava num bar. Em determinada ocasião, ele se referiu a ela como “Pixiguinha de rendas”.

Acompanhe um trecho da entrevista de Clementina de Jesus concedida à TVE, em 1976, em que Clementina responde como a música surgiu em sua vida:

Foi da Portela, mas após se casar pela segunda vez virou Mangueirense. Além disso, ficou conhecida como Rainha Ginga por estabelecer um elo entre o Brasil e ancestralidade africana, porém o apelido de uma vida foi Quelé. Com um timbre inconfundível, sua voz anasalada e grave foi acompanhada de um peso ancestral, vinha das profundezas de um ser que cantava os sincretismos africanos e brasileiros. 

Sobre ela, Maria Bethânia disse: ”Dona Clementina era de água, rocha e ouro, todas as bênçãos brotavam da sua voz única, toda a doçura habitava seu colo de mãe”. Ao todo foram onze álbuns entre 1965 e 1982.

Jovelina Pérola Negra

A voz potente e rouca de Jovelina direcionou o caminho no solo fértil desenvolvido por Clementina de Jesus. Por isso, há quem diga que de Quelé, Jovelina herdou o estilo. No entanto, existem muitas outras semelhanças nas trajetórias dessas duas mulheres negras.

Desse modo, a Pérola Negra, que ganhou esse apelido pelos aspectos retintos e reluzentes de seu corpo, também foi empregada doméstica antes de viver de arte. 

Assim, a estreia na música aconteceu igualmente tarde, em 1985, quando já tinha 40 anos. Logo depois, no ano seguinte, a cantora que nasceu Jovelina Faria Belford, na zona Sul do Rio de Janeiro, gravou seu primeiro disco solo com sambas de sua autoria e de outros compositores de sucesso como Nei Lopes e Monarco.

Além disso, gravou ao todo seis discos, por exemplo, “Sorriso Aberto”, em 1988, “Sangue Bom”, em 1991 e “Vou da Fé”, em 1993, quando ganhou um disco de platina. 

Acompanhe o registro do show de Jovelina na Funabem, no Rio de Janeiro, em 1987:

Uma das vozes femininas mais marcantes da história do samba, Jovelina compartilhou o partido-alto cantando também sobre as dificuldades sociais e exaltando o orgulho de ser negra. Além disso, o reconhecimento público de sua grandeza veio tarde e ela não conseguiu ganhar muito dinheiro e dar aos filhos tudo o que não teve.

Nesse sentido, para os seus três filhos deixou apenas o legado de sua arte. Cassiana Belfort, a filha do meio, deixou a maior herança, isto é, o amor pelo samba que a tornou sambista também.

Dona Ivone Lara

A importância de Ivonne Lara da Costa vai muito além do seu sucesso na produção musical.Dona Ivone foi a primeira mulher a assinar sambas, principalmente o samba enredo. Assim, se o samba era ocupado predominantemente por homens, dentro das rodas de compositores não se permitiam um público feminino. 

No entanto, foi aos poucos que Dona Ivone foi conquistando seu lugar. Começou a compor cedo, aos 12 anos escreveu o primeiro sucesso, “Tiê-tiê”, sobre seu pássaro favorito. No final da década de 40, todos os sambas produzidos por ela foram apresentados aos outros sambistas pelo seu primo Mestre Fuleiro, como se fossem dele, pois o preconceito não abria espaço para mulheres compositoras. 

Assim, só em 1965, com o samba “Os cinco bailes da história do Rio”, tornou-se a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores de escola de samba, na escola Império Serrano, onde se apresentava na ala das baianas. Logo depois, consagrou-se como grande compositora, como também teve suas canções gravadas por Clara Nunes, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Beth Carvalho e Marisa Monte.

Para celebrar Dona Ivone Lara, confira ‘Sonho Meu’, uma composição da rainha do samba e Délcio Carvalho, interpretado por diversos artistas como a própria Dona Ivone, no auge de seus 94 anos, assim como: Maria Bethânia, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso, Arlindo Cruz, Vanessa da Mata, Elba Ramalho e outros (2015):

Leci Brandão

Carioca de Madureira, foi a primeira mulher a escrever um samba para a Mangueira na década de 70. Além disso, Leci canta em defesa das minorias, ou seja, povo negro, mulheres e dos trabalhadores. Desse modo, produziu 23 discos e 2 DVD’s, como também realizou participações e coletâneas nesses 42 anos de carreira. 

Em 1981, rescindiu um contrato com a gravadora Polygram por terem tentado censurar uma de suas músicas, entre eles um de seus maiores sucessos, “Zé do Caroço”. No entanto, nos últimos anos, todos os discos de Leci apresentam ao menos uma faixa apresentando alguns aspectos da cultura afro-brasileira de maneira direta, transparente e apaixonada. Desse modo, já cantou com grandes nomes da música, de Cartola a Fundo de Quintal, de Alcione a Mano Brown.

Se aos 72 anos, com suas canções, arrasta multidões, com a sua política, a também. É deputada estadual e trilha direções na Assembleia Legislativa do estado de São Paulo. Na capital paulista, é madrinha do Bloco Afro Ilú Obá De Min, composto unicamente de mulheres.

Teresa Cristina

Logo na infância, Teresa foi apresentada ao trabalho de um dos sambistas mais importantes do Brasil, o potente Candeia, mas apenas anos mais tarde se conectou com a atividade do poeta. Letrista, em 2007 iniciou composições autorais no disco “Delicada”. Em 2015, começou o show “Teresa canta Cartola”, onde homenageia o ídolo da Mangueira, mesmo sendo portelense de carteirinha.

Sua voz suave encantou grandes nomes da música, a exemplo de Caetano Veloso, que certa vez a chamou de “encarnação delicada do samba”, quando compartilhou o palco com Teresa em uma turnê.

As mulheres no samba foram muito importantes para ajudar no desenvolvimento da próxima geração de sambistas. As precursoras do samba também são inspirações para diversas meninas que estão começando no mundo do samba, representando toda uma luta para que as mulheres continuem a ocupar mais lugares no samba.