Embora reacendida e cada vez mais acentuada, a polêmica do estrangeirismo nos gêneros musicais brasileiros não vem de hoje. Historicamente, a mistura da MPB e inglês, por exemplo, geram discuções.

Em 1915, o escritor Lima Barreto publicou o livro “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Desse modo, o personagem principal e herói do romance defendia a língua tupi-guarani e se recusava a utilizar termos em francês: preferia arranjo de flores a buquê.

A junção de MPB e inglês gera discussões até hoje, mas as origens desse papo vem de muito antes.

Ayrton Montarroyos, cantor de 25 anos que nasceu em Pernambuco, foi um dos primeiros a se manifestar contra as reportagens do Jornal Folha de São Paulo e da Revista Rolling Stone que consideravam “inusitado, cômico e caseiro” o uso do prato-e-faca na live de Caetano Veloso.

Montarroyos ironizou: “Saber o que significa arrodear é difícil, não se sabe se no Nordeste tem algo além da seca e se em Manaus existe algo além de floresta e macaco. O negócio é ser ‘cool’. Quanto menos latino e mais americano melhor: nas bandas que se ouve, nas gírias que se fala, nas referências de tudo que se tem”. 

Desse modo, um dos que fizeram coro ao jovem intérprete foi Hugo Sukman, jornalista carioca que lembrou o fato de, em 1997, ao escrever a matéria sobre o disco “Livro”, de Caetano, ter iniciado o texto “falando justamente do prato-e-faca”.

Lamartine Babo é um dos exemplos de compositor que satirizava a presença do estrangeirismo na música brasileira | Foto: Divulgação.

A relação entre artistas mais tradicionais e a MPB que fala inglês mudou com as décadas. Tiveram algumas que usam o estrangeirismo como piada, como denúncia e aqueles que usam porque é cool ou legal.

Conheça algumas músicas que misturam MPB e inglês e suas intenções dentro do uso desses estrangeirismos.

1. “Canção para Inglês Ver” (foxtrote, 1931) – Lamartine Babo

O título da música já diz tudo. Canção para Inglês Ver lança mão do espírito zombeteiro de Lamartine Babo, por meio de uma expressão que se tornou sinônimo de manobra ilusória e enganação.

Lançada por Lamartine e regravada por Joel de Almeida, esse texto ganhou uma versão marcante do conjunto As Frenéticas, no álbum “Babando Lamartine”, homenagem de 1980 ao compositor.

A canção satiriza o deslumbramento dos brasileiros com o idioma estrangeiro, valendo-se do melhor estilo Lamartine, que rima “I Love You” com “Itapiru” e “Independence Day” com “Me Estrepei”. Uma música muito importante para a cultura brasileira e um ótimo exemplo do mpb usando inglês de forma mais ácida.

Acompanhe a versão feita pela banda Os Mutantes, em 1968:

2. “Tem Francesa no Morro” (samba, 1932) – Assis Valente

No embalo do sucesso da canção de Lamartine, o baiano de Santo Amaro, Assis Valente, nascido no Rio de Janeiro, também resolveu dar o seu palpite sobre a questão do estrangeirismo em terras tupiniquins, desta vez a bordo de um autêntico samba

“Tem Francesa no Morro”, samba de 1932 lançado por Araci Cortes, que não denunciava a presença de uma moça estrangeira na favela, mas, sim, o modismo entre a burguesia de colocar palavras afrancesadas a seu vocabulário – tudo isso de uma maneira expressamente alterada e afetada, da qual Assis satirizava.

3. “Good-Bye” (marchinha, 1933) – Assis Valente

Não contente fazer sua crítica na utilização constante do francês entre seus compatriotas, Assis Valente escreveu especialmente para Carmen Miranda, sua musa número um, “Good-Bye”, em ritmo de marchinha de carnaval. 

Assim como a anterior, a música também fez sucesso entre os foliões e no rádio, sagrando-se como o segundo êxito da carreira de seu compositor.

A letra era direta, sem firulas: “Deixa a mania do inglês/ É tão feio pra você/ Moreno frajola que nunca frequentou/ As aulas da escola”.

Por fim, a canção também expunha a presença desse estrangeirismo até no nome da companhia de energia elétrica do Rio: “Lá no morro só se usa a luz da Light”.

4. “Não Tem Tradução” (samba, 1933) – Noel Rosa e Ismael Silva

Claro que Noel Rosa não poderia ficar de fora dessa lista. Com o bamba Ismael Silva, ele escreveu, em 1933, o samba Não Tem Tradução, que acusava o cinema falado de ser o grande culpado pela mania de adotar expressões estrangeiras no país.

“Amor lá no morro é amor pra chuchu

As rimas do samba não são ‘I love you’

E esse negócio de alô

Alô boy, alô Johnny

Só pode ser conversa de telefone”

Sucesso que atravessou décadas, a canção foi divulgada pelo Rei da Voz, Francisco Alves, e ganhou regravações marcantes de João Nogueira, Caetano Veloso, Aracy de Almeida, Teresa Cristina e até Bibi Ferreira.

5. “Joujoux e Balangandãs” (marchinha, 1939) – Lamartine Babo

Lamartine voltou a se destacar em 1939, desta vez propondo uma combinação entre dois idiomas. Em outras palavras, é o que realiza o título de “Joujoux e Balangandãs”, marchinha que combina a palavra francesa que significa “brinquedo” com a tipicamente brasileira “balangandãs”, combinação tradicional entre as baianas, cheio de tropicalidade. 

Também foi responsável pelo verso “quem não tem balangandã não vai no Bonfim”, de Dorival Caymmi.

Assim, voltando à canção de Lamartine, ela deu título a um filme e a um espetáculo teatral do mesmo ano. Além disso, o dueto original de Mário Reis e Mariah foi revivido por João Gilberto e Rita Lee, em 1980.