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1964: ‘Um dos Muitos Golpes que o País sofreu’

Camilo Mota
16:08 15.04.2024
Especiais

1964: ‘Um dos Muitos Golpes que o País sofreu’

Série de reportagens da Novabrasil refez alguns caminhos desde a ascensão até a queda da ditadura, que durou 21 anos

Camilo Mota - 15.04.2024 - 16:08
1964: ‘Um dos Muitos Golpes que o País sofreu’
Foto: Reprodução Agência Brasil

Na noite do dia 13 de março de 1964, o então presidente João Goulart se dirigia às centenas de milhares de pessoas que lotaram a Central do Brasil para anunciar e assinar as reformas de base – agrária, bancária, administrativa, universitária e eleitoral – propostas pelo governo.

Uma semana depois, conservadores e elites foram às ruas na Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, chamada pela imprensa, de marcha da vitória. Mas entre os dias 31 de março e 1º de abril, uma reação coordenada pelo General do Exército Olympio de Mourão levou tanques às ruas e, 15 dias depois, o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco assumia a presidência.

O historiador Luiz Antonio Dias, professor e coordenador do grupo de Pós-graduação em História da PUC-SP enfatiza que o que o país viveu naquele período precisa ser relembrado:

“É importante que as pessoas saibam o que ocorreu em 1964. Alguns momentos da ditadura foram mais intensos do que outros, mas desde o primeiro momento, nós já temos graves violações de direitos humanos. O que é importante para as gerações mais novas é ter clareza de que foi um período extremamente violento.”

Segundo Dias, o movimento teve o apoio e financiamento dos Estados Unidos e de setores industriais, banqueiros, camadas médias da sociedade e de parte da grande imprensa brasileira.

A justificativa, segundo Dias, é a mesma dos outros golpes que o país sofreu: impedir o avanço de conquistas sociais que colocam em xeque os privilégios das classes dominantes:

“Você tem um descontentamento de alguns setores. O João Goulart vem com ideais lá do governo Vargas, de regulamentar a remessa de lucros. Você tem as reformas de base. Isso poderia impactar de forma negativa para alguns setores. Alguns autores dizem que foi necessária uma ruptura como essa [ a ditadura ] para você ter um governo forte e autoritário para implementar, amargas, neoliberais.”

A educadora Suely Farah, era criança na época.

“O que eu me lembro do dia do golpe, é eu saindo da escola e a minha mãe me esperando na saída, eu tinha 12 anos. Ela muito aflita, preocupada de eu voltar sozinha para casa e ter tanque de guerra na rua. Foi a primeira vez que eu ouvi falar em tanque. Eu achava que era um tanque de lavar roupa. Ela nunca ia me buscar e eu ia e voltava sozinha para a escola, de ônibus.”

A deposição de Jango e a posse dos militares resultou na escalada da violência, repressão, perseguição e censura contra todos os opositores do militarismo. O Congresso chegou a ser fechado três vezes. Movimentos políticos e sociais se organizaram.

O assassinato do estudante Alexandre Vannucchi Leme, da USP, e depois, do jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura – que veio ao Brasil com a mãe fugindo do nazismo -, causaram reações que abalaram o regime.

O Centro Acadêmico Lupe Cotrim, da Escola de Comunicações e Artes da USP, que já tinha organizado o Primeiro Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação de 1972 em Goiânia, para discutir o ensino e o país, tomou a iniciativa de denunciar os assassinatos e homenagear o colega Vannucchi.

Suely Farah, filha de músico e de uma dona de casa, assídua ouvinte de rádio, ela encontrou na cultura e na comunicação uma vocação. Então recém-ingressa do curso de jornalismo na época, foi uma das estudantes que foram até o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns propor uma missa em resposta a sua indignação:

“[ O ato ecumênico pelo assassinato de Vladimir Herzog ] só foi possível, porque teve essa antes, do Alexandre, que foi feita dessa maneira, porque era um colega nosso que tinha sido assassinado, de maneira Bárbara e injusta. Naquele momento de repressão, aquela missa abriu um espaço público de denúncia.”

De acordo com o jornalista e historiador Mauro Malin, o milagre econômico que não se concretizou, a crise do petróleo e as eleições parlamentares de 74, que deu ampla vitória ao MDB, abalaram a legitimidade do regime militar. Mas não foram os únicos fatores.

“Basicamente o que fez a Ditadura chegar ao fim, ou seja, a política, no seu sentido mais amplo. MALIN 1 1’30 Não se consegue dar um golpe num país como o Brasil somente com armas, sejam elas de que lado forem. A complexidade, tamanho do país.”

Foram 21 anos de ditadura. E será que quase 40 anos depois do retorno ao regime democrático, estamos “livres” ao autoritarismo? Para o historiador Luiz Antonio Dias, a tentativa de golpe por extremistas da direita em 2023 mostra que não. Segundo ele, a sombra desse tipo de regime volta a assustar sempre que os privilégios das classes dominantes são colocados em xeque:

“As políticas Vagas e depois do Goulart eram muito assistencialistas. Eu tenho um livro sobre o Golpe de 2016 contra a Dilma, comparando 2016 com 1964 e mostrando que você tem um governo que é um governo mais conservador e que vem com uma série de medidas muito amargas, que um governo eleito não teria provavelmente não teria coragem de implementar. A Reforma Trabalhista, da Previdência.”

Malin ressalta que em face às tentativas de golpe de 2016 e de 2023, com a invasão dos Três Poderes, é preciso compreender que a história se movimenta e estar atento a esses movimentos:

“As coisas na política sempre são diferentes, embora na história, você olhe para entender como caminharam determinados processos, é preciso entender que tudo acontece diferentemente. Tem que estar atento às forças novas, iniciativas novas.”

Confira a série de reportagens a seguir:

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