Novabrasil
#EuFui: A NovaBrasil marcou presença na Ópera CAFÉ, no Theatro Municipal
#EuFui: A NovaBrasil marcou presença na Ópera CAFÉ, no Theatro Municipal
Assim como comentamos no início da semana, estreou no dia 03/05, terça-feira, no Theatro Municial de São Paulo, a Ópera CAFÉ: uma obra baseada no libreto de Mário de Andrade de mesmo nome, adaptado por Sérgio de Carvalho, que promove um diálogo entre a linguagem musical brasileira e a operística – justamente no ano do … Continued

Assim como comentamos no início da semana, estreou no dia 03/05, terça-feira, no Theatro Municial de São Paulo, a Ópera CAFÉ: uma obra baseada no libreto de Mário de Andrade de mesmo nome, adaptado por Sérgio de Carvalho, que promove um diálogo entre a linguagem musical brasileira e a operística – justamente no ano do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922.
Com tamanha brasilidade e celebração da arte, a Novabrasil não poderia ficar de fora. Fizemos questão de conferir de perto e trazer tudo o que você precisa saber, com direito a uma entrevista exclusiva com o diretor e idealizador do projeto, o multipremiado compositor Felipe Senna. Vem conferir!

Com duração de 90 minutos divididos em dois atos, a montagem conta uma história atemporal de desequilíbrio social e revolta, entrelaçando – por meio de uma linguagem musical contemporânea – as paisagens sonoras do tempo retratado e dos dias atuais. Na obra, a música lírica e sinfônica se encontram com gêneros tradicionais brasileiros como o samba de cururuquara, a caiumba, o catira, o jongo e o choro.
O elenco conta com vozes da música popular brasileira, como Negro Leo e Juçara Marçal, participação do Balé da Cidade, do Coral Paulistano e da Orquestra Sinfônica Municipal (OSM) e a colaboração do Coletivo Nacional de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. Cada parte da composição de arte faz a diferença para entrarmos na atmosfera proposta pelos idealizadores do espetáculo, tanto em espaço, tempo e sonoridade. Ficamos maravilhados com a qualidade do conjunto da obra.


Com o registro acima, nem é preciso dizer que a estreia foi um sucesso. Ao final do espetáculo, todos os integrantes foram aplaudidos unanimamente pela plateia presente por alguns minutos.
E claro que não poderíamos deixar de bater um papo com Felipe Senna, diretor do espetáculo, pois afinal, ninguém melhor para nos contextualizar do processo de construção da obra do que um dos seus principais idealizadores, certo?
Vale ressaltar que Felipe Senna é Mestre em Artes com distinção pela City-University of London (composição, 2013) e bacharel em Música pela Unesp (Composição e Regência, 2002), atua há 20 anos no universo teatral – como compositor, diretor musical, regente, arranjador e orquestrador – com produções no Brasil e no exterior. Ele propõe a incorporação de nossas raízes musicais, populares e folclóricas no discurso musical instrumental, promovendo o cruzamento de diferentes linguagens e transcendendo barreiras de gênero, na busca por uma criação contemporânea que dialogue com o público.
Novabrasil: A ópera é baseada no libreto de Mário de Andrade para o CAFÉ. Os temas principais são desequilíbrio social e revolta. O que o contexto de Mário de Andrade conversa, na sua visão, com o nosso contexto atual?
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“Na minha visão esse texto do Mário poderia ter sido escrito ontem, infelizmente muito pouco mudou da realidade de exploração do país e da concentração do poder; da concentração da política; da concentração da força. É um texto de 80 anos que está sendo lido de uma maneira atual, de uma maneira contemporânea e que conversa com os fatos do país na atualidade. A exploração talvez não seja mais na plantação de café, mas ela é hoje nos motoqueiros que fazem entregas, então de fato é um sistema que está centrado na mão de poucos e muito pouco distribuído. A relação desse texto com a música já é uma questão um pouco mais complexa, porque ao mesmo tempo que a gente tem um texto extremamente político, ele propõe que o povo seja o protagonista da ópera, a ópera e normalmente protagonizada por um ou vários solistas com papéis dramáticos e herois, princesas e heroínas que morrem no final da peça… E nesse caso talvez ele tenha proposto algo que a gente nunca tenha visto no universo operístico que é fazer com que o protagonista seja um grupo, seja um coletivo.”
Novabrasil: Para conversar com a ópera, temos dois nomes da cena da MPB atual, Juçara Marçal e Negro Leo. Como surgiu a escolha desses nomes?
“Esse projeto começou com o Sérgio de Carvalho que é um estudioso do Mário de Andrade, e quando eu fui convidado para o projeto já existiam algumas vontades, e uma delas era trazer vozes não líricas para conversar com o universo lírico. A ópera não deixa de ser sinfônica; não deixa de ser lírica; não deixa de ser coral, mas ela não precisa ser só isso. Então a ideia era ter uma voz como a Jussara e outra voz como a de Negro Leo (que inclusive colaborou com uma poesia dele que foi incorporada ao libreto da peça). E acho que a arte é uma coisa viva e não tem como ficar se separando do universo que ele está. E a música brasileira tem uma característica tão diversa e ao mesmo tempo tão maravilhosa que trazer essa música para dentro da música sinfônica da ópera, é um movimento que precisa acontecer”.
Novabrasil: Temos a ópera como um gênero que ainda está muito no imaginário popular como voltado apenas para elite. Qual a importância de popularizar, com todos esses elementos brasileiros, uma ópera no contexto de 2022?
“A ópera nunca foi um espetáculo exclusivamente da elite, ele foi se transformando num produto elitizado ao longo do século XX. No começo da ópera o rádio não existia; a tv não existia, então o espetáculo era o grande evento multimídia da época. A ópera é o lugar onde você vê as artes se encontrando, então esse espetáculo ganhou muita força antes desses meios existirem e ele perdeu um pouco da força com a facilidade que a vida moderna foi trazendo. Pois se eu posso ligar o rádio na minha casa para ouvir o que está acontecendo eu não preciso ir até o concerto. A ópera não é um espetáculo de elite, a música é para todos, não interessa o meio, não interessa se é um cantor lírico ou popular, a música é uma coisa única e para todos. E por outro lado precisamos entender que essa imagem das senhoras de vison desfilando; os homens de roupas empoladas para a grande estreia do espetáculo são reais pelos seus motivos climáticos e de costumes da época. A importância do que está acontecendo no Theatro Municipal atualmente é que pela primeira vez em 101 anos temos uma abertura para compositores vivos atuarem como criadores de obra. dessa maneira eu tenho certeza que se o público der uma chance a esse meio que é tão maravilhoso as pessoas vão de fato se encantar. Porque a grande diferença de um espetáculo de ópera para o nosso cinema é que aqui você tem 200 e tantas pessoas em carne e osso na sua frente realizando tudo ao vivo, então eu só posso convidar principalmente o público mais jovem para passar por essa experiência porque é um meio de espetáculo que vale a pena ser conhecido.”
A ópera CAFÉ estreou dia 3 e fica até dia 8 4 e 8 de maio em cartaz. Os ingressos custam de R$ 10,00 a R$ 120,00, porém todas as sessões se esgotaram pouco tempo depois de serem anunciadas. Sucesso da cultura brasileira!


