O que ninguém te contou sobre a Revolução Constitucionalista de 1932

Decio Caramigo
14:52 09.07.2025
Jornalismo

O que ninguém te contou sobre a Revolução Constitucionalista de 1932

Mesmo derrotado, o movimento liderado por São Paulo deixou marcas profundas na política, na ciência e até no direito ao voto feminino

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- 09.07.2025 - 14:52
O que ninguém te contou sobre a Revolução Constitucionalista de 1932
Cartaz de convocação de voluntários. Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo_Foto_Renato Chaui

A história oficial costuma dizer que a Revolução de 1932 foi um movimento paulista derrotado. Mas o que os livros não contam é que, mesmo saindo vencido da luta armada, São Paulo conquistou seu principal objetivo: pressionar pela criação de uma nova Constituição. E mais: desencadeou uma série de transformações políticas, sociais e tecnológicas no país, incluindo o direito de voto às mulheres.

Quem narra esses bastidores é o professor doutor João Tomás do Amaral, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Para ele, a raiz do conflito está em uma insatisfação antiga: “Desde 1887, São Paulo e outros estados enviavam dinheiro ao governo central e não viam esse recurso retornar em investimentos ou serviços. Essa tensão se agravou e explodiu em 1932.”

A incoerência como marca da política

O professor lembra que, sim, São Paulo apoiou Getúlio Vargas em 1930, mas isso logo mudou. “Política é a ciência da incoerência”, brinca. Em pouco tempo, a elite paulista passou a confrontar o poder central, exigindo uma nova Constituição e mais autonomia.

O movimento não teve o apoio esperado de outros estados, apesar de tentativas diplomáticas no Sul. “Parte da elite gaúcha apoiou, outra parte não. Há muitos caminhos ainda não explorados nessa história”, diz João Tomás.

Sociedade em campo: ouro, taças e anéis

A adesão popular foi surpreendente. “Foi um movimento militar com grande apoio social. A campanha ‘Ouro para o Bem de São Paulo’ arrecadou alianças, correntinhas e até troféus de clubes como o Comercial de Ribeirão Preto e o Jockey Club”, revela o professor. A mobilização foi tamanha que São Paulo chegou a emitir moeda própria durante o conflito.

Cartaz de convocação de voluntários. Acervo do Instituto
Histórico e Geográfico de São Paulo_Foto_Renato Chaui

A vitória de uma derrota

Mesmo com o fim da revolução em apenas três meses de combate, o legado foi poderoso. Dois anos depois, em 1934, o Brasil ganhou uma nova Constituição, e nela, um avanço histórico: as mulheres conquistaram o direito ao voto. “É um daqueles casos em que se perde no campo de batalha, mas se ganha na política”, comenta João.

Invenções em nome da resistência

A criatividade paulista também brilhou. A Escola Politécnica desenvolveu uma “matraca”, espécie de gerador de ruídos usados para simular tiros e confundir os soldados adversários. Durante os confrontos, São Paulo poderia ter, em determinadas situações, poucas dúzias de combatentes, mas com as matracas a impressão que o inimigo tinha era de que São Paulo estava em quantidade maior de soldados e armado até os dentes. “Era uma espécie de fake news sonora”, explica o historiador.

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Outra engenhosidade foi o capacete metálico usado pelos combatentes, prensado em uma antiga fábrica de panelas na Lapa, bairro tradicional da zona Oeste paulistana. “Tecnologia de guerra feita com o que se tinha à mão”, conta o professor.

Por que celebrar uma derrota?

Para muitos fora de São Paulo, parece estranho comemorar uma revolução fracassada. Mas o professo João explica: “Não celebramos a derrota. Celebramos o impacto. A revolução mexeu com a cultura, a ciência e a política do país. Produziu conhecimento, mobilizou a sociedade, e conquistou avanços duradouros. Isso merece ser lembrado.”

E se você quiser conhecer mais sobre esse episódio marcante, o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo mantém uma exposição permanente sobre a Revolução de 1932 na Rua Benjamin Constant, 158, no centro da capital.

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