Músicas de Raul Seixas: Histórias de 5 grandes sucessos do cantor

Lívia Nolla
20:00 15.12.2024
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Música

Músicas de Raul Seixas: Histórias de 5 grandes sucessos do cantor

Chegou a hora de saber a história por trás da músicas de Raul Seixas: saiba o que levou o Maluco Beleza a compor seus maiores sucessos

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- 15.12.2024 - 20:00
Músicas de Raul Seixas: Histórias de 5 grandes sucessos do cantor
O cantor e compositor baiano Raul Seixas | Imagem: Reprodução

Chegou a hora de saber a história por trás da músicas de Raul Seixas: saiba o que levou o Maluco Beleza a compor seus maiores sucessos

Quem foi Raul Seixas?

O eterno Maluco Beleza, Raul Seixas, foi um dos mais autênticos e geniais artistas do nosso país. Cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor e poeta, ele foi um dos pioneiros do rock brasileiro e muitos o consideram o pai do rock no Brasil, influenciando uma geração de artistas com a sua música, sua irreverência e autenticidade.

Um artista adiante de seu tempo, Raul lançou 17 discos em 26 anos de carreira e inovou ao misturar o rock’n roll com o baião, trazendo brasilidade ao gênero e introduzindo uma nova vertente musical no Brasil. Raulzito também se utilizou das influências do folk, do country e do blues, além de outros ritmos nordestinos e do rock psicodélico.

Sua obra traz canções com mensagens impactantes, que unem protesto e críticas políticas e sociais – com um tom contestador e muitas vezes irônico – a angústias existenciais, misticismo, metafísica e filosofia, com ideais muito particulares.  

Mesmo muitos anos após a sua morte, sua obra continua vivíssima e cultuadíssima, sendo um dos artistas de maior importância da música brasileira, uma lenda nacional. Quem nunca ouviu um “Toca, Raul!” vindo da plateia de qualquer show, em qualquer época?

O cantor e compositor baiano Raul Seixas | Foto: Divulgação

Um pouco mais da história de Raul Seixas

Baiano de Salvador, durante a infância e adolescência, Raul Seixas amava ler e era muito fã de literatura, filosofia e também de rock’n roll. Ele dizia que tudo o que ele aprendia era nos livros, que eram combustível para a sua imaginação e fantasia.

Apaixonado por música, passava horas escutando discos de rock’n roll – principalmente Elvis Presley e Little Richard – mas também Luiz Gonzaga. Nos anos 60, Raul montou sua primeira banda de rock, Os Panteras, que se tornou um sucesso em Salvador e depois começou a ser conhecida no resto do país, ao acompanhar alguns ídolos da Jovem Guarda – que estavam bombando na época. Como, por exemplo, Jerry Adriani, um dos maiores incentivadores da carreira de Raul.

Em 1968, Raulzito e Os Panteras – já no Rio de Janeiro – gravam o seu primeiro e único disco, com bastante influência dos Beatles, mas o disco não foi sucesso nem de público nem de crítica, e a banda teve dificuldade de adequar ao mercado fonográfico.

Com isso, Raul e os Panteras passam por muitas dificuldades, chegando a passar fome no Rio de Janeiro. Depois de um tempo, Raul Seixas foi trabalhar como produtor em uma gravadora, fazendo muitos amigos, contatos e parceiros. Artistas de peso na época começaram a gravar as composições de Raul e também a ser produzidos por ele.

No começo dos anos 70, seus primeiros discos em parceria com outros artistas foram censurados pela ditadura por conta das letras e, quando foram finalmente lançados, não tiveram boa aceitação do público e nem da crítica: Raul ainda era incompreendido na sua genialidade.

Em 1972, o artista participou do VII Festival Internacional da Canção e se classificou com duas composições, entre elas a genial mistura de rock e baião Let Me Sing. Raul Seixas foi finalmente contratado como artista por uma gravadora e alcançou o auge do sucesso pouco tempo depois.

Em 1973, seu primeiro disco solo, conta com a clássica canção Ouro de Tolo, em que relata sobre seu tempo de dificuldades quando chegou ao Rio, faz críticas à ditadura, aos sonhos e anseios da sociedade e já mostra o seu interesse por extraterrestres, o que – depois – refletiu-se em muitas de suas obras e na parceria com o escritor Paulo Coelho.

Também deste disco são as canções icônicas Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante – um verdadeiro retrato de quem foi Raul Seixas e uma de suas músicas mais famosas – e Al Capone.

Em 74, Raul e Paulo Coelho lançaram o movimento espiritual esotérico Sociedade Alternativa, baseado nos preceitos do bruxo inglês Aleister Crowley, e – por isso – tiveram muitos problemas com a censura, que acreditava que suas letras eram subversivas e um movimento revolucionário contra o governo. 

Os dois foram presos pelo DOPS, torturados e obrigados a se exilar nos Estados Unidos, onde ficaram por pouco tempo, porque o sucesso de Gita – próximo disco de Raul, que havia sido gravado meses antes – foi tanto, que eles voltaram aclamados pro Brasil.

Gita, rendeu a Raul disco de ouro e é considerado seu álbum de maior sucesso, trazendo, além do hit Sociedade Alternativa, as clássicas Medo da Chuva e a faixa-título.

Em seguida vieram mais sucessos estrondosos e geniais, como a épica balada rock:

  • Tente Outra Vez
  • A Maçã
  • Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás
  • Meu Amigo Pedro
  • Eu Também Vou Reclamar
  • O Dia Em Que A Terra Parou 
  • Maluco Beleza
O cantor e compositor baiano Raul Seixas | Foto: Divulgação

Últimos anos de Raul Seixas 

A partir de 78, Raul começou a ter problemas de saúde devido ao abuso no uso de álcool e outras drogas, o que lhe causou uma pancreatite aguda e a perda de 1/3 do pâncreas. Ele não concordava com os direcionamentos dados pela gravadora ao seu trabalho e se incomodava muito com o fato de a vendagem dos seus discos importarem muito mais do que a sua estética musical.

Ele também passou a enfrentar uma depressão, depois que se separou da terceira esposa e que as parceiras de seus dois casamentos anteriores se mudaram pros EUA com suas filhas. Tudo isso somado levou Raul Seixas a um círculo vicioso de abusos e dificuldades para trabalhar.

Em 1980, depois de um tempo afastado se tratando, Raul lança os clássicos Rock das Aranha e Aluga-se. Mas, sem gravadora e contratos e enfrentando uma forte depressão, se afunda mais e mais.

Em 1983,  é convidado para gravar o icônico especial infantil Plunct, Plact, Zum, da Rede Globo, pro qual compõe a famosa Carimbador Maluco, e participa também como ator, dando uma boa guinada e recuperada na sua carreira.

Ainda vieram os sucessos Mamãe Eu Não Queria, Geração da Luz, Não Pare Na Pista e Cowboy Fora da Lei, quando – em 1989 – um dia antes de lançar um disco em parceria com Marcelo Nova, com o qual fez uma turnê de 50 apresentações pelo Brasil, depois de anos sem pisar nos palcos – Raul Seixas nos deixa, aos 44 anos, vítima de uma parada cardíaca causada pela pancreatite aguda da qual sofria. Raul também era diabético e não tinha tomado insulina na noite anterior.

Depois da sua morte, Raul Seixas permaneceu entre as paradas de sucesso e continua fazendo sucesso e influenciando as novas gerações, sendo um ícone nacional, uma lenda da nossa música.

Viva, Raul!

Histórias de 5 sucessos de Raul Seixas 

1 – Ouro de Tolo

Em 1973, Raul Seixas lançou seu primeiro disco solo, Krig-Ha, Bandolo!, que conta com a clássica canção Ouro de Tolo, em que relata em forma de crônica – com uma letra bastante autobiográfica – sobre seu tempo de fome e dificuldades quando chegou ao Rio de Janeiro.

O título da canção, Ouro de Tolo, é uma expressão que existe mesmo: há um mineral chamado pirita, que é formado pela união de um átomo de ferro com dois átomos de enxofre. Essa combinação resulta em um metal dourado, mas não tão dourado quanto o ouro.

Só que muitas pessoas não sabem fazer essa diferenciação e – ao longo da história – muita gente comprou a pirita pensando que era ouro, ou então encontrou a pirita na natureza e tentou vender achando que era ouro, daí vem a expressão Ouro de Tolo.

Raul Seixas também se inspirou no costume dos falsos alquimistas que, na idade média, prometiam transformar chumbo em ouro, e apresentou uma crítica ácida sobre os sonhos e anseios patéticos da sociedade, em uma letra repleta de críticas sociais e econômicas. 

A canção Ouro de Tolo é um deboche e um ataque ao conformismo do país a respeito das ilusórias vantagens oferecidas pela ditadura militar e seu “milagre econômico”, e o “disco voador” seria uma referência a uma nova sociedade a ser construída, com despertar da consciência individual, visando à construção do que futuramente o cantor (junto com seu parceiro Paulo Coelho) chamaria de Sociedade Alternativa. 

Surpreendentemente, a música não foi barrada pela censura e pôde ser lançada. 

Na época, Paulo Coelho –  parceiro de Raul em várias letras e que gostou muito do que o amigo compôs em Ouro de Tolo – com todo o seu conhecimento em marketing e imprensa, propôs que eles fizessem uma grande passeata, convocando vários amigos e conhecidos, a saírem tocando a canção pelas ruas do Rio de Janeiro, na hora do rush, convocando a imprensa para acompanhar.

O cortejo fez tanto barulho que saiu até no Jornal Nacional, impulsionando ainda mais o sucesso da grande canção e transformando para sempre a carreira de Raul Seixas, que transformou-se em um ícone nacional a partir de então.

Uma curiosidade é que, nesta época, o Raul Seixas tinha mesmo conseguido comprar um carro Corsel 73. Só que, da primeira vez que Ouro de Tolo foi gravada – em duas versões , dentro de compacto lançado pouco antes do primeiro álbum de Raul – uma das versões da canção não citava a marca do carro, trocando a frase “Eu devia estar feliz porque consegui comprar um Corcel 73 por “Eu devia estar feliz porque consegui comprar meu carrão 73”. 

Acredita-se que isso foi feito para que não houvesse propaganda gratuita para o Corsel quando a música fosse executada em programas de TV.

Outra curiosidade sobre a canção – contada por Jotabê Medeiros, no livro Raul Seixas – Não Diga que a Canção está Perdida, de 2019, é que Raul realmente foi ao zoológico com a família antes de compor a Ouro de Tolo e viu uma mulher de casaco de pele, meia e sapato jogando pipoca na jaula dos macacos. 

Em reação à atitude da mulher, um macaco jogou fezes em direção a ela, o que fez o nosso Maluco Beleza dar muita risada, transformando aquela cena também em uma ácida crítica social.

A letra de Ouro de Tolo passou pela censura em um primeiro momento, mas – logo que lançada e com o sucesso que a música atingiu – os censores começaram a sacar que Raul Seixas podia estar debochando da ditadura militar e do milagre econômico.

Essa pulga atrás da orelha na censura deu origem a um documento interno na aeronáutica, que colocava o artista “em suspeita” pela letra de Ouro de Tolo e também citando Paulo Coelho e sua esposa na época.

Aos censores, Raul respondia que a letra era uma crítica “não a pessoa de Roberto Carlos, mas ao esquema que ele representa”, querendo dizer que o que citava na letra era sobre os “queridinhos do sistema”, como Roberto, que fizeram muito sucesso com muita facilidade (no entendimento dele), enquanto ele – que era questionador – encontrou mais resistência e obstáculos para mostrar o seu trabalho.

Segundo o livro de Jotabê Medeiros, Raul usou o sucesso Sentado à Beira do Caminho – de Roberto e Erasmo Carlos – para fazer a sua crítica. As duas canções, Ouro de Tolo e Sentado à Beira do Caminho, tem o início bastante parecido.

Além disso, na música A Montanha, de 1972, Roberto cantava “Obrigado Senhor, mesmo que eu chore”. E Raul canta, em Ouro de Tolo: “Eu devia ter agradecido ao Senhor por ter tido sucesso”.

2 – Sociedade Alternativa

A Sociedade Alternativa foi uma filosofia defendida por Raul Seixas durante toda a sua vida e inspirou várias de suas composições. 

Veja também:

O cantor e compositor baiano seguia as ideias do ocultista britânico Aleister Crowley – autor do famoso Livro da Lei e criador da doutrina Thelema – e estava bastante envolvido em suas teorias. 

De acordo com Crowley, o livro foi ditado para ele por um ser chamado Aiwass, em 1904, por meio de uma voz que vinha do lado esquerdo de seu ombro. 

Foi nele que Mister Crowley, como era conhecido por seus seguidores, escreveu a lendária frase “Faze o que queres, há de ser o todo da lei”. Para ele, essa era a regra suprema que deveria reger o mundo, a “liberdade absoluta”, também chamada de “Lei da Thelema”.

Assim, em uma forma de organização anarquista, o ser humano seria livre para fazer o que ele bem entendesse.

Toda essa ideia de anarquia e espírito livre desagradou as autoridades britânicas da época. Tanto que a imprensa local chegou a chamar Aleister Crowley de “o homem mais perverso do mundo”, “satanista” e “besta 666”. 

Apesar de todas as controvérsias, Crowley conquistou inúmeros admiradores, entre anônimos e famosos, como os Beatles e Jimmy Page. 

E a Thelema, criada por ele, nada mais é do que a expressão prática dos seus ensinamentos. Além da lei da liberdade, ela também reúne princípios morais e filosóficos, todos de acordo com o pensamento de Crowley e seus seguidores. 

Além de Raul Seixas, outras personalidades, como o seu futuro parceiro de composições, o escritor Paulo Coelho, também seguiam o bruxo.

Raul conheceu Paulo em 1973, ao ler um texto que o escritor havia publicado na revista A Pomba.

Da admiração pela leitura nasceu uma amizade entre os dois, refletida no sucesso das músicas que criaram em conjunto. Algumas delas, inclusive, são as mais ouvidas de Raul Seixas

Naquela época, Coelho já estava em contato com o thelemita brasileiro Marcelo Ramos Motta. Foi com ele que, na década de 1970, a dupla adquiriu os primeiros materiais sobre ocultismo, misticismo e toda a ideologia envolvendo a Thelema.

Percebendo o entusiasmo dos artistas, Motta ficou motivado a difundir ainda mais o pensamento de Crowley e ainda contribuiu para a composição de algumas canções. Tente Outra Vez, A Maçã e Novo Aeon são algumas delas, todas escritas de acordo com a ideia de liberdade e amor dos thelemitas.

Foi dessa troca de conhecimento e de teorias filosóficas que surgiu a chamada Sociedade Alternativa. Uma forma de organização que preza, acima de tudo, pela liberdade dos seres em suas vivências e relações.

A Sociedade Alternativa foi criada em 1973, no mesmo ano do encontro entre Raul Seixas e Paulo Coelho. O seu registro em cartório aconteceu em 1974, quando ela passou a existir como organização civil. 

A sede era o próprio apartamento de Raul, no Rio de Janeiro, mas os seus criadores almejavam muito mais. A ideia era criar uma comunidade em Minas Gerais para os seus seguidores, a Cidade das Estrelas.

No entanto, infelizmente, o cantor e o escritor foram exilados durante a Ditadura Militar e, ao retornarem ao Brasil, dissolveram a Sociedade Alternativa. O documento oficial de dissolução data de 1976.

Apesar disso, ela continua viva entre os fãs de Raul Seixas, do Paulo Coelho e do ocultismo. 

A música Sociedade Alternativa, lançada no ano seguinte, ajudou a popularizar as ideias dessa organização e é até hoje cantada e reproduzida pelos seus seguidores.

3 – Gita

Em vídeo publicado pelo canal do Sylvio Passos, Raul Seixas refletiu acerca dos significados por trás do clássico Gita:

“As pessoas me perguntam como se fala ‘Gita’. A pronúncia correta é ‘Guita’. Vem do livro indiano ‘Bagavadeguitá’, que seria como a bíblia para nós. É um livro antigo e ninguém sabe quem escreveu. Deve ser um dos mais antigos da humanidade. 

Ele fala sobre a história da revelação do todo, do absoluto, que é Deus. A grande resposta. O resultado é que Krishna, que é a representação do todo, diz no livro para um guerreiro chamado Arjuna, sobre a chave da resposta para as perguntas. 

Quando falo na letra ‘Sou isso, Sou aquilo’, não sou eu. De maneira nenhuma. É cada um de vocês. Nós somos a coisa mais importante no universo. O todo quis assim. Somos o próprio processo histórico e o equilíbrio cósmico. Então, cada um é sua própria estrela. Cada um gira em torno de si, embora, nesse plano, tenhamos que interagir. Acho legal elucidar a música, porque às vezes começamos a ouvir uma música e não sabemos do que se trata. Ela trata de cada pessoa mesmo”.

Raul Seixas e Paulo Coelho se inspiram em trechos do livro indiano Bhagavad Gîtâ, um poema filosófico que compreende os capítulos 23 a 41 do Bhismaparwa, uma das seções do livro Mahâbhârata. O poema, portanto, é o mais lido, mais discutido e mais examinado de toda a literatura sânscrita, podendo ser definido como um patrimônio espiritual de toda a humanidade.

O que Paulo e Raul fizeram nessa canção foi traduzir e tornar mais acessível ao público brasileiro o diálogo entre o deus Krishna e o herói Arjuna. As estrofes da canção Gita estão baseadas na pergunta feita por Arjuna a Krishna: “Quem és tu?”. O questionamento do guerreiro dá origem à resposta do deus.

4 – Medo da Chuva

O hit Medo da Chuva é mais um fruto da parceria entre Raul Seixas e Paulo Coelho. Em sua letra, há uma espécie de manifesto contra a monogamia, como explica Júlio Ettore, em um vídeo no seu canal no YouTube, citando a relação entre Raul Seixas e sua primeira esposa, Edith:

“Os laços entre Raul e a Edith já estavam bem frágeis, tanto que Raul decidiu incluir no disco Gita a canção Medo da Chuva, uma composição em parceria com Paulo Coelho, tanto na letra quanto na melodia. Aliás, é a única melodia que o Paulo compôs na vida, o que é algo notável já que ele não toca instrumento nenhum. Medo da Chuva é um manifesto contra a monogamia, é o Raul declarando que não quer ficar apenas com uma mulher.

O Paulo fez essa música num dia em que ele pegou muita chuva voltando para casa, aí ele pensou nesse verso: ‘Eu perdi o meu medo da chuva’ e ficou cantarolando. (…) Ele começou a pensar num assunto que o afligia especialmente naquele momento, em que viveu uma crise com Adalgisa: a fidelidade”.

Adalgisa era a esposa de Paulo Coelho naquela época e os dois também estavam em crise, como Raul e Edith. E Júlio Ettore continua contando a história de Medo da Chuva: 

(Paulo) misturou um pouco dos livros que andava lendo, como ‘O Casamento do Céu e do Inferno’ de William Blake, que o fazia desconstruir alguns mitos criados pela Igreja Católica, e também a liberdade de atos pregada por Crowley

Crowley foi um cara que defendia magia sexual através de experiências com diversas pessoas, o que Paulo e Raul entendiam como uma defesa da poligamia. Então, olha como as ideias com as quais o Raul teve contato nessa época de parceria com Paulo Coelho influenciaram até no casamento dele, fazendo com que ele acreditasse que deveria ter várias mulheres, quando no fundo não era isso que o Raul achava. 

Enfim, se a Edith entendeu ou não o recado que o Raul passou com a canção Medo da Chuva, talvez nem o Raul deve ter visto, porque ela pegou a Simone (filha do casal) e se mandou certo dia, quando o Raul tinha dado mais uma de suas sumidas e, após alguns flagrantes de aventuras extraconjugais, Edith pegou a filha Simone, vendeu o apartamento do Leblon por 40 mil cruzeiros e se mudou para a casa dos pais em Salvador.

Em conversa com a mãe de Raul, ela contaria que estava a caminho dos EUA (sua terra natal) e que nunca mais regressaria.”

5 – Tente Outra Vez

A música Tente Outra Vez é uma das mais famosas da trajetória de Raul Seixas. 

Ela marca a entrada de Marcelo Mota na vida de Raul Seixas. A letra é uma parceria da dupla e também de Paulo Coelho. Marcelo era um importante divulgador da obra de Alester Crowley, um cara proeminente nas sociedades esotéricas. Raul e Paulo, como já contamos, participaram dessas sociedades e foram aprendizes de Marcelo. 

Paulo Coelho deu uma amenizada nessa letra, que antes fazia muitas referências a esses conceitos mais do ocultismo. O Paulo estava com trauma por causa da prisão, exílio e tortura, e não queria chamar atenção da censura. Ele alterou algumas passagens, tipo ‘Tenha fé em Deus, Tenha fé na vida’, que antes era ‘Tenha fé em você’, mas foi considerado pelo Paulo como muito individualista. 

Além de estar embutido nesta letra o trauma pós-tortura que Paulo e Raul sofreram e a necessidade de se reerguer, eles também estão falando sobre a situação do país e do mundo que era difícil por causa da crise do petróleo. O barril triplicou de preço e o mundo inteiro sofreu, inclusive o Brasil, trazendo crise econômica e inflação nos anos seguintes. 

O impacto que essa música tem na vida das pessoas é impressionante: pessoas que estavam perto do suicídio, desistiram por conta de Tente Outra Vez.

por Lívia Nolla

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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