Novabrasil
10 canções brasileiras para o Dia da Consciência Negra
10 canções brasileiras para o Dia da Consciência Negra
Vinte de novembro é dia de luta contra o racismo no Brasil; confira cantoras negras que falam sobre identidade e resistência
A música tem sido uma poderosa ferramenta de expressão e conscientização também na luta contra o racismo. O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, precisa, também, ser um marco para a valorização da cultura afro-brasileira.
Isso vale, ainda mais, quando é feito um recorte de gênero, em um cenário em que a arte brasileira reúne inúmeras artistas negras que usam a música para compartilhar suas vivências e promover mensagens de empoderamento.
Neste contexto, apresentamos 10 canções interpretadas por mulheres que destacam a identidade e a resistência da população negra no Brasil e celebram suas histórias e conquistas.
Sorriso Negro – Dona Ivone Lara
Embora Sorriso Negro (Jorge Portela, Adilson de Barro e Jair de Carvalho, 1981) não tenha sido composto por Dona Ivone Lara, ficou imortalizado em sua voz. Nascida Yvonne da Silva Lara (13 de abril de 1922 – 16 de abril de 2018), nunca se envolveu em militância política explícita durante a carreira.
Ainda assim, sua música é resultado da luta contra o machismo e a opressão racial, desde quando adentrou nas quadras de samba e nos terreiros, territórios masculinos e machistas.
A jornalista e pesquisadora Mila Burns escreveu sobre o terceiro álbum da cantora, Sorriso negro, em ensaio dentro da série O livro do disco. Em sua análise, a força política de Ivone Lara reside na obra da artista. Canções sobre liberdade, orgulho negro e empoderamento feminino, refletem as mudanças que o Brasil passava no pós-ditadura e que seguem atuais.
A Carne – Elza Soares
A letra composta por Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti fala sobre o racismo estrutural, com versos que trazem uma crítica à opressão e exclusão da sociedade brasileira com o povo preto. A interpretação emblemática é de Elza Soares, no álbum “Do Cóccix Até o Pescoço”, de 2002.
No vídeo, Elza conta quando ouviu a música pela primeira vez.
“A carne mais barata do mercado é a carne negra
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos”
Olhos Coloridos – Sandra de Sá
A música “Olhos Coloridos”, famosa na voz de Sandra de Sá, foi composta por Macau na década de 1970, inspirada por uma experiência de racismo que sofreu ao ser preso injustamente pela polícia durante uma exposição escolar. Após a humilhação, Macau escreveu a letra enquanto contemplava o mar do Leblon, transformando sua dor em um desabafo poderoso. A canção, que aborda a beleza e a identidade negra, celebra a mestiçagem e a diversidade da cultura brasileira.
Dandalunda – Margareth Menezes
Carlinhos Brown compôs Dandalunda para Margareth Menezes. A música narra a vivência em um terreiro de candomblé. Dá para ouvir a história da boca da própria cantora que fez a faixa virar um hit do carnaval de Salvador.
A canção “Olhos Coloridos”, um dos grandes sucessos de Sandra de Sá, possui uma história marcante ligada ao compositor Macau, que a escreveu após vivenciar um episódio de racismo nos anos 1970. Durante um evento escolar, ele e um amigo foram abordados por policiais e sofreram humilhações, o que inspirou a letra da música, que celebra o orgulho negro e critica a discriminação.
Após ser preso injustamente, Macau refletiu sobre sua experiência na praia do Leblon, onde compôs a canção. Lançada oficialmente em 1982, “Olhos Coloridos” se tornou um ícone da música popular brasileira, ressoando até os dias atuais.
Negro Zumbi – Leci Brandão
A música “Negro Zumbi”, de Leci Brandão, fala sobre a figura histórica de Zumbi dos Palmares, um ícone da resistência contra a escravidão no Brasil. A letra evoca o “grito” de Zumbi, simbolizando a luta por liberdade e justiça dos negros, e faz referência ao Quilombo dos Palmares como um espaço de refúgio e resistência.
Cota Não É Esmola – Bia Ferreira
A letra narra as dificuldades enfrentadas por uma jovem negra da favela, destacando a falta de recursos e as barreiras sociais que limitam o acesso à educação. Bia utiliza a repetição do verso “Cota não é esmola” para enfatizar que as cotas são uma forma de reparação histórica e não um favor.
A música ganhou notoriedade após uma apresentação no Sofar Sounds em 2018, tornando-se um símbolo de resistência e empoderamento na luta por igualdade racial no Brasil
“Existe muita coisa que não te disseram na escola
Cota não é esmola
Experimenta nascer preto na favela pra você ver
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito”
Sobre Nós – Drik Barbosa
Veja também:
Na música “Sobre Nós”, Drik Barbosa fala da importância da união e do apoio mútuo em um contexto de adversidade, enfatizando a força que vem da comunidade. Ao tratar sobre identidade e pertencimento, a cantora celebra o cuidado e afeto como uma forma de resistência contra as opressões sociais.
“Olhando pra trás
Dores e espinhos sem flores, desde os ancestrais
Horrores de senhores que atrasaram nossa história
O legado é mais, jamais mancharam nossa memória”
Afrofuturo – Ellen Oléria
Com uma estética com a proposta de atualizar as heranças afrodiaspóricas, Ellen Oléria busca reimaginar o futuro. A canção aborda questões de identidade, ancestralidade e resistência para criar narrativas que desafiam as estruturas racistas e promovem a valorização da cultura negra.
“Eu também quero agora
Não só pra futuras gerações
Agora, sim! Temos opções
Quebrando os padrões, saindo dos porões
Dê-me um punhado de palavra e fogo
Faço minhas poções”
Antes de Salvar o Mundo – Luana Bayô
Cantora e compositora, nascida e criada na periferia de São Paulo, no Campo Limpo. Sua carreira tem sido dedicada à visibilidade e valorização das mulheres negras. A música de Luana é uma forma de resgatar a ancestralidade e promover o empoderamento feminino, refletindo suas vivências e experiências como mulher negra na sociedade brasileira contemporânea.
“Antes de salvar o mundo
Negras precisam
Salvar seus corpos
Celebrar sua existência”
Tássia Reis – Preta D+
A música “Preta D+”, de Tássia Reis, é uma poderosa declaração de valorização da identidade negra. A canção destaca a beleza e a força das mulheres negras, com um forte apelo à autoestima, resistência e a luta contra estereótipos negativos. O orgulho de suas raízes, empoderamento e solidariedade entre as mulheres negras, lembra a importância de reconhecer a identidade para não comprar o discurso que marginaliza suas experiências e vivências.
Dia da Consciência Negra
Dia 20 de novembro é uma data marcada pela memória do líder Zumbi dos Palmares, que lutou contra a escravidão e pela liberdade do povo negro. Instituída oficialmente pela Lei n.º 12.519 em 2011, a data busca promover uma reflexão sobre a importância da cultura afro-brasileira e os desafios enfrentados pela população negra ao longo da história.
A escolha do dia remete ao assassinato de Zumbi em 1695, simbolizando a resistência e a luta contínua contra o racismo e a discriminação.
Com essa seleção é possível reconhecer as lutas individuais de suas compositoras, mas também a voz coletiva de um povo que busca reconhecimento, reparação e dignidade.
Ao celebrar o Dia da Consciência Negra com essas músicas, cria-se uma oportunidade de ouvir e valorizar as experiências das mulheres negras na sociedade brasileira. Que essas vozes continuem a inspirar novas gerações na luta por justiça social e igualdade racial para promover um futuro mais inclusivo e respeitoso para todos.



