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Karen Cunha: “Qual o lugar do negro na música?”
Karen Cunha
Curadora e especialista em eventos de grande porte
Karen Cunha: “Qual o lugar do negro na música?”
A história apagada e a resistência negra na música
Mais um texto sobre o dia da consciência negra. Sim, porque você já deve ter se deparado com dezenas de outros textos sobre esse assunto.
Novembro é aquele mês que tem gente preta nos programas de TV, nas revistas, nas programações artísticas de todas as instituições culturais, praticamente uma Wakanda.
Este, inclusive, ia ser mais um texto dizendo que a Consciência Negra se resume a fazer um evento aqui e outro ali em novembro e dizer “tá pago”, porque no resto do ano não precisa mais pensar sobre o assunto.
Mas esse discurso já ficou repetitivo. Todo mundo sabe e ninguém mais se comove ou se importa.
Então, decidi fazer diferente e falar de um lugar onde nunca faltou gente preta: a música. Foi por programa de inclusão? Foi uma efeméride? Não, foi porque, basicamente, quase toda a música tem influência negra.
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O rock é negro, o house é negro, o jazz é negro, o samba é negro, o rap é negro e eu poderia passar o dia aqui listando gêneros musicais igualmente negros.
Por mais que a história tenha tentado, repetidas vezes, apagar esse fato, é só ir puxando o fio de onde começou determinado ritmo e lá estará uma pessoa negra.
Mas veja bem, dizer que não faltam pessoas negras na música não significa que elas tiveram espaço ou reconhecimento.
Será que só havia gente branca em cenas musicais como a Bossa Nova, o Sertanejo e a Música Clássica? Duvido. Como mencionei antes, basta puxar o fio da história e logo chegaremos ao ponto em que a presença de pessoas negras foi apagada.
Faz muito pouco tempo que a mídia começou a reconhecer e a citar nomes essenciais para a Bossa Nova, como Alaíde Costa, Johnny Alf e Lenny Andrade, pois até então o que sabíamos é que o gênero era restrito aos jovens brancos e ricos da zona sul carioca. A mesma coisa pode ser dita sobre o sertanejo, que veio da música caipira, mas pouco se lembra das pessoas negras que fizeram parte disso, como Tião Carreiro, Pena Branca & Xavantinho, entre outros.
O cantor Rick (da dupla Rick e Renner), um dos poucos negros a atingir o estrelato na música Sertaneja, relembrou em entrevista ao canal do jornalista André Piunti uma história que lhe foi contada pelo já falecido João Paulo (da dupla João Paulo e Daniel): “O cara comprou um show, mas ele não os conhecia.
Na época, não tinha tanta imagem, não divulgava tanto. E quando João Paulo e Daniel chegaram, o cara falou que, se tivessem dito que tinha um negro na dupla, ele não teria comprado.”
Esse relato do Rick sobre o João Paulo nos remete a um fator que se repete nas histórias onde há apagamento de músicos negros: a “modernização” da imagem de um determinado gênero.
Com objetivo de tornar “o produto” mais “moderno”, escolhia-se a dedo a cara do representante de determinada música. E assim ficava para trás quem não tinha uma imagem “vendável”. Nem preciso dizer o que não vendia, né? Hoje em dia, ainda é difícil ver negros em certos estilos musicais criados por negros, como a música eletrônica e o jazz.
Por isso, cada vez que você vir um Amaro Freitas ou um Jonathan Ferr em destaque, saiba que está diante de um ato revolucionário. Se na música vemos cada vez mais pessoas negras estampando suas obras com suas caras, o mesmo não acontece nos bastidores. A indústria da música continua majoritariamente branca.
São pouquíssimos negros e negras no topo da cadeia, negociando e realmente ganhando dinheiro com isso. Bom, pelo menos ela não é mais exclusivamente masculina, como era até bem pouco tempo.
Se tivéssemos mais profissionais negros e negras no alto escalão da música, muito
provavelmente as discussões sobre o que é uma imagem vendável ou quem merece ser reconhecido teriam um resultado diferente. Quem sabe um dia, né?
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Karen Cunha

