As músicas das festas dos santos populares que tocam na minha cabeça (parte 2)

Chinaina
14:19 24.06.2024
Autor

Chinaina

Cantor, compositor, apresentador, escritor e produtor musical
Música

As músicas das festas dos santos populares que tocam na minha cabeça (parte 2)

Chinaina chega no site da Novabrasil para escrever sobre o que ele mais gosta: Música

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- 24.06.2024 - 14:19
As músicas das festas dos santos populares que tocam na minha cabeça (parte 2)
Dominguinhos — Foto: Divulgação / Prêmio da Música Brasileira

O ciclo junino está passando rápido demais. Santo Antônio já foi, São João é hoje, São Pedro está batendo na porta e a gente ainda tem muito o que conversar por aqui. Lembrando que a primeira parte da minha coluna tá aqui, e também a playlist exclusiva que fiz para você saborear essas linhas com as músicas que acendem nossos corações nessa época, beleza?

A segunda parte do meu texto sobre os artistas e as canções do ciclo junino começa com Dominguinhos, pois não dá pra falar das transformações das músicas juninas sem citar as evoluções desse mestre da sanfona.

José Domingos de Moraes, natural de Garanhuns, agreste pernambucano, é o herdeiro musical de Luiz Gonzaga, como o próprio rei do baião afirmou em diversas entrevistas. Até seu nome artístico foi Gonzagão quem deu. Antes, Dominguinhos era Neném do Acordeon, e fazia apresentações na porta do Hotel de sua cidade natal. O jovem aprendiz ganhou sanfona do mestre, o acompanhou em muitos shows e gravações, e nos anos 70, começou a chamar a atenção da turma da MPB.

Nara Leão, Gal Costa, Gilberto Gil, Chico Buarque, Roberto Carlos, Maria Bethânia, Elba Ramalho, só para citar alguns astros da nossa música que tiveram a sanfona e as ideias de Dominguinhos em suas canções. E não era qualquer sanfona, hein? Pois além de ter um pé muito bem calçado na cultura popular, Dominguinhos também tinha influências jazzísticas e estava sempre disposto a elevar o nível do seu instrumento.

Dos seus vários discos solo destaco, Oi, Lá vou Eu, álbum de 1977 que conta com Arrebol, uma das músicas mais bonitas e interessantes que já ouvi. Essa canção conta com João Donato no piano elétrico e Jackson do pandeiro na percussão. Como a gente diz na gíria pernambucana, é o fraco!

“Que surpresa alegre

bem-vinda, amada

Chegue-se a mim

Cravos e açucenas

Plantei pra você em nosso jardim”.

Citei essa música porque é quase um lado B da obra de Dominguinhos e não é todo mundo que conhece, mas deveria muito ser lado A, como por exemplo é, Eu só quero um Xodó, em parceria com Anastácia e sucesso estrondoso por todo o país.

“Eu só quero um amor

Que acabe o meu sofrer

Um xodó pra mim

Do meu jeito assim

Que alegre o meu viver”

Essas canções mostram bem a versatilidade de Dominguinhos, e de como ele fez da sanfona um instrumento que passeia por vários gêneros da música brasileira. Coloquei as duas na playlist, mas vá fundo na obra dele que vale a pena demais.

No fim dos anos 70 o Forró de duplo sentido, com letras jocosas e maliciosas chega às rádios de todo o Brasil e os nomes de Clemilda e Genival Lacerda surgem para o grande público. Eu nasci em 1979, ano em que Genival lançou Radinho de pilha, e minha mãe me ninava cantando assim:

“Ela deu o rádio e não me disse nada

Ela deu o rádio”

Segundo mainha, enquanto ela não cantasse essa eu não dormia.

Quem também enveredou pelo forró de duplo sentido foi o alagoano Sandro Becker, e já nos anos 80, era figurinha carimbada em vários programas dominicais com o hit, O gato Tico, fazendo alusão a um gatinho que não parava de miar.

“Tico mia na sala

Tico mia no chão

Tico mia na cozinha

Tico mia no fogão”.

Além das músicas de duplo sentido, os anos 80 trouxeram outros forrozeiros que foram além do triângulo, zabumba e sanfona, e incorporaram metais, bateria, teclado, guitarra e mais um monte de instrumentos ao Forró.

É o caso de Jorge de Altinho, um dos autores de Confidências, e de vários outros hits do São João nordestino.

Outro que vem dessa safra de forrozeiros é Petrúcio Amorim, poeta de primeira, que além de escrever Confidências com Jorge de Altinho, é dono de Anjo Querubim, música que sempre tocava nas rádios e festas do interior.

“Fiz você pra mim

Meu brinquedo, meu anjo Querubim

Meu segredo guardado só pra mim

Meu amor mais louco”

O paraibano, cantor, compositor e sanfoneiro Flávio José completa esse time, que trouxe novas ideias e melodias para o forró, com músicas que foram regravadas pelas gerações seguintes e emocionam toda vez que a gente escuta. São dele: Caboclo Sonhador, Filho do dono e Tareco e Mariola.

Veja também:

“Eu me criei matando a fome com tareco e mariola

Fazendo verso dedilhado na viola

Por entre os becos do meu velho vassoural”

Entre os anos 70 e 80 tivemos belas músicas pra dançar em volta da fogueira interpretadas por nomes de peso da música brasileira. Gal Costa com Festa do Interior de Moraes Moreira e Abel Silva, Zé Ramalho com a politizada, Admirável Gado Novo, Alceu Valença com Coração Bobo, Geraldo Azevedo com o xote Moça Bonita, Elba Ramalho com Bate Coração, música de Mary Maciel Ribeiro, Antônio Barros e Cecéu. Xuxa contribuiu com o Forró da Cachorrada, de Zé Henrique e Fred Pereira, e o Chiclete com Banana lançou, No Forró, um álbum inteiro dedicado ao ritmo. Ou seja, a folia no palhoção do Forró seguia garantida.

A partir dos anos 90, as canções do ciclo junino se reinventaram de novo.

O Forró acelerou o passo, o ritmo ficou mais rápido mesmo, e os shows passaram a durar mais de 5 horas. Sim! Era essa a proposta do novo Forró cearense ou Forró eletrônico, como alguns chamavam.

Quem primeiro se destacou foi Eliane, a rainha do Forró – título que ganhou dos fãs – e a primeira sacada dela foi regravar em ritmo de arrasta pé alguns clássicos da Disco Music brasileira do final dos 70. É o caso de Quem é Ele, música gravada primeiro pela cantora Miss Lene, ganhou de Eliane uma versão pra lá de ritmada.

De sua autoria em parceria com Natinho da Ginga, Amor ou Paixão foi a música que catapultou de vez a cantora para o sucesso.

“Pergunto e repergunto novamente pro meu coração

Será amor ou será paixão”

Logo na sequência, vieram os grupos Mastruz com Leite, Limão com Mel, Rabo de Saia, Cavalo de Pau, e mais um monte de gente. Inclusive, vários deles regravaram canções de Petrúcio Amorim e outros compositores que fizeram sucesso uma década antes.

Lembro bem desses tempos porque eu vivia entre os shows de Forró e a cena Punk Rock de Recife e Olinda. Para mim era completamente natural ir dançar forró de tarde na Sala de Reboco, e a noite tá batendo cabeça e pogando no palco do lendário Pocoloco, casa de shows underground de Olinda.

Com o surgimento do movimento Manguebeat, alguns músicos que tinham sua formação no Rock viraram sua atenção para a cultura popular e se reinventaram, como Siba, que trocou a guitarra pela rabeca e formou o Mestre Ambrósio, grupo que trazia um Forró “Pé de Calçada” como eles mesmos diziam da sua fusão de maracatu, coco, baião e cavalo marinho.

“Hoje eu faço Forró em pé de calçada

No mei da zoada, pela contramão”

Além do Mestre Ambrósio, Maciel Salu, Comadre Fulozinha e Chão e Chinelo botavam todo mundo pra dançar. Era uma alternativa para quem curtia um arrasta pé raiz e torcia o nariz para o Forró Cearense que dominava as rádios.

Foi também nos anos 90 que o produtor musical Pupillo lançou Baião de Viramundo, um disco em homenagem a Luiz Gonzaga com releituras de convidados que iam de Black Alien ao Sheik Tosado, interpretando os clássicos do rei do baião.

Ah, e não posso esquecer das contribuições sudestinas para o Forró nessa década com o Falamansa e Forroçacana.

Nos dias de hoje, estamos muito bem servidos de representantes para levar o Forró e a cultura popular adiante. Temos Mariana Aydar, Mestrinho, Laís Sena, Juliana Linhares. De vez em quando Marcelo Jeneci e Chico César também se aventuram pelo ritmo, sem falar de Seu Gilberto Gil, que nunca abandonou as raízes nordestinas e adora um forrozinho. Ah, e tem o Mestre Ambrósio, que depois de uma pausa, voltou com tudo e lançou música nova por esses dias.

Tá tudo na playlist que montei para tu curtir enquanto lê esse texto.

As festas do ciclo junino também cresceram muito e faz tempo que Caruaru e Campina Grande brigam pelo título de “maior São João do mundo”. Até aí, tudo bem, quem ganha é o público com essa disputa, pois as festas estão durando mais de mês.

O problema, é que cada vez mais artistas e gêneros musicais que não tem nada a ver com o ciclo junino tomam de assalto esses palcos. É o caso da atual música sertaneja, artistas do Axé e outros ritmos que invadiram as festividades e tem dividido opiniões.

Os artistas do Forró tradicional se queixam do pouco espaço que tem nas festas. Uma reclamação justa, afinal de contas, São João sem um bom arrasta pé não é São João.

Ao mesmo tempo, marcas e patrocinadores das festas querem resultados nos investimentos feitos e enfiam goela à baixo artistas que estão no topo das plataformas digitais, mas que não tem ligação com o ciclo junino.

Já tem artista até revendo a rota depois de reclamações do público. É o caso de Xand Avião, que durante um tempo flertou com o sertanejo e agora está em turnê com um show todo dedicado ao Forró que, diga-se de passagem, vem sendo super elogiado.

Para outros artistas que não tem essa ligação com as festividades é apenas mais uma apresentação e não há porque mudar o repertório para celebrar o São João.

De fato, há uma preocupação geral que a tradição e a cultura popular se percam nesses tempos em que os números falam mais do que a arte, e é necessário saber dosar as coisas para que a festa do povo continue animando e principalmente, ensinando as novas gerações. Só assim a nossa cultua permanecerá viva.

Termino esse texto lembrando das palavras que a da Banda de pífanos Zé do Estado me disse quando os entrevistei depois da apresentação que fizeram no Rock in Rio de 2017.

“Os jovens de Caruaru agora só querem saber de outros ritmos e não olham mais para nossa cultura, por isso, é importante a gente se apresentar nesse palco pra mostrar que o pífano também é moderno e é com ele que chegamos até aqui. Tenho certeza de que estamos inspirando essa meninada”.

Que assim seja.

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Chinaina

Cantor, compositor, apresentador, escritor e produtor musical. Olindense, Chinaina foi projetado nacionalmente pela sua 1ª banda, Sheik Tosado. Com mais de 2 décadas de carreira consolidada, o artista está à frente da Banda Del Rey, além do projeto infantil Mini Jóia. Desde 2016 está no Multishow, comentando os maiores festivais de música do Brasil, no CanalBis com o Rock Estúdio e no Canal Futura, apresentando o Caça Joia.

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