Novabrasil
Julianna Sá: “Para De Curtir e vem escutar Bruna Alimonda e seu ‘Estado Febril'”
Julianna Sá
Jornalista, curadora e pesquisadora musical
Julianna Sá: “Para De Curtir e vem escutar Bruna Alimonda e seu ‘Estado Febril'”
Disco de estreia da cantora e compositora pernambucana domina figuras de linguagem contemporâneas enquanto evoca o melhor do brega-pop e romântico brasileiro
Esperteza melódica e sagacidade na caneta, ambos atuando em favor do desejo. É assim que opera Bruna Alimonda em “Estado Febril”, seu primeiro álbum, que acaba de sair pela YB.
Destaque do grupo paulistano Abacaxepa, a cantora e compositora pernambucana acaba de colocar no mundo sua estreia solo, e o faz de maneira quente e cheia de dramaticidade, como sugere o título.
Às vezes apoiada em humor, às vezes em versos que estão à altura do panteão de compositores e compositoras pernambucanos – um dos berços da beleza romântica da música popular brasileira -, a artista constrói um arco passional do que se convencionou chamar de sofrência, indo do brega-pop contemporâneo até o mais enraizado, nos quais os guias centrais são os versos entoados pela exata interpretação vocal de Bruna, capaz de lançar risos ou apertos no peito em igual medida, e com igual desenvoltura.
“Estado febril” começa como num flerte típico: com ótimo domínio de um humor próprio do contemporâneo, o disco vai nos levando no riso até que nos damos conta da paixão sorrateira. Seja no brega chamegado com refrão memístico de “Fundo do poço”, que evoca o popular “pra me derrubar você vai ter que me levantar primeiro”, ou na libidinosa “Para de me curtir e me ama”, o disco percorre com consistência referências contemporâneas mais leves até versos sensíveis e densos com a mesma envergadura sonora.
O humor e o amor são tempero base do álbum, como se ouve em “Cebola”. Versos como “eu to cortando cebola pra não chorar só por você” surgem despretensiosos, sem que as mágoas cantadas soem menos doídas ou verdadeiras. Ao passo que apresenta elementos bem humorados que entrecortam o álbum, e alegorias plenamente divertidas, Bruna não perde de vista o desejo e a paixão como elementos melódicos, fios que conduzem o trabalho de nove composições, das quais oito são assinadas por ela – solo ou em parceria -, exceção de “Véu da solidão” (de Luiza Raboni, parceira de Bruna também em canção gravada pela Abacaxepa).
A artista conduz seu álbum de estreia com graça inusitada ainda pelas curiosas “Janta e põe a mesa” e “Para de me curtir e me ama”, com os mais atuais versos da MPB contemporânea.
Até que a intensidade romântica rouba a cena a partir de “Me beija na rua”, uma das mais bonitas canções lançadas neste primeiro semestre de 2024. Entre cordas e uma melodia irresistível, capaz de conduzir por si só o ouvinte numa dança lenta, a composição desenha a
rota percorrida pela artista, e naturalmente por seu disco, entre o alto de um prédio na Paulista e o meio do carnaval no Marco-Zero, entre a Augusta ou a Mooca, e a Praia de Gaibu. Símbolos corriqueiros, e por isso mesmo grandiosos, como os beijos pedidos na canção.
Chega-se, então, à faixa-título, algo entre uma explicação e uma ode dançante ao “sentir demais”. Um estado febril que se percebe nos quadris. E como um corpo quente não pára sossegado, Bruna embala mais uma dança de passos demorados em “Bem amado” – amor que se sente subir pelas pernas.
O caminho sonoro entre Nordeste e Sudeste é sublinhado na saída, na única composição não assinada por Bruna. Ali, entre versos de negação ao amor e de uma despedida e algum tom de vingança, a produção cria algo que poderia ser entendido como um quadradinho de oito com a cabeça encostada no ombrinho do outro – uma imagem tão improvável quanto os versos que afirmam “eu vou te esquecer”.
Com trabalho poético vigoroso, e suingue popular-romântico, “Estado Febril” afirma Bruna como um dos destaques da prolífica produção contemporânea – não só de Pernambuco, mas certamente de lá.
Outros fervos amorosos pra curtir na seqüência:
Juliana Linhares Impossível falar de intensidade e humor conjugados na mesma canção sem pensar na potiguar Juliana Linhares. “Lambada da lambida”, parceria dela com Chico César, é ótimo exemplo pra dançar o desejo.
Martins
Difícil escapar do pernambucano em 2024, seja em sua safra autoral ou em ótimas releituras como a recém-lançada e irresistível “Na Paz”, composição de Orlando Morais que Martins reinventa com beleza única, em produção sempre surpreendente da dupla Barro e Guilherme Assis – que entre outros trabalhos, assina a produção do álbum de estreia de Rachel Reis.
Barro
Falando em Barro, se for pra cantar o desejo, o novo disco do pernambucano percorre com a boca os diferentes sentimentos carnais. Em “Língua”, seu quarto – e diria que melhor – álbum de estúdio, o cantor, compositor e produtor musical vai do flerte ao romance, passando pela quentíssima “Me ter”, em feat. com Marley no Beat.
Joyce Alane
Veja também:
O desejo em sua forma fragilizada. “Tudo é minha culpa”, o disco de estreia de Joyce Alane – que chegou a mim com seus reels sagazes, numa dica do querido Dan Mendes em meados de 2023 -, traz a cantora e compositora em sua forma mais exposta. Ótimo começo pra quem já chega referenciada por ninguém menos que João Gomes.
Ivyson
Outro pernambucano que vem enfileirando hit atrás de hit, Ivyson acaba de lançar “Afinco”, álbum que abre simplesmente com uma canção batizada “Amar até morrer”. Melancolia pop em divisões silábicas inconfundíveis. Canção brasileira bem feita, em produção eletrônica elegante.
Alessandra Leão
Referência central para Bruna Alimonda, e referência ainda maior da música pernambucana contemporânea, Alessandra Leão teve o axé como tema central de seus trabalhos mais recentes. Mas como estamos falando de desejo, volto ao EP que ela lançou em 2014, com a sedutora “Tatuzinho”, que começa na mão e morre – de desejo – na boca.
PING PONG
1. “Estado febril” tem esse jogo entre a piada mais humor 2024 e a poética mais romance setentista banhado no brega. Como você sente essa comunhão?
Eu sinto exatamente isso, eu super a favor das piadas, sou uma grande piada (risos). Mas é verdade, essa coisa do teatro, da palhaçaria, do humor sempre me pegou. Eu gosto muito de tirar onda das coisas, principalmente das coisas mais difíceis, mais doídas. Então essa ironia, esse sarcasmo com os sentimentos tá sempre presente, mesmo. E o brega das antigas é uma grande referência pra mim, inclusive foi a primeira coisa que eu fui ouvir na pesquisa do disco. Pra criar o disco eu fiz uma playlist desses bregas antigos mesmo, até mais que o que você citou, indo lá nos anos 60 mesmo. Então essa comunhão realmente existe, tem essa brincadeira desse humor atual com esse “super over” drama dos bregas antigos.
2. As referências sonoras soam predominantemente pernambucanas, mas há algo paulistano que permeia as canções. Os produtores do disco – o paulistano Ivan Gomes e o pernambucano Arquétipo Rafa – poderiam ser uma resposta mais rápida, mas o que você diria sobre essa costura?
Cê ouviu São Paulo? Tem nada não! Brincadeira, tem sim, eu adoro São Paulo, e claro, acho que os dois estados aparecem no disco nesse jogo do estado febril, que é um estado físico, mas também geográfico. São os dois lugares entre os quais me divido há nove anos. Não à toa os dois produtores contemplam isso, como você comentou. Eu sentia falta de pertencimento nos dois lugares, sentia uma saudade enorme de Recife, de Pernambuco, ao mesmo tempo em que sentia um não pertencimento gigante na cena paulistana. Então musicalmente, os sons de Pernambuco estão muito evidentes, e sinto que de São Paulo o que trago ali é a velocidade mesmo das coisas, é um pulo, um salto, um mergulho ao falar sobre as coisas. E claro, a minha experiência com a Abacaxepa, esse coletivo paulistano que eu faço parte, e que com certeza me influenciou muito.
3. A poética do disco me fez pensar em algo como Ângela Rorô encontra Reginaldo Rossi no TikTok. Essas referências encontram algum eco por aí?
Perfeito, você resumiu a minha pandemia, que foi quando escrevi esse disco. Eu estava sobrecarregada de informações virtuais, Instagram, Tiktok, mas ao mesmo tempo ouvindo muito essas referências sonoras, inclusive Reginaldo Rossi e Angela Roro eu ouvi muito. São referências enormes pra mim. Essa coisa do humor e da velocidade, do frenesi, vem nessa perspectiva do TikTok, né? Eu tento trazer isso mesmo no disco, essa graça, esse humor, e acho que me deu essa vontade mesmo de tirar essa onda junto do drama. Agora, Reginaldo Rossi e Angela Roro foi perfeito, inclusive eu pagaria milhões pra ver esse feat.
4. Se fosse representar o “Estado febril” em um meme, qual seria?

O brega tem isso, né? O “respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada”. O disco é isso!
Lupi diz que é preciso coragem para mexer com privilégios da previdência e cita militares e Judiciário
Ilan Brenman é o novo colunista da Novabrasil
Julianna Sá
Ela mexe com música, e deixa a música mexer com ela. Jornalista, curadora, pesquisadora musical, a&r de selo independente, ex-eterna radialista e curiosa incurável (ou só alguém com lua e sol em sagitário), esmiúça a música brasileira contemporânea de perto.


