Belchior e Alucinação: Completando 75 e 45 anos de história

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14:00 26.10.2021
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Belchior e Alucinação: Completando 75 e 45 anos de história

Hoje, 26 de outubro, é uma data muito importante para a música popular brasileira. Seria o aniversário de um de seus mais importantes representantes: o eterno Belchior. O cantor, compositor, produtor, instrumentista, artista plástico e professor cearense brincava – apropriando-se dos sobrenomes do seu pai e da sua mãe – que seu nome completo era … Continued

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- 26.10.2021 - 14:00
Belchior e Alucinação: Completando 75 e 45 anos de história
Belchior e Alucinação: Completando 75 e 45 anos de história

Hoje, 26 de outubro, é uma data muito importante para a música popular brasileira. Seria o aniversário de um de seus mais importantes representantes: o eterno Belchior.

O cantor, compositor, produtor, instrumentista, artista plástico e professor cearense brincava – apropriando-se dos sobrenomes do seu pai e da sua mãe – que seu nome completo era Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, “o maior nome da MPB”. Mas ele não precisava disso: apenas como Belchior, já é um dos maiores nomes da nossa música.

O poeta e estudioso da palavra que nos deixou em 2017, estaria fazendo hoje 75 anos. E, aproveitando a data, resolvemos também celebrar os 45 anos de lançamento do seu mais importante disco: Alucinação.

Capa do disco Alucinação de Belchior
Capa do disco “Alucinação”

Lançado em 1976, quando ele tinha 30 anos de idade, Alucinação é o segundo álbum da sua carreira e foi responsável por lançar Belchior ao estrelato e dar a ele reconhecimento nacional.

Produzido por Marco Mazzola, que dizia considerar Belchior o Bob Dylan brasileiro, o disco vendeu 30 mil cópias em apenas um mês e mais de 500 mil cópias no total, consagrando Belchior como um ídolo de massa.

Mesmo após vários anos de seu lançamento, Alucinação ainda ecoa várias canções por rádios, shows e regravações em todas as partes do Brasil (este ano, Ana Cañas lançou um álbum inteiro dedicado à obra de Belchior e, em 2019, o sample que Emicida fez com Sujeito de Sorte em AmarElo, foi uma das canções mais impactantes do ano).

Considerado um dos mais importantes e revolucionários discos da história da música brasileira, uma verdadeira obra prima, Alucinação contém canções que exprimem a urgência e a inquietude do jovem brasileiro da época, entre a violência do estado e o fim dos sonhos de liberdade, com a Ditadura Militar em pleno vapor.

As composições trazem temas filosóficos, geracionais e humanos, em uma obra de forte caráter crítico, político e poético, como tudo o que Belchior fazia. A sólida base sonora do álbum transita entre o blues, o country, o baião, o folk e o rock’n roll, mostrando que as influências de Belchior transitam brilhantemente de Luiz Gonzaga aos Beatles.

Josely Teixeira Carlos, radialista, professora e pesquisadora da USP, diz que “esse disco resume o sentimento de toda uma geração brasileira, interiorana no meio da cidade grande.”.

Ela ressalta várias referências que o poeta imprimia em suas composições, como conflitos geracionais e ideológicos, filosofia, a relação entre o regional e o nacional no Brasil, as questões migratórias entre o campo e a cidade, a relação do homem com a religião e o papel do jovem e do povo brasileiro em um cenário mais amplo da América Latina.

O disco traz 10 faixas, todas composições solo de Belchior, que costumava compor bastante sozinho e, por isso, imprimia tão fortemente sua personalidade e suas sensações nas letras cantadas em primeira pessoa.

Entre os imensos sucessos do disco, está a faixa-título, Alucinação, sobre a qual Belchior explicou certa vez em uma entrevista: “Viver é mais importante que pensar sobre a vida. É uma forma de delírio absoluto, entende?”.

Nela, Belchior traz um retrato cruel das grandes metrópoles brasileiras, com versos de quem passou por maus bocados no início de carreira numa cidade grande, quando veio junto com o Pessoal do Ceará (Fagner, Amelinha, Fausto Nilo…) tentar a vida artística no sudeste do país.

Em sua composição, Belchior já mostrava – naquela época – quem eram (e ainda são) os principais alvos da violência cruel e iminente no país: as pessoas que vivem à margem de uma sociedade machista, racista, xenofóbica e excludente – “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”.

A canção termina com uma das mais belas frases do cancioneiro popular brasileiro, em que ele diz que – apesar de vivermos tempos difíceis – o amor ainda é capaz de nos salvar: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”.

Outra canção que fala sobre o seu início de carreira vindo do interior, é um dos maiores sucessos da carreira de Belchior e responsável por abrir o disco: Apenas Um Rapaz Latino-americano, em que o artista conta sobre as dificuldades de se fazer arte em tempos duros de repressão e Ditadura Militar e diz que tudo já não é tão “divino e maravilhoso” como dizia a canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil, lá de 1968, quando a Tropicália já criticava o regime militar e nos lembrava que era preciso estarmos atentos e fortes.

Veja também:

A segunda e a terceira faixas do disco, Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais, haviam sido gravadas por Elis Regina no mesmo ano, em seu disco Falso Brilhante, e estouraram em sua voz, como tudo o que Elis gravava. A gaúcha foi muito importante para que o Brasil conhecesse de vez o grande Belchior, mas as composições de Bel também foram responsáveis por projetar ainda mais a carreira já consagrada de uma das maiores cantoras do Brasil.

As duas canções falam – nunca deixando de lado o cenário de repressão e censura – sobre conflitos e também congruências de gerações. De jovens e antigos, de velhos e novos, de pais e filhos. Que tudo o que é jovem um dia vira antigo e que precisamos todos rejuvenescer e mudar o tempo todo, perante o que já não nos interessa mais.

Como Nossos Pais é um dos maiores clássicos da MPB de todos os tempos e ocupa a posição 43 entre As 100 Maiores Músicas Brasileiras pela Rolling Stone Brasil.

Logo em seguida, vem Sujeito de Sorte, nos trazendo uma dose de realidade e também de esperança, de que todo o sangue e sofrimento vão passar em um futuro breve.

Como o Diabo Gosta é mais um hino de libertação, que nos leva a desprender do que não nos pertence e fazer o que acreditamos, seguindo a nossa verdade e não o que nos é imposto. Um enfrentamento direto à ditadura, à censura e à repressão.

Em Não Leve Flores, Belchior apresenta suas ferramentas para a liberdade – as palavras e os sons: “A voz resiste, a fala insiste, você me ouvirá / A voz resiste, a fala insiste, quem viver verá”.

Já em A Palo Seco – que teve seu nome inspirado em um poema de João Cabral de Melo Neto – Belchior faz seu canto torto, seco, direto, sem rodeios – feito faca – cortar a nossa carne e penetrar a nossa alma, bem no fundo, sem nunca nos deixar anestesiar.

Depois vem a super autoral Fotografia 3×4, que também mostra as angústias e sofrimentos que carrega uma pessoa que migra do norte para o sul do Brasil, mas que – mesmo vivendo assim, desnorteado, desapontado – não se esquece de amar, de se apaixonar. E que termina validando a identificação que muitos sentem com sua história: “Eu sou como você”.

O disco encerra com Antes do Fim: desejando amor, evocando esperança e chamando a atenção para algo que permeia todo o disco: que a gente aprenda com coisas reais.

E não com alucinações. Alucinação é suportar o dia a dia: “Viver é que é o grande perigo”.

Simplesmente atual e revolucionário.

Os dois: Belchior e Alucinação. Completando 75 e 45 anos de história. E sendo trilha sonora da nossa história.

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