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Renan Quinalha: “A música brasileira no combate aos preconceitos”
Renan Quinalha
Escritor, advogado e professor
Renan Quinalha: “A música brasileira no combate aos preconceitos”
Exemplo é Ney Matogrosso nos palcos num verdadeiro manifesto pela liberdade sexual e de gênero
A música brasileira é conhecida, internacionalmente, como uma das mais inventivas e criativas em todo o mundo. Para além de inovações sobre ritmo e forma musicais, nossos/as artistas são conhecidos por promoverem verdadeiras revoluções culturais em nossa sociedade.
Como falar de liberdades sem mencionar o papel de compositores e cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil durante a ditadura? Não apenas pelas letras de protestos que afrontavam abertamente a ordem política do regime autoritário, mas também pelas posturas públicas de questionamento dos valores dominantes.
Ao colocar em xeque a moral conservadora vigente à época, de diferentes modos, artistas ajudaram a promover um mundo mais livre de preconceitos. Exemplos dos mais conhecidos disso são Ney Matogrosso e Dzi Croquettes, que performaram nos palcos um verdadeiro manifesto pela liberdade sexual e de gênero.
Muitas vezes, tais artistas tinham consciência do que representavam e optavam por levantar bandeiras. Em outras, a contestação era menos intencional e mais sutil, mas não deixava de ser notada pela sociedade e pela censura.
Por ser um espaço privilegiado de experimentação e de renovação dos comportamentos, a música tornou-se um dos principais alvos dos censores, que vetaram letras e proibiam lançamentos e shows.
Para uma visão ampla da censura, segundo Zuenir Ventura, nos dez anos de vigência do AI-5, foram censurados “cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, 100 revistas, mais de 500 letras de música e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovelas”1.
Apesar de todas essas violências estatais contra a liberdade artística, muitos cantores e compositores seguiram engajados e buscando, dentro dos limites da realidade existente, contribuir para a redemocratização do país em todos os sentidos desta palavra.
Nota-se, assim, que a cultura sempre teve um papel fundamental na construção da sociedade que almejamos. Um sociedade livre de preconceitos e de discriminação é um projeto que está inscrito na nossa Constituição Federal de 1988 e que é um dever de todos nós.
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Mesmo no período democrático pós-1985, vem crescendo a quantidade de artistas que apresentam e representam novas maneiras de pensar e viver o gênero e a sexualidade.
Chamada por alguns de MPBicha (uma brincadeira com a sigla tradicional MPB – Música Popular Brasileira), ficam cada vez mais conhecidas as atuações de artistas LGBTQIA+ de diferentes gerações como Pablo Vittar, Gloria Groove, Johnny Hooker, Filipe Catto, Banda Uó, Marina Lima, Angela Ro Ro, Gal Costa, Almério dentre outros e outras.
Por mais que as tentativas de silenciamento e censura tenham sempre estado presentes, essa tradição libertária da nossa música tem mostrado sua persistência e seu valor, tanto pela qualidade da música que produz quanto pelo seu papel mais amplo no nosso imaginário.
Ao vermos e ouvirmos nas telas, nas rádios e nos palcos artistas que encarnam a diversidade de nossas identidades, ficamos inspirados para sermos quem somos e para amar quem amamos.
A representatividade é fundamental para alcançarmos a igualdade e a cidadania plenas. Esse é um dever de todas e todos nós e a música pode nos ajudar – como tem ajudado – muito.
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Renan Quinalha
Homem, gay, 38 anos. É paulistano, escritor, advogado e professor de direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde também coordena o Núcleo TransUnifesp. Entre outros, é autor dos livros Contra a Moral e os Bons Costumes: a ditadura e a repressão contra a comunidade LGBT (Companhia das Letras, 2021) e Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias (Autêntica, 2022), que foi vencedor do Prêmio Cidadania e Diversidade da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo e finalista do Prêmio Jabuti em 2023. Em junho de 2024, está lançando Direitos LGBTI+ no Brasil: novos rumos da proteção jurídica (Edições SESC, 2024). É editor e colunista da seção Livros e Livres, dedicada à Literatura LGBTI+ na Revista 451 e Presidente do Grupo de Trabalho de Memória e Verdade LGBTQIA+ do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania.



