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Viva, Cazuza: vida e obra
Viva, Cazuza: vida e obra
Se ainda estivesse vivo, Cazuza estaria completando 65 anos neste 04 de abril de 2023. O cantor, poeta e compositor carioca teve uma importância imensa para a nossa história e é um dos maiores nomes da música popular brasileira de todos os tempos. Por isso, nós preparamos uma série com três matérias especiais para homenageá-lo, … Continued
Se ainda estivesse vivo, Cazuza estaria completando 65 anos neste 04 de abril de 2023.
O cantor, poeta e compositor carioca teve uma importância imensa para a nossa história e é um dos maiores nomes da música popular brasileira de todos os tempos.
Por isso, nós preparamos uma série com três matérias especiais para homenageá-lo, que sairão nos próximos dias, para vocês fazerem um passeio pela vida e obra de Cazuza.
Aproveitem!

O apelido Cazuza
Nascido Agenor de Miranda Araújo Neto, Cazuza era filho do produtor musical João Araújo – fundador da gravadora Som Livre – e sempre viveu em um ambiente muito musical. Sua mãe, Lucinha Araújo, teve uma breve carreira como cantora e chegou a lançar dois discos.
O apelido Cazuza foi dado antes mesmo do seu nascimento. Quando Lucinha engravidou, todos achavam que ela teria uma menina, já que só haviam mulheres na sua família materna. Seu pai João, sempre que falavam sobre isso, respondia de prontidão: “Imagina, Lucinha terá um cazuza!”, palavra que significa “moleque” em algumas regiões do Nordeste.
Quando cresceu um pouco, o menino Cazuza tinha até dificuldade de atender seu nome na chamada da escola, por esquecer que se chamava Agenor (nome escolhido por insistência de sua avó paterna). Ele só começou a aceitar bem o próprio nome, quando descobriu que um dos seus músicos prediletos, Cartola, se chamava Angenor (era pra ser Agenor, mas ganhou um N a mais por confusão do cartório!).
Antes da fama
Antes de tornar-se um cantor e compositor de sucesso, Cazuza chegou a estudar Comunicação Social, trabalhou na Som Livre, gravadora fundada por seu pai, e também fez parte da companhia teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, que revelou outros artistas como Regina Casé, Evandro Mesquita e Luís Fernando Guimarães. Foi lá que Cazuza cantou em público pela primeira vez.
O início da carreira no Barão Vermelho e a parceria com Frejat
Dono de uma genialidade impressionante com as palavras e de uma voz e habilidade vocal inconfundíveis, Cazuza sempre foi um artista irreverente e cheio de personalidade. Sua vasta obra fala sobre as inquietações de uma geração e transcende o tempo.
Ele começou sua carreira em 1981, como vocalista do Barão Vermelho, uma das maiores bandas de rock do Brasil, responsável por popularizar o gênero no país durante a década de 80. Ao lado de Roberto Frejat, na época guitarrista do grupo, Cazuza compôs os maiores sucessos da banda e fez uma parceria e amizade que durou até os últimos dias de sua vida. Se chamavam carinhosamente de “Brow” e “Cazu”.
Em 1981, a banda já contava com o baterista Guto Goffi, o tecladista Maurício Barros, o baixista André Palmeira (o Dé), e o guitarrista Frejat, mas ainda não tinha vocalista. Foi então que eles convidaram Leo Jaime para o posto.
Como Leo já tinha outras bandas, ele recusou o convite, mas foi a um ensaio do Barão Vermelho para entender quem ele poderia indicar para o posto. O cantor entendeu também que tinha a voz muito suave para o som da banda, e então indicou seu amigo Cazuza, que considerava bom de grito (com sua voz rasgada e potente) e de rock’n roll.
Cazuza fazia teatro e já escrevia e cantava muito bem. Fã de música brasileira e rock`n roll, escutava de Lupicínio Rodrigues, Cartola, Caetano Veloso e Gilberto Gil a Joe Cocker e Janis Joplin. No primeiro ensaio com Cazuza, a banda entendeu que estava completa!
Antes do primeiro disco do Barão
O primeiro show do Barão Vermelho aconteceu em novembro de 1981. No ano seguinte, eles gravaram uma fita demo, que foi parar nas mãos do empresário Leonardo Netto, e a banda foi chamada para abrir um show de Sandra de Sá. Netto ficou impressionado com o som do Barão e mostrou a fita para o experiente produtor Ezequiel Neves, assistente do diretor Guto Graça Mello, na gravadora Som Livre.
Sobre a fita, Ezequiel descreve em um texto, divulgado no documentário Barão Vermelho – Por que a gente é assim?, de 2017:
Com o volume no máximo do escândalo, eu estou ouvindo uma fita transcendental. É coisa doméstica, gravada com um microfone só, mas que arroja uma torrente de adrenalina capaz de pulverizar quarteirões. É rock puro, escrachado e demencial. Imperfeito e carnívoro. Trombetas selvagens anunciando o começo de um novo mundo. A fita é de um grupo recém nascido, Barão Vermelho, e é a voz de Cazuza cuspindo fogo em doses avassaladoras. Minha vontade era pegar essa fita e tirar milhões de cópias. Pra mim, ela está prontinha, tal e qual todos os discos que os Rolling Stones gravaram. Não tenho e nem nunca tive certeza de nada, mas aposto neles de coração aberto. Querem apenas tocar rock e seguir em frente. Mas é justamente por quererem apenas isso, que transcendem as teorias caducas e instalam a sua verdade através de vozes e de guitarras incendiárias. Finalmente posso respirar: uma nova geração está com tudo para destruir as velhas gerações, da qual eu faço parte.
Juntos, Ezequiel e Guto lançaram a banda. Mas demorou para eles convencerem João Araújo, pai de Cazuza e dono da gravadora Som Livre, de que deveriam gravar o primeiro disco da banda. João ainda não conhecia a genialidade de Cazuza profundamente!
O primeiro disco, Caetano Veloso e a aprovação de João Araújo
O primeiro disco do Barão Vermelho, homônimo, foi lançado ainda em 1982. Cazuza era o mais velho da banda – tinha 24 anos – quando o álbum foi lançado. Dé, o mais jovem, tinha apenas 17. Ezequiel Neves tornou-se grande amigo e guru dos meninos, e participava de todos os processos de gravações, shows e turnês.
Das músicas mais importantes do primeiro disco, destacam-se: Down em Mim (composição solo de Cazuza) e Todo Amor Que Houver Nessa Vida (parceria de Cazuza e Frejat), uma das mais belas músicas já escritas na história da MPB.
Tanto que, a banda iniciou a turnê nacional de lançamento do disco e foi se apresentar em São Paulo, quando Caetano Veloso – que estava na plateia – ficou encantado pela música e pediu para que os meninos do Barão lhe ensinassem a canção para que ele a apresentasse em seus shows.
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Caetano passou a noite estudando a canção e a apresentou no show que fez no Canecão no dia seguinte. A plateia veio abaixo e Caetano falou que a música era de Cazuza e Frejat. João Araújo, que estava na plateia com Lucinha, ficou impressionado e muito emocionado. Ali ele entendeu a explosão que era seu filho.
Ney Matogrosso, a projeção nacional e o segundo disco
A notícia de Caetano Veloso cantando a música de Cazuza e Frejat repercutiu nos jornais da época e o Brasil inteiro também entendeu a dimensão do Barão Vermelho.
O disco Barão Vermelho 2 foi lançado em 1983 e trouxe o imenso sucesso: Pro Dia Nascer Feliz – mais uma parceria de Cazuza e Frejat – mas o som da banda ainda não tocava nas rádios. Foi quando o já consagrado Ney Matogrosso foi assistir a um show dos meninos no Rio de Janeiro e ficou impressionado.
Ney falou para Ezequiel Neves: “Bota essa molecada na minha mão, que eu vou botar pra quebrar com eles!”.
Foi então que Ney Matogrosso gravou Pro Dia Nascer Feliz no mesmo ano, em seu disco Pois É, fazendo com que o Barão Vermelho estourasse de vez para o público, a crítica e também nas rádios de todo o Brasil.
Bete Balanço e o terceiro disco
A repercussão foi tanta, que a banda foi convidada para compor a trilha sonora do filme Bete Balanço, de Lael Rodrigues, em 1984, e o seu som se espalhou ainda mais pelo Brasil, tornando-se a canção um dos maiores sucessos da história do Barão.
Neste mesmo ano, o grupo lançou o terceiro disco, Maior Abandonado, conseguindo vender mais de 100 mil cópias em apenas seis meses e conquistando disco de ouro.
Com os grandes hits da música-título e Bete Balanço (ambas de Cazuza e Frejat), além de Por que a gente é assim? (de Cazuza, Frejat e Ezequiel Neves), o álbum é considerado o melhor da banda, tanto pela crítica especializada como pelo público. Além disso, o disco também conta com o grande sucesso Nós, primeira música que Cazuza e Frejat escreveram juntos.
O Barão Vermelho ajudou a construir a cena de rock brasileira e Cazuza o jeito de cantar rock em português. Como continua dizendo Ezequiel Neves no documentário:
Os versos de Cazuza reinventam o português de forma telegráfica, sem literatices. Ridícula herança de antepassados, que fazem de qualquer canção um cemitério de metáforas e circunlóquios vazios. Seu recado possui a urgência das cusparadas, lâminas afiadíssimas retalhando o instante de solidão ou amor total. Tudo articulado com a luminosidade dos relâmpagos. Cazuza traduz genialmente qualquer estado de espírito. Nos faz lembrar que qualquer segundo pode conter uma overdose de apocalipse.
Rock in Rio e a saída do Barão Vermelho
Em 1985, o Barão Vermelho se apresentou com sucesso na histórica primeira edição do Rock in Rio, um dos maiores festivais musicais do mundo. O show terminou com o hit Pro Dia Nascer Feliz. Antes de cantar a canção final, Cazuza disse:
Que o dia nasça lindo para todo mundo amanhã. Um Brasil novo, com uma rapaziada esperta.
Naquele 15 de janeiro de 1985, tinha acontecido a eleição (ainda indireta) do primeiro presidente civil depois de mais de 20 anos de governo militar, Tancredo Neves, que acabou não assumindo pois faleceu em abril do mesmo ano.
No auge da banda, em julho de 1985, durante os ensaios para o próximo álbum, Cazuza resolveu deixar o Barão para seguir carreira solo. Ele anunciou para os parceiros de banda que achava que muita coisa do trabalho dele já não cabia mais em uma banda de rock. Frejat, Dé, Maurício e Guto ficaram desolados, mas decidiram continuar com o grupo.
O Barão Vermelho permanece na ativa até hoje – com alguns hiatos e pausas – e contou com Frejat nos vocais até 2017, quando ele anunciou sua saída definitiva para dedicar-se apenas à carreira solo, que já levava em paralelo desde 2001.
Hoje, da formação original, ainda permanecem na banda Guto Goffi e Maurício Barros. Caso você queira escutar a áudio-biografia completa do Barão Vermelho, escute o Acervo MPB Especial da banda, um podcast original da Novabrasil.
Continue ligado no site da Novabrasil para acompanhar as outras duas partes da trajetória de Cazuza. Spoiler: tem até playlist especial, está imperdível!


