Dia Nacional de Lutas Estudantis e a canção Coração de Estudante

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09:30 28.03.2023
Música

Dia Nacional de Lutas Estudantis e a canção Coração de Estudante

Há exatos 55 anos, o estudante brasileiro Edson Luís de Lima Souto foi morto por policiais militares em um protesto estudantil. Foi por isso que 28 de março ficou simbolicamente conhecido como o Dia Nacional de Lutas Estudantis. O assassinato de Edson marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra a Ditadura … Continued

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- 28.03.2023 - 09:30
Dia Nacional de Lutas Estudantis e a canção Coração de Estudante
No Dia Nacional de Lutas Estudantis, conheça a história da música Coração de Estudante. | Foto: Reprodução.

Há exatos 55 anos, o estudante brasileiro Edson Luís de Lima Souto foi morto por policiais militares em um protesto estudantil. Foi por isso que 28 de março ficou simbolicamente conhecido como o Dia Nacional de Lutas Estudantis.

O assassinato de Edson marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra a Ditadura Militar, que endureceu até que fosse decretado o chamado Ato Institucional n.º 5 (AI-5), fase mais dura do regime militar, em 13 de dezembro de 1968.

No Dia Nacional de Lutas Estudantis, conheça a história da música Coração de Estudante
No Dia Nacional de Lutas Estudantis, conheça a história da música Coração de Estudante. | Foto: Reprodução.

História e luta de Edson Luís

Nascido em uma família pobre, Edson iniciou os estudos na Escola Estadual Augusto Meira, em Belém, no Pará. Mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer o segundo grau no Instituto Cooperativo de Ensino, no qual funcionava o restaurante Calabouço ou Restaurante Central dos Estudantes.

Em 28 de março de 1968, os estudantes do Rio de Janeiro estavam organizando uma passeata-relâmpago para protestar contra a alta do preço da comida no restaurante, que deveria acontecer no final da tarde do mesmo dia. Por volta das 18 horas, a Polícia Militar chegou ao local e dispersou os estudantes que estavam na frente do complexo. 

Os estudantes se abrigaram dentro do restaurante e os policiais começaram a atirar contra o local, provocando pânico entre os estudantes, que fugiram. Os policiais invadiram o restaurante e, durante a invasão, o comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo, atirou e matou Edson Luís com um tiro no peito.

Temendo que a PM sumisse com o corpo, os estudantes não permitiram que ele fosse levado para o Instituto Médico Legal (IML), mas o carregaram em passeata diretamente para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde foi velado. A autópsia foi feita no próprio local.

Outras seis pessoas ficaram feridas no ataque policial a tiros contra os estudantes e uma delas, Benedito Frazão Dutra, foi levada ao hospital e também não resistiu.

No período que se estendeu do velório até a missa da Igreja da Candelária, realizada em 2 de abril, foram mobilizados protestos em todo o país. Em São Paulo, quatro mil estudantes fizeram uma manifestação na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Também foram realizadas manifestações no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP (Largo São Francisco), na Escola Politécnica da USP (POLI-USP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O Rio de Janeiro parou no dia do enterro. Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: A noite dos Generais, À Queima-Roupa e Coração de Luto. Centenas de cartazes foram colados na Cinelândia com frases como “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão” e “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?”. Edson foi enterrado ao som do Hino Nacional Brasileiro, cantado pela multidão.

A Missa

Na manhã de 4 de abril foi realizada uma missa na Igreja da Candelária em sua memória. Após o término da missa, os indivíduos que deixavam a igreja foram cercados e atacados pela cavalaria da polícia militar com golpes de sabre. Dezenas de pessoas ficaram feridas.

Outra missa seria realizada na noite do mesmo dia. O governo militar proibiu a realização dela, mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto, insistiu em realizá-la.

A missa foi celebrada com cerca de 600 pessoas. Temendo que o mesmo massacre da manhã se repetisse, os padres pediram que ninguém saísse da igreja. Do lado de fora havia três fileiras de soldados a cavalo, mais atrás estava o Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

Em um ato de coragem, os clérigos saíram na frente de mãos dadas, fazendo um “corredor” da porta da igreja até a avenida Rio Branco para que todos os que estavam na igreja pudessem sair com segurança. Apesar desse ato, a cavalaria aguardou que todos saíssem e os encurralaram nas ruas da Candelária. Novamente o saldo foi de dezenas de pessoas feridas.

A música Coração de Estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso

Inspirado na história de Edson Luís de Lima Souto, Milton Nascimento compôs a letra da canção Coração de Estudante, um clássico do cancioneiro popular brasileiro. Trazendo uma mensagem que reforça a esperança no poder da juventude, em particular nos jovens que possuem o conhecimento, Milton lançou a canção em seu disco Ao Vivo, de 1983.

A música é uma parceria com o amigo Wagner Tiso: a versão instrumental já havia sido lançada por Tiso para a trilha sonora do documentário Jango, filme lançado em 1984, que narra a trajetória política de João Goulart. Bituca, que se apaixonou pelo arranjo e melodia de Wagner e compôs a letra.

A canção também representou a vontade de liberdade cada vez maior do povo brasileiro e se tornou um hino que embalou parte da história política do Brasil, por ter sido escrita nos últimos anos do período da ditadura militar no país, inspirada em todos aqueles que lutavam pela democracia.

O artista escolheu o nome de uma flor típica de Minas Gerais, a terra que tão bem o acolheu, como título: Coração de Estudante.

Na época de seu  lançamento, a canção também foi tema do movimento Diretas Já, que buscava a queda da ditadura e a restauração da democracia no Brasil.

Letra de Coração de Estudante

Quero falar de uma coisa

Adivinha onde ela anda

Deve estar dentro do peito

Ou caminha pelo ar

Pode estar aqui do lado

Bem mais perto que pensamos

A folha da juventude

É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos

Desviaram seu destino

Seu sorriso de menino

Quantas vezes se escondeu

Mas renova-se a esperança

Veja também:

Nova aurora a cada dia

E há que se cuidar do broto

Pra que a vida nos dê flor e fruto

Coração de estudante

Há que se cuidar da vida

Há que se cuidar do mundo

Tomar conta da amizade

Alegria e muito sonho

Espalhados no caminho

Verdes planta e sentimento

Folhas, coração, juventude e fé

Menino

Antes de Coração de Estudante, Milton Nascimento já havia composto outra canção para Edson Luís: Menino, em parceria com Ronaldo Bastos, que entrou para o álbum Geraes, de 1976.

Confira a letra abaixo:

Letra de Menino

Quem cala sobre teu corpo

Consente na tua morte

Talhada a ferro e fogo

Nas profundezas do corte

Que a bala riscou no peito

Quem cala morre contigo

Mais morto que estás agora

Relógio no chão da praça

Batendo, avisando a hora

Que a raiva traçou no tempo

No incêndio repetindo

O brilho do teu cabelo

Quem grita vive contigo

O Dia Nacional de Lutas Estudantis

Em 28 de março de 2008, para lembrar os quarenta anos de sua morte, foi inaugurada uma estátua em homenagem a Edson Luís na Praça Ana Amélia, no centro do Rio de Janeiro.

Além disso, o trevo viário que liga o Aterro do Flamengo às avenidas General Justo e Presidente Antônio Carlos, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, passou a ser conhecido como Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto.

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