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Dia Nacional de Lutas Estudantis e a canção Coração de Estudante
Dia Nacional de Lutas Estudantis e a canção Coração de Estudante
Há exatos 55 anos, o estudante brasileiro Edson Luís de Lima Souto foi morto por policiais militares em um protesto estudantil. Foi por isso que 28 de março ficou simbolicamente conhecido como o Dia Nacional de Lutas Estudantis. O assassinato de Edson marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra a Ditadura … Continued
Há exatos 55 anos, o estudante brasileiro Edson Luís de Lima Souto foi morto por policiais militares em um protesto estudantil. Foi por isso que 28 de março ficou simbolicamente conhecido como o Dia Nacional de Lutas Estudantis.
O assassinato de Edson marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra a Ditadura Militar, que endureceu até que fosse decretado o chamado Ato Institucional n.º 5 (AI-5), fase mais dura do regime militar, em 13 de dezembro de 1968.

História e luta de Edson Luís
Nascido em uma família pobre, Edson iniciou os estudos na Escola Estadual Augusto Meira, em Belém, no Pará. Mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer o segundo grau no Instituto Cooperativo de Ensino, no qual funcionava o restaurante Calabouço ou Restaurante Central dos Estudantes.
Em 28 de março de 1968, os estudantes do Rio de Janeiro estavam organizando uma passeata-relâmpago para protestar contra a alta do preço da comida no restaurante, que deveria acontecer no final da tarde do mesmo dia. Por volta das 18 horas, a Polícia Militar chegou ao local e dispersou os estudantes que estavam na frente do complexo.
Os estudantes se abrigaram dentro do restaurante e os policiais começaram a atirar contra o local, provocando pânico entre os estudantes, que fugiram. Os policiais invadiram o restaurante e, durante a invasão, o comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo, atirou e matou Edson Luís com um tiro no peito.
Temendo que a PM sumisse com o corpo, os estudantes não permitiram que ele fosse levado para o Instituto Médico Legal (IML), mas o carregaram em passeata diretamente para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde foi velado. A autópsia foi feita no próprio local.
Outras seis pessoas ficaram feridas no ataque policial a tiros contra os estudantes e uma delas, Benedito Frazão Dutra, foi levada ao hospital e também não resistiu.
No período que se estendeu do velório até a missa da Igreja da Candelária, realizada em 2 de abril, foram mobilizados protestos em todo o país. Em São Paulo, quatro mil estudantes fizeram uma manifestação na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Também foram realizadas manifestações no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP (Largo São Francisco), na Escola Politécnica da USP (POLI-USP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
O Rio de Janeiro parou no dia do enterro. Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: A noite dos Generais, À Queima-Roupa e Coração de Luto. Centenas de cartazes foram colados na Cinelândia com frases como “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão” e “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?”. Edson foi enterrado ao som do Hino Nacional Brasileiro, cantado pela multidão.
A Missa
Na manhã de 4 de abril foi realizada uma missa na Igreja da Candelária em sua memória. Após o término da missa, os indivíduos que deixavam a igreja foram cercados e atacados pela cavalaria da polícia militar com golpes de sabre. Dezenas de pessoas ficaram feridas.
Outra missa seria realizada na noite do mesmo dia. O governo militar proibiu a realização dela, mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto, insistiu em realizá-la.
A missa foi celebrada com cerca de 600 pessoas. Temendo que o mesmo massacre da manhã se repetisse, os padres pediram que ninguém saísse da igreja. Do lado de fora havia três fileiras de soldados a cavalo, mais atrás estava o Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
Em um ato de coragem, os clérigos saíram na frente de mãos dadas, fazendo um “corredor” da porta da igreja até a avenida Rio Branco para que todos os que estavam na igreja pudessem sair com segurança. Apesar desse ato, a cavalaria aguardou que todos saíssem e os encurralaram nas ruas da Candelária. Novamente o saldo foi de dezenas de pessoas feridas.
A música Coração de Estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso
Inspirado na história de Edson Luís de Lima Souto, Milton Nascimento compôs a letra da canção Coração de Estudante, um clássico do cancioneiro popular brasileiro. Trazendo uma mensagem que reforça a esperança no poder da juventude, em particular nos jovens que possuem o conhecimento, Milton lançou a canção em seu disco Ao Vivo, de 1983.
A música é uma parceria com o amigo Wagner Tiso: a versão instrumental já havia sido lançada por Tiso para a trilha sonora do documentário Jango, filme lançado em 1984, que narra a trajetória política de João Goulart. Bituca, que se apaixonou pelo arranjo e melodia de Wagner e compôs a letra.
A canção também representou a vontade de liberdade cada vez maior do povo brasileiro e se tornou um hino que embalou parte da história política do Brasil, por ter sido escrita nos últimos anos do período da ditadura militar no país, inspirada em todos aqueles que lutavam pela democracia.
O artista escolheu o nome de uma flor típica de Minas Gerais, a terra que tão bem o acolheu, como título: Coração de Estudante.
Na época de seu lançamento, a canção também foi tema do movimento Diretas Já, que buscava a queda da ditadura e a restauração da democracia no Brasil.
Letra de Coração de Estudante
Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor
Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Veja também:
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto
Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes planta e sentimento
Folhas, coração, juventude e fé
Menino
Antes de Coração de Estudante, Milton Nascimento já havia composto outra canção para Edson Luís: Menino, em parceria com Ronaldo Bastos, que entrou para o álbum Geraes, de 1976.
Confira a letra abaixo:
Letra de Menino
Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte
Talhada a ferro e fogo
Nas profundezas do corte
Que a bala riscou no peito
Quem cala morre contigo
Mais morto que estás agora
Relógio no chão da praça
Batendo, avisando a hora
Que a raiva traçou no tempo
No incêndio repetindo
O brilho do teu cabelo
Quem grita vive contigo
O Dia Nacional de Lutas Estudantis
Em 28 de março de 2008, para lembrar os quarenta anos de sua morte, foi inaugurada uma estátua em homenagem a Edson Luís na Praça Ana Amélia, no centro do Rio de Janeiro.
Além disso, o trevo viário que liga o Aterro do Flamengo às avenidas General Justo e Presidente Antônio Carlos, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, passou a ser conhecido como Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto.


