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5 músicas da MPB que citam Aleijadinho
5 músicas da MPB que citam Aleijadinho
Há exatos 208 anos, em 18 de novembro de 1814, morria – aos 76 anos de idade – o escultor, entalhador, arquiteto e carpinteiro do Brasil Colonial, Aleijadinho. Escultor, entalhador, arquiteto e carpinteiro do Brasil Colonial, Aleijadinho Filho de um mestre de obras e arquiteto português com uma das mulheres africanas escravizada por ele, Aleijadinho … Continued
Há exatos 208 anos, em 18 de novembro de 1814, morria – aos 76 anos de idade – o escultor, entalhador, arquiteto e carpinteiro do Brasil Colonial, Aleijadinho.

Escultor, entalhador, arquiteto e carpinteiro do Brasil Colonial, Aleijadinho
Filho de um mestre de obras e arquiteto português com uma das mulheres africanas escravizada por ele, Aleijadinho nasceu escravizado, como Antônio Francisco Lisboa – em Ouro Preto (então Vila Rica), Minas Gerais – mas logo foi alforriado por seu pai e senhor.
Começou a aprender desenho, arquitetura e escultura com seu pai e os homens que trabalhavam com ele e logo tornou-se assistente. Consta que seu primeiro projeto individual foi um desenho para o chafariz do pátio do Palácio dos Governadores, em Ouro Preto.
Em uma comunidade escravocrata, sofreu forte racismo e preconceito e – mesmo alforriado e com seu grande talento – muitas vezes era contratado apenas como artesão diarista e não como mestre.
Toda obra de Aleijadinho foi realizada em Minas Gerais
A década de 1760 até próximo da sua morte realizou uma grande quantidade de obras – como o risco da fachada da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Sabará, e os púlpitos da Igreja São Francisco de Assis, de Ouro Preto – mas na ausência de documentação comprobatória, diversas têm uma autoria controversa (bem como a história de vida do artista, por falta de fontes biográficas) e são a rigor consideradas atribuições, baseadas em critérios de semelhança estilística com sua produção autenticada.
Toda sua obra, entre talhas, projetos arquitetônicos, relevos e estatuária, foi realizada em Minas Gerais, especialmente nas cidades de:
- Ouro Preto;
- Sabará;
- São João del-Rei;
- e Congonhas.
Os principais monumentos que contém suas obras são a Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.

Aleijadinho é o maior expoente da arte colonial no Brasil
Com um estilo relacionado ao Barroco e ao Rococó, é considerado pela crítica brasileira quase em consenso como o maior expoente da arte colonial no Brasil – um gênio singular – e, ultrapassando as fronteiras brasileiras, para alguns estudiosos estrangeiros é o maior nome do Barroco americano, merecendo um lugar destacado na história da arte do ocidente.
No início dos anos 1770, tem seu trabalho reconhecido e passa a ter uma equipe de artesãos. Além de fachadas, retábulos e altares, é contratado para dar pareceres sobre obras arquitetônicas de igrejas.
A partir de 1777 começam a surgir sinais de uma grave e misteriosa doença degenerativa
A partir de 1777 começaram a surgir os sinais de uma grave e misteriosa doença degenerativa, com o passar dos anos, deformou o corpo de Aleijadinho (o que lhe rendeu o apelido) e prejudicou seu trabalho, causando-lhe grandes sofrimentos. Teria perdido vários dedos das mãos, restando-lhe apenas o indicador e o polegar, e todos os dedos dos pés, obrigando-o a andar de joelhos. A face também foi atingida.
Até hoje é desconhecida a exata natureza de sua doença, e várias propostas de diagnóstico foram oferecidas por diversos historiadores e médicos.
Mesmo com crescente dificuldade, prosseguiu trabalhando intensivamente. Para ocultar sua deformidade vestia roupas amplas e folgadas, grandes chapéus que lhe escondiam o rosto, e passou a preferir trabalhar à noite, quando não podia ser visto facilmente, e dentro de um espaço fechado por toldos.
Em 1796, concluiu 64 esculturas de madeira que representam cenas da Paixão de Cristo
Em 1796, concluiu 64 esculturas de madeira que representam cenas da Paixão de Cristo, em Congonhas do Campo, Minas Gerais. Entre 1796 e 1805, finaliza as 12 esculturas dos Profetas, localizadas no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, na mesma cidade.

O material usado é a pedra-sabão, característica em muitas obras do escultor. Todos os profetas têm cabelos encaracolados cobertos por turbantes e olhos levemente puxados – traço recorrente nas esculturas do artista. Esta última é considerada a sua obra-prima.
Entre 1807 e 1809, estando sua doença em estado avançado, a sua oficina encerrou as atividades, mas ele ainda realizou alguns trabalhos.
A partir de 1812 sua saúde piorou e ele passou a depender muito das pessoas que o assistiam. Mudou-se para uma casa nas proximidades da Igreja do Carmo de Ouro Preto, para supervisionar as obras que estavam a cargo de seu discípulo Justino de Almeida. A esta altura estava quase cego e com as capacidades motoras grandemente reduzidas.
No século XX, Aleijadinho, até então pouco celebrado e reconhecido no Brasil, é redescoberto por artistas modernistas
No século XX, Aleijadinho, até então pouco celebrado e reconhecido no Brasil, é redescoberto por artistas modernistas, entusiasmados com sua história e obra. Exemplo disso é o escritor Mário de Andrade e seu texto Aleijadinho, de 1928.
Criticando europeus que comentam as obras do escultor sem considerá-lo um gênio, Mário enxerga na obra de Aleijadinho uma invenção “que contém algumas das constâncias mais íntimas, mais arraigadas e mais étnicas da psicologia nacional”. A imagem do “mulato” artista, cuja obra não é mera cópia de estilos europeus, é apreciada por um movimento que se propõe a pensar o Brasil miscigenado.
5 músicas da MPB que citam Aleijadinho
Figura importantíssima da nossa história, Aleijadinho está também na nossa música popular brasileira. Ele já foi citado por diversos artistas da nossa MPB por conta de sua força, seu talento, persistência, resiliência e genialidade.
Vamos conhecer algumas dessas músicas?
1 – Quem Tem Um Amigo Tem Tudo – Emicida – 2019
Com letra escrita por Emicida em cima de uma melodia enviada para ele em fita cassete, por Wilson das Neves, cantor, compositor e um dos maiores bateristas brasileiros de todos os tempos, Quem Tem Um Amigo Tem Tudo foi lançada em 2019, no álbum Amarelo, do rapper paulistano.
Wilson era um dos ídolos de Emicida, influenciou muito seu trabalho, e tornou-se seu grande amigo, tendo – inclusive – participado do primeiro álbum de estúdio do rapper e também do segundo desfile da marca de roupas LAB, de Emicida com seu irmão Fióti, na São Paulo Fashion Week, em 2017, com o tema herança.
Wilson das Neves faleceu em 2017, e Emicida convidou Zeca Pagodinho para dividir os vocais de Quem Tem Um Amigo Tem Tudo com ele, que também conta com a participação da Tokyo Ska Paradise Orchestra.
A letra – que é uma belíssima ode à amizade – cita a relação de Gilberto Gil e Caetano Veloso, na mesma estrofe em que homenageia Aleijadinho:
Ser mano igual Gil e Caetano
Nesse mundo louco é pra poucos, tanto sufoco insano encontrei
Voltar pra esse plano e vamos estar voltando
É tipo um Rococó, Barroco em que Aleijadinho era rei
2 – Cara do Brasil – Ney Matogrosso (composição de Celso Viáfora e Vicente Barreto) – 1998
O cantor e compositor paulistano Celso Viáfora conta em entrevista que certa vez a também cantora e compositora Luli – da dupla Luli e Lucina – lhe falou que Ney Matogrosso estava querendo gravar uma música que falasse do Brasil, mas que não fosse uma coisa rancorosa, nem panfletária. Que fosse rítmica, mas que não fosse samba.
Ele tinha acabado de fazer – junto com Vicente Barreto – a canção A Cara do Brasil – e conta que, se a música lhe tivesse sido encomendada, não teria saído tão perfeita para o que Ney buscava. A canção acabou entrando para o disco Olhos de Farol, de 1998, décimo-sétimo álbum solo de Ney Matogrosso, que comemorou seus 25 anos de carreira.
Celso conta também que a letra da canção cai até em exames de vestibular, por sua relevância para a nossa história. Ela cita Aleijadinho ao lado de Garrincha: um dos melhores jogadores de futebol e dribladores da história do Brasil, mesmo tendo estrabismo, um desequilíbrio da pelve, seis centímetros de diferença de comprimento entre as pernas, sendo chamado “O Anjo de Pernas Tortas“.
Na verdade, o Brasil o que será?
O Brasil é o homem que tem sede
Ou o que vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo
O que vai é o que vem na contramão?
O Brasil é um caboclo sem dinheiro
Procurando o doutor nalgum lugar
Ou será o professor Darcy Ribeiro
Veja também:
Que fugiu do hospital pra se tratar?
A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo, a gente se vira sozinho
Decerto então nada vai dar
3 – Anjo Torto – João Bosco e Sérgio Ricardo (composição de João Bosco e Guerra Baião) – 1980
Gravada por João Bosco com a participação de Sérgio Ricardo, no disco Bandalhismo, de 1980, a canção Anjo Torto foi composta por Bosco em parceria com Guerra Baião e é uma pura, simples e bela homenagem a Aleijadinho:
Quem é que é
O Aleijadinho, quem é?
Quéde o que é
O anjo torto que é
O desordeiro da fé?
4 – A Sede do Peixe (Para o Que Não Tem Solução) – Milton Nascimento e Márcio Borges – 1978
A composição de A Sede do Peixe (Para o Que Não Tem Solução) é dos amigos Milton Nascimento e Márcio Borges e a canção foi lançada no disco Clube da Esquina 2, de 1978.
Este foi o segundo disco do movimento de artistas mineiros chamado Clube da Esquina, formado por Milton (o mais mineiro de todos os cariocas), os irmãos Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, Toninho Horta, Wagner Tiso, Tavinho Moura e tantos outros.
Um dos maiores e mais importantes movimentos da música popular brasileira – que trouxe uma sonoridade inovadora com a fundição das inovações propostas pela Bossa Nova com elementos do jazz, do rock (principalmente dos ingleses The Beatles), da música folclórica, da música regional mineira, erudita e hispânica – o Clube começou a se reunir em uma esquina famosa de Belo Horizonte, capital mineira.
Logo depois do lançamento do primeiro e antológico disco, em 1972, o grupo tornou-se referência de qualidade na MPB, pelo alto nível de sua performance, e por disseminar suas inovações e influências.
E, nesta canção, Milton e Márcio citam um dos maiores e mais importantes nomes da arte mineira no Brasil, seu conterrâneo, Aleijadinho:
Para o que o suor não me deu
O fogo do amor ensinou
Ser o barro embaixo do sol
Ser chuva lavrando sertão
Qual Aleijadinho de Sabará
E a semente das bananas
5 – De Qualquer Lugar – Daniela Mercury (composição de Lenine e Dudu Falcão) – 2001
Lenine e Dudu Falcão compuseram a canção De Qualquer Lugar especialmente para Daniela Mercury gravar em seu disco Sou De Qualquer Lugar, de 2001.
A canção – que exalta o orgulho e a força de sermos brasileiros – cita diversos nomes ou personagens importantíssimos da nossa história, como Zumbi dos Palmares, Macunaíma, Santos Dumont, Padre Cícero e Aleijadinho:
Por onde eu passar
Vão lembrar de mim
Finco minha bandeira
Eu sou brasileira, eu nasci assim
Sou martelo na mão de Aleijadinho
Esculpindo a queimada de Krajcberg
Eu sou as reinações de Narizinho
Sou Lobato engolindo Gutemberg


