Novabrasil
Especial Emicida, parte 5
Especial Emicida, parte 5
Emicida é um grande marco na história da MPB, fato incontestável. Com a força da sua rima, arte e expressão, o multiartista trouxe representatividade e originalidade não só ao rap, e sim, a cultura brasileira. Em homenagem ao mês de seu aniversário, preparamos o Especial Emicida – uma série de matérias especiais que narram a … Continued
Emicida é um grande marco na história da MPB, fato incontestável. Com a força da sua rima, arte e expressão, o multiartista trouxe representatividade e originalidade não só ao rap, e sim, a cultura brasileira. Em homenagem ao mês de seu aniversário, preparamos o Especial Emicida – uma série de matérias especiais que narram a história e a carreira de Emicida.
Hoje, na última matéria do Especial, vamos falar sobre o AmarElo, seu trabalho mais significativo até então e que venceu o Grammy Latino 2020, a indicação ao BET Awards 2021 e a emoção de se tornar uma referência tão importante.
Ver esta publicação no Instagram
Emicida, a referência
AmarElo
Mas, foi em 2019, que Emicida lançou o seu trabalho mais significativo até agora e um dos trabalhos mais valiosos lançados nos últimos tempos no que diz respeito à música popular brasileira, aclamado pelo público e pela crítica. Aquele que ele considera um experimento social: o álbum AmarElo. O título é uma referência ao poema de Paulo Leminski (Amar é um elo | entre o azul | e o amarelo).
O álbum conta com 11 canções e várias participações especiais, como:
- Fabiana Cozza;
- Pastor Henrique Vieira;
- Mc Tha;
- Drik Barbosa;
- Zeca Pagodinho;
- Marcos Valle;
- Dona Onete;
- Fernanda Montenegro;
- Larissa Luz;
- Majur;
- Pabllo Vittar;
- e Gilberto Gil, recitando um poema do líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor Ailton Krenak.
O álbum traz sucessos como a música título, que faz um sample com Sujeito de Sorte, lançada por Belchior em seu disco Alucinação, de 1976:
“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.
Com um clipe inesquecível, gravado no Complexo do Alemão, com a participação de moradores de lá, e com a presença ilustre das cantoras Majur e Pabllo Vittar, a canção unifica lutas coletivas por liberdade, que nunca deveriam ser lidas em separado: de gênero, de classe, de raça.
A canção fala sobre superação e sobre questões de saúde mental:
“No primeiro passo desse processo, a nossa intenção era que as pessoas se sentissem grandes ao olharem no espelho. Agora, a ideia é que elas observem ao redor e se enxerguem maiores do que os seus problemas, independente de quais sejam”, diz Emicida sobre AmarElo. Daí a inserção do seu rap: “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes. Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes, que nem devia tá aqui.”.
Eminência Parda
Outro sucesso do álbum é Eminência Parda, cujo clipe traz uma família negra que vai comemorar uma conquista acadêmica da filha em um restaurante caro, frequentado apenas por brancos por conta do racismo estrutural da nossa sociedade.
As imagens vão mostrando a reação das pessoas brancas que estão no restaurante, incomodadas com a presença daquela família naquele ambiente que eles julgam não ser pertencente a eles: alguns veem a família comendo como se estivessem revirando o lixo, outros olham para a garota negra e sexualizam seu corpo, outros os enxergam como assaltantes, outros em posições subservientes… e só piora, como a nossa realidade.
Na canção Principia, o cantor fala sobre sua ancestralidade e sobre a escravidão, quando visitou o Museu da Escravidão, em Angola, e declara:
“A minha missão, cada vez que eu pegar uma caneta e um microfone, é devolver a alma de um dos meus irmãos e das minhas irmãs que sentiram que um dia não teve uma.”
Todas as canções do álbum merecem destaque:
- Libre;
- Principia;
- Ismália;
- Ordem Natural das Coisas;
- Pequenas Alegrias da Vida Adulta;
- Quem Tem Um Amigo Tem Tudo… que vem de uma melodia enviada para Emicida em fita cassete, por seu amigo e ídolo – um dos maiores bateristas que o Brasil conheceu – Wilson das Neves, antes de falecer em 2017.
Emicida e o Documentário AmarElo: É Tudo Pra Ontem
Em 2020, com o mundo em suspensão por conta da pandemia do coronavírus, Emicida lança, pela Netflix em parceria com a Laboratório Fantasma, o documentário AmarElo: É Tudo Pra Ontem, em que fala sobre – como já contamos – a razão de fazer o show de AmarElo no Theatro Municipal de São Paulo, sobre ancestralidade, sobre a história do rap e do samba.
Fala também sobre a pensadora negra brasileira Lélia Gonzalez, citada por Angela Davis como referência do feminismo negro no Brasil; sobre a fundação do Movimento Negro Unificado, nas escadarias daquele mesmo Municipal, em 1978, em plena ditadura militar.
Emicida analisa também a dita “abolição da escravidão”, que deixou os negros no Brasil sem nenhum amparo.
“Primeiro cê sequestra eles, rouba eles, mente sobre eles
Nega o deus deles, ofende, separa eles
Se algum sonho ousa correr, cê para ele
E manda eles debater com a bala que vara eles, mano“
ISMÁLIA, 2019
O documentário cita ainda Simonal, Martin Luther King e Leci Brandão, sambista, madrinha do rap, primeira mulher a integrar a ala de compositores da Mangueira e uma das duas únicas mulheres negras na Assembleia Legislativa de São Paulo em quase 450 anos.
Cita também o ator, poeta, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos Abdias do Nascimento e a sua necessidade de converter tragédias em potências, quando criou o teatro negro para lutar contra o racismo, usando a arte como ferramenta politica. Teatro esse que revelou Rute de Souza, primeira dama negra do teatro e do cinema brasileiro, primeira artista negra a se apresentar no palco do Municipal.
Veja também:
Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa
O álbum AmarElo venceu o Grammy Latino 2020 na categoria Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa e a canção que dá nome ao disco foi indicada a Melhor Canção em Língua Portuguesa.
O “projeto” AmarElo ainda rendeu o minidocumentário AmarElo – As histórias por trás do clipe, a série AmarElo – O Filme Invisível, onde o artista conta suas referências e inspirações para as letras e composição do álbum, e o Podcast Amarelo Prisma, em que Emicida mostra novas perspectivas em uma jornada de transformação pessoal e social.
Também em 2020, Emicida lança seu segundo livro infantil, E Foi Assim Que Eu e a Escuridão Ficamos Amigas, que fala sobre como as crianças lidam com os medos que as assombram e com a coragem de enfrentá-los.
Ainda neste ano, Emicida volta a subir ao Palco Sunset, do Rock in Rio, agora como artista principal.
Em 2021, foi lançado o álbum Amarelo – Ao Vivo, que apresenta o show gravado no Theatro Municipal de São Paulo em 2019. As músicas foram lançadas em todas as plataformas de música e o show completo foi lançado pela Netflix.
O Enigma da Energia Escura
Também em 2021 é lançada, no canal GNT, a série documental O Enigma da Energia Escura, desenvolvida por Emicida e Fióti. A série conta com cinco episódios apresentados pelo próprio Emicida, com a proposta de trazer uma reflexão sobre questões fundamentais da sociedade e a história da população, a partir da negritude brasileira.
Um diálogo sobre o desconhecimento que o Brasil tem sobre a potência com que as populações afro diaspóricas podem contribuir para a evolução da sociedade brasileira. A série propõe discussões sólidas, de cabeças que fazem o Brasil sair do conservadorismo e de lugares onde não encontramos espaços para discussão.
Mostra o grande potencial que essas pessoas trazem, o ativo intelectual, as culturas, os saberes, a inteligência, as tecnologias que ofereceram para o Brasil: um caminho para que uma cultura original nascesse por meio desse povo.
Emicida e Fióti, na Laboratório Fantasma – e em todos os projetos que realizam, sejam roupas, filmes, documentários, músicas, produção de outros artistas – fazem questão de dar oportunidade e espaço para pessoas pretas, em toda a cadeia produtiva.
Se preocupam em colocar a câmera, o roteiro, a maquiagem, a costura, e outras etapas da produção – audiovisual ou não – nas mãos de pessoas pretas. Eles conhecem o país no qual nasceram e o quão desigual e perversa a desigualdade pode ser. Sabem que uma vida como a deles, sem os holofotes que os acompanham, pode valer muito pouco nas ruas do Brasil.
“80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo “), ISMÁLIA, 2019.
Emicida conta que fica lisonjeado e emocionado, do ponto de vista de atingir um lugar de visibilidade e de referência tão importante, que pode dar espaço e possibilidade para que outras pessoas como ele, em outros lugares dessa cadeia, possam ocupar esses lugares.
Ainda em 2021, Emicida realizou uma residência artística na Universidade de Coimbra, em Portugal, a convite do Centro de Estudos Sociais da Universidade, realizando palestras e entrevistas, falando sobre desigualdade social, produzindo reflexões sobre como a arte pode produzir uma forma de emancipação que enriquece a sociedade na qual ela se encontra.
Emicida, o único artista brasileiro indicado ao BET Awards 2021
O artista foi o único brasileiro a ser indicado ao BET Awards 2021.
Em 2022, subiu ao palco do Lollapalooza e, em 2022, fez um show histórico no João Rock, ao lado de Céu e Criolo.
Em 2022, Emicida e seus companheiros de Lab Fantasma – Fióti, Rael e Drik Barbosa – sobem ao palco do Festival Novabrasil 2022, no dia 15 de outubro, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo.
Emicida tem sua própria horta em casa e ama botar a mão na terra. Diz que ela é a melhor professora a respeito do tempo das coisas. Aprendeu sobre mexer na terra com a mãe e também quando leu sobre a força da horta durante o tempo em que Nelson Mandela ficou preso. Foi isso que o fez saber respeitar o tempo das coisas e se conectar com o ciclo da vida.
“Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje”.
Emicida não sente que veio. Sente que voltou. De alguma forma, acredita que seus sonhos e suas lutas começaram muito tempo antes da sua chegada. Ele diz que:
“Todas as nossas chances de consertar os desencontros no passado, moram no agora”.
“A música é só uma semente. Um sorriso ainda é a única língua que todos entende”) – PRINCIPIA, 2019
E “é tudo pra ontem”. Obrigada, Emicida!
Leia o episódio anterior:
por Lívia Nolla


