5 momentos em que Daniela Mercury revolucionou a música brasileira

Lívia Nolla
08:43 28.07.2026
Autor

Lívia Nolla

Cantora e Pesquisadora Musical
Arte e cultura

5 momentos em que Daniela Mercury revolucionou a música brasileira

Cantora, compositora, bailarina e produtora musical, artista ficou conhecida como a Rainha do Axé e celebra hoje 61 anos

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- 28.07.2026 - 08:43
5 momentos em que Daniela Mercury revolucionou a música brasileira
Daniela Mercury. Foto: Célia Santos / Divulgação.

Falar de Daniela Mercury é falar de revolução. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, a cantora baiana nunca se acomodou em fórmulas prontas. Pelo contrário: fez da inovação a sua principal marca, rompeu barreiras, reinventou o Carnaval, misturou ritmos, abriu caminhos para outros artistas e ajudou a apresentar a música baiana para o Brasil e para o mundo.

Cantora, compositora, bailarina e produtora musical, Daniela ficou conhecida como a Rainha do Axé por seu pioneirismo no gênero e por ter levado a força da música baiana para muito além das fronteiras da Bahia. 

Mas ela própria prefere definir seu trabalho como “MPB percussiva” ou “música percussiva brasileira”, um conceito que traduz bem sua trajetória de liberdade artística, marcada pela fusão de estilos e pela valorização das raízes afro-brasileiras.

Neste 28 de julho, quando Daniela Mercury completa 61 anos, relembramos cinco momentos em que a cantora revolucionou a música brasileira.

1 – Tornou-se a primeira mulher a comandar um trio elétrico cantando Axé

Daniela Mercury: Rainha do Axé | Imagem: Reprodução

Muito antes de se tornar um fenômeno nacional, Daniela Mercury já respirava música e dança. Formada em Dança pela Universidade Federal da Bahia, começou a cantar profissionalmente ainda adolescente, depois de decidir unir as duas paixões ao assistir a um show de Elis Regina.

Toni Duarte – irmão do cantor e compositor Gerônimo, praticamente uma lenda viva da música baiana – viu Daniela cantando em um bar e falou que estava precisando de uma cantora para um trio elétrico.

O primeiro pequeno – e pouco tecnológico (bem diferentes dos trios elétricos atuais) – trio que Daniela Mercury puxou, em 1982, contava somente com uma guitarra baiana (invenção da dupla Dodô e Osmar), uma guitarra elétrica, um baixo, uma bateria e – às vezes – um surdo. 

O repertório era formado basicamente por canções que já faziam sucesso nas vozes dos cantores de trio que vieram antes de Daniela: todos homens até então. 

O primeiro cantor de trio elétrico foi Moraes Moreira, em 1975, quando até então as músicas de trio eram somente instrumentais. Foi aí que Moraes – recém saído dos Novos Baianos – juntou-se ao trio de Dodô e Osmar para colocar voz nas canções, trazendo a influência do frevo. 

São dessa época grandes sucessos como “Vassourinha”, “Pombo Correio” e “Festa do Interior”, que fazem parte do repertório do primeiro trio puxado por Daniela, em 1982.

Dois anos depois de Moraes, Baby do Brasil (na época Consuelo) também se arriscou como cantora de trio elétrico, ao sair dos Novos Baianos. Mas Daniela Mercury foi a primeira a realmente assumir o posto de cantora de axé em cima de um trio elétrico de forma definitiva e, por isso, e por ter disseminado o gênero por todo o Brasil, ela é considerada a Rainha do Axé

Sua presença também ajudou a levar o Carnaval baiano para uma nova dimensão nacional.

2 – Daniela Mercury transformou o axé em um fenômeno nacional

Depois de experiências na Banda Eva, como backing vocal de Gilberto Gil e à frente da Companhia Clic, Daniela iniciou sua carreira solo em 1990. O primeiro álbum, de 1991, já apresentou um enorme sucesso com “Swing da Cor”, mas foi no ano seguinte, com “O Canto da Cidade”, que sua carreira mudou definitivamente.

O disco ultrapassou a marca de três milhões de cópias vendidas, tornou Daniela a primeira artista a receber um disco de diamante por um milhão de cópias comercializadas e levou canções como “O Canto da Cidade”, “Batuque”, “O Mais Belo dos Belos”, “O Charme da Liberdade” e “Bandidos da América” para o topo das paradas.

Mais do que um enorme sucesso comercial, esse álbum apresentou ao restante do Brasil a potência da música baiana e consolidou Daniela Mercury como uma das artistas mais importantes do país.

Com o tempo, os artistas baianos foram construindo o gênero do axé, com uma mistura de influências do ijexá, samba-reggae, frevo, reggae, merengue, pop, samba de roda, ritmos afro-latinos e afro-brasileiros. 

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3 – Escolheu a independência artística quando isso ainda era raro

Outro movimento revolucionário veio nos bastidores.

Desde o início da carreira solo, Daniela fez questão de produzir seus próprios discos. A partir de “O Canto da Cidade”, nunca mais ficou vinculada artisticamente a uma gravadora, preferindo negociar apenas a distribuição de seus trabalhos para preservar sua independência criativa.

Essa liberdade permitiu que experimentasse novos caminhos musicais ao longo da carreira, sempre colocando a pesquisa sonora, a cultura brasileira e as influências afro-brasileiras no centro de seus projetos. Em 1994, ampliou esse olhar ao criar sua própria editora musical, a Páginas do Mar, reforçando também sua atuação como compositora e empresária da música.

4 – Reinventou o Carnaval ao misturar percussão e música eletrônica

Se Daniela ajudou a consolidar o axé, também foi uma das primeiras artistas a mostrar que ele poderia dialogar com outros universos musicais.

Em 1998, lançou o álbum ao vivo “Elétrica”, aproximando a guitarra baiana da guitarra do rock. No ano seguinte, criou o Trio Techno, tornando-se a primeira cantora de trio elétrico a levar a música eletrônica para o Carnaval de Salvador.

Pouco depois, aprofundou essa pesquisa em “Sol da Liberdade”, produzido ao lado de Suba. O disco uniu os tambores do samba-reggae com elementos da música eletrônica, recebeu elogios internacionais e reafirmou Daniela como uma artista inquieta, sempre disposta a experimentar novas sonoridades sem abandonar suas raízes.

5 – Daniela Mercury transformou sua arte em uma ferramenta de defesa da liberdade

Ao longo da carreira, Daniela Mercury sempre deixou claro que sua música também é um espaço de posicionamento. Defensora dos direitos humanos, tornou-se uma voz importante na luta pela igualdade, pelo respeito à diversidade e pela liberdade de expressão.

A artista sempre esteve engajada na defesa da comunidade LGBTQIAPN+, tornando-se um símbolo dessa luta ao oficializar seu casamento com a jornalista e empresária Malu Verçosa. Em 2014, estrelou, ao lado de Ricky Martin, a primeira campanha mundial da ONU contra a homofobia. 

Também é, desde 1995, embaixadora da UNICEF no Brasil, atuando em defesa dos direitos das crianças, além de ser embaixadora do Instituto Ayrton Senna, dedicado à educação.

Essas bandeiras também aparecem em sua obra. Daniela Mercury costuma cantar sobre liberdade, diversidade, identidade e valorização da cultura brasileira, temas presentes em diferentes momentos de sua discografia. 

Em “Perfume” (2020), por exemplo, apresentou canções autorais que, segundo a própria artista, “cantam contra a censura e as mordaças”, como “Rainha da Balbúrdia” e “Tá Proibido o Carnaval”, reafirmando sua postura de nunca separar arte e cidadania.

Essa coragem para defender causas importantes, aliada à inquietação artística que sempre marcou sua trajetória, faz de Daniela Mercury uma artista revolucionária não apenas pela música que criou, mas também pelos valores que escolheu representar. Aos 61 anos, ela segue mostrando que um palco também pode ser um espaço de transformação social.

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Lívia Nolla é cantora, apresentadora e pesquisadora musical

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