“Como navegar no abismo” (Record) é o novo livro de Paula Gicovate

Fabiane Pereira
17:17 18.06.2026
Arte e cultura

“Como navegar no abismo” (Record) é o novo livro de Paula Gicovate

A partir da experiência do luto, autora lança romance sobre a reinvenção de si e os legados femininos do cuidado

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- 18.06.2026 - 17:17
“Como navegar no abismo” (Record) é o novo livro de Paula Gicovate
Foto: Divulgação.

Paula Gicovate é autora dos romances “Notas sobre a impermanência”, semifinalista do Prêmio Oceanos 2022, e “Este é um livro sobre amor”. Em sua obra, ela costuma investigar temas como desejo, relações afetivas, identidade e as transformações provocadas pelo amor e pela perda.

Em seu novo livro, “Como navegar o abismo” (Record), a escritora acompanha a vida de uma chef de cozinha que precisa reaprender a existir após a morte da mãe, enquanto elabora o luto, encara os deveres familiares e se depara com a herança emocional de três gerações de mulheres.

“Quando uma versão de nós morre junto com alguém que amamos, quem nos tornamos?” É a partir desse questionamento que Paula Gicovate constrói seu terceiro romance. A obra parte da experiência pessoal da autora, que perdeu a mãe em 2022, mas envereda pela ficcionalização de si e da experiência vivida do luto. A protagonista Nara é uma chef de cozinha premiada que recebe a notícia mais importante de sua carreira na mesma noite em que descobre que sua mãe, Cecília, tem um câncer agressivo e incurável. Pouco tempo depois, a doença interrompe brutalmente uma relação marcada pelo amor e cumplicidade entre mãe e filha.

Com a morte da mãe, Nara abandona a vida que construiu no Rio de Janeiro, deixando para trás o trabalho, os projetos profissionais e o relacionamento com o namorado, e retorna a Fontana, cidade interiorana onde cresceu e passou parte da juventude. Lá, reencontra vó Julia, uma mulher já idosa, marcada pela austeridade e pela dificuldade de expressar afeto.

Enquanto busca compreender a própria dor, sua avó insiste em silenciar sobre a morte de Cecília. As duas passam a conviver em extremos opostos do luto. De um lado, a neta que precisa exorcizar a ausência e reaprender a existir. Do outro, a mãe que parece determinada a seguir vivendo como se tudo seguisse igual.

Ao acompanhar esse encontro entre duas mulheres separadas por gerações e pontos de vista opostos, mas unidas pela mesma perda, Paula investiga os mecanismos da memória, os conflitos familiares e os modos como cada indivíduo aprende a lidar com a finitude.

Mais do que um romance sobre o luto, “Como navegar o abismo” é uma narrativa sobre reinvenção. A morte de Cecília obriga Nara a confrontar tudo aquilo que parecia definitivo. O amor, a profissão, a cidade onde vive, os projetos de futuro e até mesmo a imagem que tinha de si mesma passam a ser questionados. Sem o

amparo da mãe, ela descobre que precisa aprender a existir em um território desconhecido. “O mesmo abismo desolador da perda é também um espaço vazio para a reinvenção.”, afirma a autora

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A reflexão se amplia para uma questão recorrente na experiência feminina: a responsabilidade pelo cuidado. Ao longo da vida, Cecília dividiu-se entre o trabalho, a maternidade e os cuidados com a própria mãe. Após sua morte, esse papel é herdado por Nara, que passa a reproduzir, quase involuntariamente, o ciclo de dedicação e renúncia que observou durante toda a vida.

Numa terceira camada, o livro aborda, ainda, a maternidade sob uma perspectiva realista, onde o amor convive com o fardo. Nara observa como sua mãe viveu uma vida de extrema doação e questiona os limites desse papel, sugerindo que a maternidade e a dedicação familiar podem aprisionar gerações de mulheres em uma “tarefa compulsória” de cuidar.

Mesmo diante da dor, a vida continua insistindo. A culinária surge como pano de fundo da história, provocando os sentidos e despertando sentimentos indizíveis. Apesar da distância e aspereza da relação com a avó, Nara herda de vó Júlia o talento para a doçaria fina, como os chuviscos e doces de ovos complexos, transformando o que era uma necessidade financeira da avó em sua própria profissão de chef.

Diante do luto, a protagonista se vê impossibilitada de se dedicar ao que mais gosta: cozinhar. Mas é no reencontro com sabores afetivos, que busca caminhos para permanecer e não sucumbir ao vazio. A cozinha torna-se um espaço de elaboração da perda, mas também de descoberta de novos desejos.

O desejo, o amor, o sexo, o trabalho e a criação aparecem no romance como forças capazes de devolver movimento à existência quando tudo parece paralisado. Entre o humor, a delicadeza e a intensidade emocional que marcam sua escrita, Paula constrói uma narrativa sobre aquilo que permanece depois do fim. “Escrever este livro foi minha forma de pensar na loucura e na bênção que é a vida insistir mesmo quando ainda não estamos prontos para ela”, avalia a autora.

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