50 anos do disco Construção de Chico Buarque

Por: Novabrasil
13 de setembro de 2021
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Capa do LP Construção de Chico Buarque

Agora em 2021, o clássico disco Construção, de Chico Buarque, completa 50 anos!

Considerado um dos mais importantes da história, o disco – lançado no final de 1971 – foi classificado como o terceiro maior disco da música popular brasileira de todos os tempos, em lista elaborada pela Revista Rolling Stone Brasil, em 2007. O álbum também está no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer.

Foi o primeiro disco do artista no seu retorno ao Brasil, após 14 meses de autoexílio na Itália, em meio à ditadura militar brasileira, e traz um Chico – com apenas 27 anos, mas já consagrado – ainda mais maduro como compositor e como ser humano.

Consciente politicamente e preocupado com a realidade em que o país se encontrava naquele momento delicado, as composições do álbum falam sobre o contexto político que atravessávamos, recheadas de críticas ao regime militar vigente e às terríveis condições de vida que se encontravam no país. Também trazem mensagens de luta contra a censura imposta pelo AI-5 e a favor da liberdade de expressão.

Logo que chegou de volta ao Brasil, em 1970, Chico lançou um compacto simples com duas músicas: Apesar de Você e Desalento.

O compacto foi liberado pela censura e fez enorme sucesso, até que a ditadura militar entendeu, no ano seguinte, o recado dado em Apesar de Você: uma crítica ao regime e à censura, disfarçada de uma suposta briga conjugal – e decidiu proibir a veiculação da primeira música (os oficiais do regime invadiram a sede da Philips e destruíram as cópias restantes do disco), que só seria liberada em 1978, entrando para o disco Chico Buarque. Diz-se que, em um interrogatório, Chico foi indagado sobre quem era o “você” da letra da canção e respondeu: “É uma mulher muito mandona e autoritária”.

Apesar de Você fez Chico ser implacavelmente marcado e perseguido pelos censores e suas letras passaram a sofrer as mais absurdas rejeições, chegando ao ponto do artista ter que se disfarçar sob pseudônimos para conseguir lançar algumas canções.

Desalento, parceria de Chico com Vinicius de Moraes, foi liberada direto e entrou para o álbum Construção. Outras faixas do disco enfrentaram problemas com a censura: em Cordão, os censores identificaram um “protesto contra a ordem vigente” e alegaram que o verso “Nas grades do coração” tinha “sentido dúbio”. Chico teve que substituí-lo por “As portas do coração”.

Deus lhe Pague, uma crítica ao controle dos militares e à opressão sofrida no país – disfarçada de agradecimento por um humor crítico e ácido – foi vetada por “parecer um ‘recado’ com duplicidade de sentido, que tanto pode ser dirigido a alguém ou algo abstrato”. Um tempo depois, a música foi liberada sem modificações e entrou no disco.

A canção que dá título ao álbum é uma das mais emblemáticas da vertente crítica de Chico Buarque: um testemunho devastador sobre as relações humilhantes, opressoras e exploradoras que envolvem capital e trabalho, com um jogo de palavras forte e genial (a complexa letra de quase sete minutos está na contracapa do LP). Construção é considerada a maior música brasileira de todos os tempos, em lista elaborada pela Revista Rolling Stone Brasil, em 2009.

Narra o último dia de vida de um trabalhador da construção civil, morto no exercício de sua profissão: desde a saída da sua casa, até o momento da queda brutal que o leva à morte. Fala da perversa relação capital/trabalho: alienadora, que nos reduz à uma condição mecânica, de máquina, de objeto, descartável e substituível.

Cotidiano é outro clássico desse disco, que narra a rotina conjugal repetitiva – e quase monótona – marcada por atos envolvendo a boca: o beijo, o comer, o beber, a mordida de pavor.

As canções Valsinha e Olha Maria trazem o lirismo já característico de Chico: a primeira é mais uma parceria do artista com Vinicius de Moraes e a segunda é da dupla com Tom Jobim, que também toca piano na faixa.

Samba de Orly é uma parceria com Toquinho, que passou um tempo visitando Chico no autoexílio da Itália e, antes de voltar para o Brasil, deixou um tema de despedida pelo tempo que passaram juntos, para que Chico colocasse a letra.

Mais tarde, Vinicius de Moraes também entrou como parceiro na composição, ao alterar um verso da canção. O poeta sugeriu que substituíssem a frase “Peço perdão pela duração desta temporada”, que achou muito leve para retratar o que Chico tinha passado no exílio, por “Peço perdão pela omissão um tanto forçada”. A frase não passou pela censura, mas Vinicius continuou assinando a composição. Toquinho participa da faixa, tocando seu característico violão.

Fechando o álbum, uma versão de Chico para a canção Minha História – dos italianos Lucio Dalla e Paola Pallotino – seguida por Acalanto, feita para a sua filha, Helena.

O álbum também conta, em algumas faixas, com a participação do quarteto de vozes MPB-4 – grandes parceiros de Chico desde a clássica apresentação de Roda Viva no III Festival de Música Brasileira – e do Trio Mocotó, na percussão e Samba de Orly.

Uma curiosidade muito interessante sobre Construção é que – gravado em uma época em que muitos equipamentos importados super tecnológicos chegavam aos estúdios brasileiros – o disco quase não existiu, por conta de uma falha técnica.

Tudo aconteceu assim: a intenção de Roberto Menescal, diretor da gravadora PolyGram na época e produtor do álbum, era fazer um disco que, para além do sucesso que Chico já alcançava entre os críticos musicais e admiradores da MPB, pudesse também ser um sucesso de vendas.

Por isso, quando o maestro Rogério Duprat, pediu que Menescal reunisse uma orquestra com cerca de 60 músicos para o disco, o diretor artístico logo atendeu.

A gravação ocorreu sem grandes problemas, mas, na hora da mixagem – quando são reunidos os áudios captados pelos diferentes canais: a orquestra, a voz de Chico, os instrumentos – algum técnico do estúdio apertou um botão errado (de uma mesa nova, que os técnicos ainda não dominavam 100%) e deletou toda a gravação da orquestra.

Sem chances de recuperar o conteúdo perdido e sem verba para contratar a orquestra para regravar tudo, Menescal tirou um pouco da verba destinada a trabalhos de outros artistas, que estavam sob a sua responsabilidade na gravadora, e chamou a orquestra para gravar tudo do zero.

No fim, deu tudo muito certo: Construção vendeu mais de 140 mil cópias nas primeiras quatro semanas e transformou-se em um dos maiores sucessos da carreira de Chico Buarque, que comemora neste ano cinco décadas do seu lançamento .

MPB, NOVAS
 
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