50 anos do disco Caetano Veloso (1971)

Por: Novabrasil
31 de julho de 2021

Em tempos duros de repressão – no auge da Ditadura Militar e diante da recente instauração do Ato Institucional nº 5, Caetano Veloso e Gilberto Gil – já grandes ídolos de uma geração e líderes do movimento Tropicalista, que havia transformado para sempre a música popular brasileira com suas inovações estéticas –  sofreram forte censura e perseguição, foram presos em novembro de 1968 e, no ano seguinte, obrigados a se exilar em Londres, onde permanecem até o ano de 1972.

Durante o tempo que viveram no exílio, enquanto Gil se sentia animado em tentar se enturmar com os artistas locais e conhecer mais da música inglesa, Caetano é tomado por uma profunda tristeza e mergulha numa forte depressão por conta da situação de privação de suas liberdades e também da saudade do calor nosso país (do clima e do povo brasileiro), o que fez com que o artista passasse por um momento mais quieto e introvertido.

Ele só resolveu falar de novo e encarar a dor e a saudade, fazendo o que sabe fazer de melhor: em forma de canção. Foi assim que nasceu o belíssimo – e de certa forma triste e melancólico – disco Caetano Veloso (1971), que completou, no último mês, 50 anos de existência. Foi fazendo música que Caetano conseguiu encontrar um conforto para a sua solidão e tristeza no exílio, após dois anos sem lançar nada.

Até a capa do disco reflete o momento que o artista vivia. Na foto, vestido com um casaco de peles que parece o proteger do frio e da frieza dos tempos de exilado e de uma Londres cinzenta e chuvosa, ele nos olha fixamente, com um olhar extremamente sério, triste e penetrante, como se estivesse nos pedindo socorro.

As sete faixas do disco, quase todas em inglês, traduzem – em suas letras, arranjos e melodias – a dor de Caetano por ter sido arrancado à força de seu país. As canções trazem influências da música inglesa, com a qual Caetano fazia contato – principalmente dos Beatles –  mas também fazem referência, o tempo todo, à música popular brasileira que o formou.

Todas as faixas são formatadas – inclusive – a partir do violão de Caetano, primeira vez que ele toca o instrumento em um disco, pois antes não se sentia seguro para isso. Os produtores ingleses o incentivaram a tocar, por admirarem a performance do artista brasileiro ao violão.

Faixa a Faixa:

1 – O disco inicia com a canção A Little More Blue, em que Caetano escancara a dor que sente naquele momento exato, vivendo em Londres (dá pra sentir  a tristeza na sua voz e nos acordes do violão), e diz que não sabe explicar porque hoje se sente ainda mais triste do que nunca:

“Um dia eu tive que deixar meus país, praia calma e palmeira / Nesse dia eu não pude nem mesmo chorar / E esqueci-me de que lá fora havia outros homens / Mas hoje, mas hoje, mas hoje, eu não sei por que / Eu me sinto um pouco mais triste do que então”. (a canção é em inglês e essa é a tradução literal de um trecho para o português)

2 – A balada que virou um clássico da MPB, London London, traz um resgate ao Brasil, com uma forte influência da bossa nova e do violão de João Gilberto (acompanhado de uma doce flauta transversal) e nos conta sobre caminhar solitário contra o vento londrino – que Caetano considera uma cidade amável, “de grama verde, olhos azuis e céu cinza” – mas onde não consegue sentir nem medo, nem esperança.

Caetano também nos aponta para a contradição de os policiais ingleses serem acolhedores e prestativos, diferente daqueles que o perseguiram e prenderam no Brasil.

3 – Na canção Maria Bethânia, Caetano faz um jogo de palavras com o nome da  irmã cantora (que por sinal foi ele quem escolheu) e a palavra da língua inglesa “better”, que significa “melhor”. Ele pede que a irmã, por favor, lhe escreva uma carta, pois ele deseja saber que as coisas no Brasil estão melhorando:

“Maria Bethânia, please send me a letter / I wish to know things are getting better / Better, better, beta, beta, Bethânia”.

Esse é o refrão da canção e é cantado de forma leve e amorosa. Mas quando entra a outra parte da música, que fala sobre a ansiedade e angústia de viver nos dias atuais, escutamos um Caetano duro, quase bravo, e assertivo.

4 – O tradicional samba de roda de domínio público, Marinheiro Só serve de base para a faixa If I Hold A Stone, uma canção que fala da saudade que Caetano sente do Brasil, reforçada ainda mais pela inserção do trecho de Quero Voltar Pra Bahia, canção-hino que os amigos Paulo Diniz e Odibar fizeram especialmente para o exílio de Caetano:

“Eu não sou daqui / Eu não tenho amor / Eu sou da Bahia / De São Salvador”

“Eu não vim aqui / Para ser feliz / Cadê meu sol dourado / E cadê as coisas do meu país?”

“If you hold a stone / Hold it in your hand / If you feel the weight / You’ll never be late / To understand”

5 – Em Shoot Me Dead, o artista canta sobre a incerteza e critIca a desinformação, num jogo de palavras truncadas que trazem menos certezas ainda para quem tenta decifrá-las.

No fim da canção, traz de novo o resgate à brasilidade ao clamar pela figura simbólica da “morena”, citada em outras de suas canções como Tua Presença Morena.

6 – A única canção em parceria do disco é com o seu também parceiro de exílio, Gilberto Gil: In the hot sun of a Christmas Day. Nela, Caetano conta sobre uma perseguição policial, sobre o sol quente de um dia de Natal, em que ele – fugindo – passa por pessoas que estão cegas, não o enxergam, não enxergam sua dor, sua condição. Parece que ele está em um sonho – ou um pesadelo – e tudo o que ele precisa é do amor de sua garota. No fim, os policiais matam outra pessoa.

7 – A única canção inteiramente em português e não autoral do disco é uma releitura de Asa Branca, clássica toada do sertão, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Um forte resgate de Caetano às suas raízes, cantado de forma quase que desesperada, nostálgica e emocionante:

“Hoje longe, muitas léguas / Nessa triste solidão / Espero a chuva cair de novo / Pra mim vortar pro meu sertão”

Somente sete faixas e uma obra-prima. 50 anos de uma obra-prima.

ACERVO, Noticias, RADAR
 
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