Alegria, Alegria

6 de junho de 2017Notas Musicais

A música “Alegria, Alegria” foi composta por Caetano Veloso, fala de liberdade e foi o marco inicial do movimento “Tropicalismo”, em 1967. Apesar do título, a canção nada fala sobre alegria. É uma letra que representa uma ideologia que vai contra o regime autoritário que prevalecia na época.  Uma verdadeira síntese política e cultural do Brasil e do mundo nos anos 60.

Caetano se inspirou na canção “A Banda”, de Chico Buarque para compor “Alegria, Alegria”. Ele queria compor uma música que fosse uma marcha, mas que ao mesmo tempo fosse contemporânea, pop, com elementos de cultura de massa da época. A letra é complexa, uma vez que Caetano, percebendo a repressão ditatorial, teve que usar alguns recursos literários para disfarçar o que ele realmente gostaria de dizer.

A música foi apresentada pela primeira vez no Festival da Record, conquistando os jovens e chocando os tradicionalistas da música popular brasileira. A cultura importada era considerada alienante, por isso Caetano usa as palavras “Coca-Cola” (maior símbolo do império norte-americano, imposto pela mídia na época), Brigitte Bardot e Cardinales (referência a atriz Claudia Cardinale). Mas, apesar da rejeição inicial, a música acabou conquistando o público, chegando ao quarto lugar na premiação final.

Em “Caminhando contra o vento / sem lenço e sem documento”, o verbo “caminhar” usado no gerúndio (caminhando) transmite a ideia de que essa trajetória é contínua e que nada será capaz de detê-la, mesmo seguindo “contra o vento” (contra as regras impostas). Apesar de lhe faltar uma identidade (documento) ele continuará seguindo seu rumo. Andar pela rua sem documentos também era uma tática utilizada pelos reprimidos da ditadura. Enquanto os repressores perdiam tempo tentando identificar alguém que não portava documentos, os demais reprimidos ganhavam tempo para fugir. Encontramos também na letra uma citação de Jean-Paul-Satre (do livro “As Palavras”): “nada nos bolsos e nada nas mãos”, que virou “nada nos bolsos ou nas mãos”.

“Dentes, pernas, bandeiras” significam, respectivamente: coragem para manifestar, fuga da repressão e faixas ilustradas ou escritas. A precariedade na educação brasileira, visando pessoas alienadas é encontrada em “O sol nas bancas de revista / me enche de alegria e preguiça / quem lê tanta notícia?”. O governo censurava alguns livros considerados “inadequados”, que poderiam fazer as pessoas refletirem sobre essa repressão e até mesmo se revoltarem contra a situação imposta. Qualquer livro de capa vermelha ou que se opusesse aos ideais da ditadura, era proibido de circular.

“Alegria Alegria” ajudou a criar o estilo intitulado MPB e deslocou a música brasileira para um cenário de crítica social. Caetano teve grande parte da sua obra censurada pelo regime militar. Foi preso, exilado e considerado pelo governo como “persona non grata”, voltando ao Brasil só em 1972. Foi tema de abertura de “Anos Rebeldes”, novela da Rede Globo na década de 80, quando o regime militar já estava perdendo a sua força. A música é considerada a 10° maior canção brasileira de todos os tempos, pela Revista Rolling Stone Brasil e ultrapassa gerações.

E por falar em Tropicália, a peça “Alegria, Alegria”, com roteiro e direção de Moacyr Góes e Zélia Duncan como condutora, celebra a história e os 50 anos do movimento que revolucionou a música popular e a cultura brasileira! Confira abaixo a matéria completa:

 

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